Candidatos de Minas Gerais disputam eleição estadual como peças de palanques nacional

A corrida pelo governo de Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do Brasil, está sendo tratada por grandes partidos como um movimento estratégico para fortalecer candidaturas presidenciais e parlamentares. Enquanto o estado enfrenta uma grave crise fiscal com pouca margem para investimentos, caciques da direita e da esquerda negociam nomes que muitas vezes não têm experiência executiva ou interesse genuíno em administrar Minas. O Palácio da Liberdade parece ser um objetivo secundário em um tabuleiro de xadrez montado em Brasília.

Cleitinho Azevedo lidera pesquisas como herdeiro do bolsonarismo

Um levantamento da Paraná Pesquisas divulgado nesta semana mostra Cleitinho Azevedo (Republicanos) com 45,6% das intenções de voto para governador. O parlamentar, que tem mandato no Senado até 2030 e zero experiência no Executivo, cedeu ao pedido de Marcos Pereira e anunciou sua pré-candidatura. Analistas apontam que ele é o claro herdeiro dos votos do bolsonarismo no estado. Sua capacidade de gestão é questionada, mas sua força nas pesquisas pode garantir um vice com credibilidade junto ao empresariado, como Flávio Roscoe, presidente da Fiemg, ou até uma transferência para o PL, dependendo da costura nacional.

Nikolas Ferreira recusa candidatura e Flávio Bolsonaro busca opção

Nikolas Ferreira (PL), uma das poucas lideranças produzidas pela direita mineira no último ciclo, era o favorito dos Bolsonaro e de Valdemar Costa Neto para concorrer ao governo. O deputado, entanto, não se dá bem com o clã e preferiu continuar na Câmara, deixando Flávio Bolsonaro sem um candidato óbvio em Minas. O nome de Flávio Roscoe é estudado pelo partido para encabeçar ou compor alguma chapa. Mesmo Nikolas, considerado o parlamentar mineiro mais influente no momento, tende a ser um eco do que Valdemar e Flávio decidirem nacionalmente.

PSD e MDB tentam resgatar lideranças locais em cenário fragmentado

Mateus Simões (PSD) e Gabriel Azevedo (MDB), ex-aliados criados nos anos de ouro do PSDB mineiro, tentam provar que o estado ainda é capaz de produzir candidatos ao Executivo com articulação própria. Separaram-se quando o bolsonarismo tornou-se a principal força da direita: Simões aderiu ao discurso, Azevedo o renegou. Mateus, vice de Romeu Zema, terá a máquina na mão a partir do próximo mês, mas sua popularidade não engrena nas pesquisas. A popularidade de Zema, pré-candidato à presidência, já não é forte o bastante para eleger um sucessor com facilidade.

Gilberto Kassab e Romeu Zema podem rifar candidatura de Mateus Simões

O PSD de Gilberto Kassab, com 142 prefeituras no estado, poderia dar a capilaridade que Mateus Simões precisa. Kassab, entanto, parece mais interessado em eleger deputados para a Câmara, o que pode resultar em um acordo que tire Mateus da disputa. Outro que pode rifar Mateus é o próprio Romeu Zema, abrindo mão de lançar sucessor em um possível acordo para ser vice de Flávio Bolsonaro. Gabriel Azevedo, por sua vez, aparece como pré-candidato de um fragmentado MDB e tenta costurar acordos com o PSDB de Aécio Neves e com a federação União Progressista.

Rodrigo Pacheco é pressionado para ser candidato de Lula em Minas

Rodrigo Pacheco, atual presidente do Senado e favorito de Lula para disputar o pleito pelo campo da centro-esquerda, precisará de um novo partido caso aceite concorrer, já que está no PSD. Suas opções mais viáveis são o MDB e o União Brasil. Gente próxima ao governo afirma que não há outro nome que não Pacheco para conduzir o palanque de Lula em Minas. Um analista enxerga poucas chances de vitória para Pacheco, mas entende que um acordo com Lula visando uma indicação futura ao STF pode ser vantajoso. PL e PSD também querem seduzir o União para reduzir as opções de Pacheco e Lula.

PT escala Marília Campos para Senado e Alexandre Silveira é reserva

A principal liderança criada pelo PT no estado nos últimos anos, a prefeita de Contagem Marília Campos, está escalada para concorrer ao Senado. O partido precisa desesperadamente de algumas vitórias em meio à onda bolsonarista estimada. A eleição para o Senado ganhou protagonismo por ser decisiva para eventuais processos de impeachment de ministros do STF. Alexandre Silveira (PSD), atual ministro de Minas e Energia, é um que pode “ir para o sacrifício” na eleição estadual caso Pacheco consiga dizer não a Lula.

As investigações sobre o Banco Master, que têm potencial de fazer um estrago enorme nas urnas, também devem complicar as negociações. A indefinição se estenderá durante os próximos meses, em linha com as costuras nacionais em Brasília. Para os mineiros, 4 de outubro ainda parece muito distante. O cenário eleitoral do estado, que sempre funcionou como um termômetro do voto nacional, hoje reflete uma política local engolida pela agenda nacional, onde a eleição ao governo parece fadada a ser uma vitrine para candidatos a outros cargos.

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