Verão de 2026 registra chuvas intensas e mortes em São Paulo e Minas Gerais

O verão de 2025-2026 foi marcado por uma série de eventos meteorológicos extremos que afetaram praticamente todo o território brasileiro. A combinação de sistemas atmosféricos, como a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) e frentes frias semiestacionárias, resultou em chuvas persistentes e volumosas de dezembro a março. Enquanto o país se recupera do período, os dados oficiais revelam um cenário de transtornos urbanos, danos materiais e, lamentavelmente, perda de vidas, concentrados principalmente nos estados de São Paulo e Minas Gerais.

Sistemas atmosféricos explicam a persistência das chuvas

A configuração meteorológica foi decisiva para o verão chuvoso. Com a ZCIT posicionada ao sul do Equador, um fluxo intenso de umidade do oceano Atlântico invadiu o continente. A circulação de ventos associada a esse sistema distribuiu a umidade de forma mais ampla do que o habitual, pois o sistema de alta pressão que normalmente restringe esse fluxo estava enfraquecido. Essa condição permitiu a formação de extensas bandas de nuvens e células de trovoadas significativas sobre as regiões Centro-Oeste e Nordeste, além de atingir com força o Sudeste. A atuação de frentes frias fracas, que tenderam a ficar paradas sobre algumas regiões, criou zonas de convergência que mantiveram a precipitação de forma contínua, mesmo quando não era extremamente intensa.

Minas Gerais enfrenta o fevereiro mais chuvoso em 30 anos

A Zona da Mata Mineira foi uma das áreas mais castigadas. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) confirmou que fevereiro de 2026 foi o mês mais chuvoso da região nas últimas três décadas, com registros comparáveis apenas a 1996. Municípios como Juiz de Fora, Mathias Barbosa e Ubá sofreram com volumes de chuva extraordinários. Em Juiz de Fora, o acumulado entre 1º e 24 de fevereiro chegou a 579,3 milímetros, mais de três vezes a média histórica para o período. O ápice foi no dia 24, quando 190 milímetros caíram em apenas quatro horas, conforme a Defesa Civil local.

Geografia local agrava impactos com deslizamentos

A tragédia em Minas Gerais foi potencializada pelas características do terreno. A região, classificada como “Mares de Morros”, possui relevo acentuado com colinas arredondadas e vales profundos. A chuva persistente saturou completamente o solo, que perdeu sua consistência e se liquefez, provocando deslizamentos em encostas. Em áreas urbanas construídas nessas vertentes, residências foram soterradas com pessoas dentro. Os rios Paraibuna e Ribeirão de Ubá transbordaram, somando inundações aos desastres causados pelos movimentos de terra. Até o fim de março, mais de 169 municípios mineiros ainda permaneciam em estado de emergência.

Mortes por enxurradas marcam o verão em São Paulo

No estado de São Paulo, o padrão de letalidade foi diferente. Até 31 de março, foram confirmadas 21 mortes relacionadas às chuvas. A maioria ocorreu não por deslizamentos, mas porque as vítimas foram surpreendidas por enxurradas violentas ou tentaram atravessar áreas alagadas. Em 7 de março, duas mortes foram registradas em um único dia: uma em São Bernardo do Campo e outra em Sorocaba. Nesta última cidade, um evento extremo concentrou 144,4 milímetros de chuva em apenas três horas, volume próximo à previsão para todo o mês. Apesar da tragédia, a Defesa Civil estadual contabilizou duas mortes a menos que no verão anterior (2024-2025).

Problemas crônicos de infraestrutura se repetem nas metrópoles

Além das fatalidades, os grandes centros urbanos repetiram transtornos conhecidos. Em dezembro de 2025, fortes ventos associados a tempestades na capital paulista derrubaram árvores e a rede elétrica, deixando cerca de 4,5 milhões de pessoas sem energia, algumas por dias. A lentidão no restabelecimento do serviço expôs novamente a vulnerabilidade do sistema. Curiosamente, em meio a um verão tão chuvoso, a empresa de abastecimento de água da região metropolitana de São Paulo manteve o rodízio no fornecimento, iniciando os cortes inclusive uma hora mais cedo, às 21h. A justificativa de que “não chove onde deveria” soa contraditória diante da extensa cobertura de nuvens registrada sobre as bacias hidrográficas.

Riscos à saúde pública surgem após as inundações

As consequências das chuvas prolongam-se após o fim das tempestades. Inundações e enchentes criam ambientes propícios para o surgimento de doenças. Em Minas Gerais, autoridades de saúde monitoram casos de leptospirose, doença transmitida pela urina de roedores que se mistura à água das enxurradas. O contato da pele com água ou lama contaminada é a principal via de infecção. Esse risco, somado ao desabrigamento de centenas de famílias, representa um desafio adicional para os serviços públicos no período pós-desastre, demandando ações coordenadas de vigilância sanitária e assistência social.

O verão de 2026 reforçou a necessidade de uma abordagem dupla para minimizar tragédias. É imperativo avançar em obras de drenagem urbana, contenção de encostas e manutenção de redes essenciais, reconhecendo que eventos extremos são inerentes ao clima tropical. Paralelamente, é crucial educar a população sobre os perigos ocultos das enxurradas e inundações. A força da água é frequentemente subestimada, e a decisão de atravessar uma via alagada ou tentar salvar pertences pode ser fatal. A melhor resposta, sempre, é aguardar em local seguro até a passagem do perigo, um protocolo simples que salva vidas diante da força avassaladora da natureza.

Compartilhar este artigo
Canal oficial de conteúdo do portal Overcentral. A Equipe Central produz notícias, guias e análises com foco em credibilidade e relevância, garantindo que você receba o melhor conteúdo editorial diariamente.