O cachorro morre primeiro em Assim na Terra como embaixo da Terra. Corroído por uma úlcera, o animal sem nome contempla sua própria carne definhar como mascote de uma colônia penal. Essa cena inicial, que ecoa a morte de Baleia em Vidas Secas de Graciliano Ramos, anuncia o universo brutal que se desdobra nas páginas seguintes. Após o cão, muitos homens seguirão o mesmo destino.
Reconhecimento internacional para literatura brasileira contemporânea
Publicado originalmente em 2017 pela Record, o romance ganhou tradução para o inglês apenas no ano passado pela editora escocesa Charco Press. Agora, On Earth as It Is Beneath – título na versão da tradutora canadense Padma Viswanathan – figura entre os 13 semifinalistas do prestigioso Booker International, prêmio britânico que seleciona anualmente o melhor romance estrangeiro traduzido no Reino Unido ou na Irlanda. A lista final de seis obras será anunciada em 31 de março, com o vencedor revelado em maio.
O impacto imediato da indicação no mercado editorial
Ana Paula Maia, autora de 48 anos com oito livros publicados, já sentiu o chamado Booker bounce – o efeito que a indicação provoca nas vendas e no interesse internacional. “Foi imediato”, afirmou a escritora em entrevista ao Brazil Journal. Carolina Orloff, editora da Charco Press, já comunicou que uma nova tiragem será impressa para atender à demanda crescente. Editoras de outros países também começaram a procurar a autora brasileira.
Trajetória consolidada por prêmios nacionais e internacionais
Antes do Booker International, Ana Paula Maia já acumulava reconhecimento significativo. Venceu duas vezes o Prêmio São Paulo de Literatura – por Assim na Terra como embaixo da Terra e por Enterre seus Mortos. No exterior, De Gados e Homens (traduzido como Of Cattle and Men) conquistou o Republic of Consciousness Prize, dedicado a obras de editoras independentes. A indicação ao Booker, no entanto, representa um novo patamar na projeção internacional de sua obra.
A violência como herança histórica no sistema carcerário
No romance semifinalista, a Colônia Penal construída em área selvagem está prestes a ser fechada. Seu diretor, Melquíades, enlouquecido, solta os internos em noites de lua cheia para caçá-los com uma espingarda. Bronco Gil, ex-matador de aluguel e protagonista da história, tenta escapar dessa sanha homicida. Durante enterros das vítimas, os prisioneiros descobrem esqueletos de escravos torturados e mortos no mesmo terreno.
Pesquisa que revela conexões orgânicas com a escravidão
“Quando comecei a pesquisar sobre o sistema carcerário, no Brasil e nas Américas, fui vendo que ele tinha relação com a escravidão”, explicou Ana Paula Maia. “Essas coisas começaram a se conectar organicamente com o projeto do livro.” O júri do Booker International destacou exatamente essa construção ao definir o romance como “um mundo fechado repleto de horror, brutalidade e decadência moral”, escrito em “prosa enxuta mas magistral”.
O horror como gênero literário de eleição
The New York Times classificou On Earth as It Is Beneath como um livro de horror – definição que deixou a autora satisfeita. Apesar de o sobrenatural ser relativamente discreto nesta obra em comparação com trabalhos posteriores (como De Cada Quinhentos uma Alma, com possessões demoníacas e eventos apocalípticos), a estrutura segue a tradição gótica: cenário isolado (a prisão substitui o castelo medieval), personagens enlouquecendo sob influência de maldição ancestral.
Formação literária nas raízes do terror clássico
Natural de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Ana Paula foi alfabetizada pela mãe aos cinco anos e desenvolveu avidez pela leitura. Na adolescência, foi baterista de banda punk, mas sua paixão maior sempre foram as artes narrativas – literatura e cinema (atuando paralelamente como roteirista para a Globo). Edgar Allan Poe foi influência fundamental, homenageado no nome do personagem recorrente Edgar Wilson, que conjuga o nome do autor americano com William Wilson, protagonista de um de seus contos mais famosos.
Universo ficcional singular e deliberadamente deslocado
A literatura de Ana Paula Maia transfigura a tradição clássica do horror através de violência visceral – com vísceras literalmente abundantes em seus livros, onde matadouros de porcos, bois ou búfalos são cenários recorrentes. Seu mundo ficcional começou a se configurar a partir do terceiro livro, Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos, onde Edgar Wilson estreou. “Foi então que eu entendi o que queria escrever”, recorda a autora.
Escrita que desafia expectativas identitárias
Sua obra foge ao que normalmente se espera de uma escritora brasileira contemporânea. Ana Paula é negra mas quase não trata de questões raciais diretamente. É mulher mas cria apenas protagonistas masculinos. Seus personagens são tipos brutos, mas estranhamente cativantes. “A ideia é trabalhar uma questão mais primitiva do homem, na sua essência”, explica. Seu Brasil ficcional não traz localizações geográficas específicas nem marcas claras do tempo histórico, criando uma estranheza deliberada.
Próximo projeto mantém a atmosfera de estranheza característica
O Tenebroso Brilho do Sol, seu próximo romance previsto para o segundo semestre pela Companhia das Letras, se passará em cidade devastada por enchente no Rio Grande do Sul. Embora Bronco Gil e Edgar Wilson não apareçam, a atmosfera peculiar permanece: no centro da narrativa está ritual fúnebre onde vivos vestem roupas que pertenceram aos mortos. A autora continua explorando os mesmos territórios literários que a levaram ao Booker International, provando que o horror visceral brasileiro tem ressonância global.
A indicação ao Booker International consolida Ana Paula Maia como voz singular na literatura contemporânea, cuja obra transcende fronteiras geográficas e expectativas de gênero. Seus romances, que misturam violência extrema com profundas reflexões sobre a condição humana, demonstram como a literatura de horror pode ser veículo para criticas sociais agudas e investigações existenciais profundas. O reconhecimento internacional chega não como surpresa, mas como confirmação de que sua visão artística única encontrou ressonância global, abrindo caminho para que mais autores brasileiros explorem gêneros tradicionalmente marginalizados no cânone literário nacional.

