Maestro da Osesp combina Beethoven com Stockhausen em temporada de 2026

Aos dez anos, vivendo na Costa do Marfim, Thierry Fischer descobriu na coleção de discos de sua mãe a Quinta Sinfonia de Beethoven. Aquele contato inicial, descrito por ele como puramente instintivo – dançar sozinho repetidamente ao som daquela melodia – plantou a semente de uma vida dedicada à música. Quase seis décadas depois, o maestro titular e diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) não apenas continua encantado pelas criações do alemão, como também as coloca em diálogo com as vanguardas mais radicais, em uma temporada que define como uma das mais bem balanceadas da instituição.

O equilíbrio entre o clássico e o contemporâneo

A temporada de 2026 da Osesp, a sexta sob o comando de Fischer e a segunda em que ele acumula as funções de maestro principal e diretor artístico, navega propositalmente entre extremos. De um lado, estão os “cavalos de batalha” do repertório, como Beethoven e Mahler, com a Nona Sinfonia abrindo a programação. Do outro, um ciclo dedicado a Mendelssohn e, mais significativamente, obras de autores de ponta do século XX como Igor Stravinsky e Gyorgy Ligeti. O universo brasileiro está representado por nomes consagrados, como Almeida Prado, e pela nova geração, com Leonardo Martinelli, que compôs “Cânticos da Casa do Sol” por encomenda da orquestra.

A Nona Sinfonia como mensagem para tempos turbulentos

Para Fischer, a escolha da Nona Sinfonia de Beethoven para a abertura não foi aleatória. Ele vê na obra uma mensagem urgente. “Trata-se de uma peça que fala da obrigação do diálogo, de sermos confortados por uma mensagem simples e otimista. Exatamente o que precisamos em tempos tão turbulentos,” afirmou o regente. Essa busca por significado e conexão humana através da música clássica é um dos pilares de sua filosofia à frente da Osesp, equilibrando a familiaridade do repertório tradicional com a necessidade de olhar para o futuro.

O desafio vanguardista de Gruppen, de Stockhausen

O contraponto radical ao conforto beethoveniano veio logo na noite de estreia, com a execução de “Gruppen”, do compositor alemão Karlheinz Stockhausen. Composta entre 1955 e 1957, a obra é um desafio logístico e artístico monumental, exigindo três orquestras distintas distribuídas pela sala de concerto, criando uma sonoridade que “viaja” espacialmente. Fischer interpreta a peça como um profundo comentário pós-guerra. “Cada grupo representa uma energia, uma pequena comunidade, argumentando em conjunto e, apesar da total contradição e do caos, da impossibilidade de compreender o que o outro está fazendo, há sempre um diálogo,” explica.

Uma experiência icônica e cósmica no palco

Mais do que um concerto tradicional, Fischer classifica a execução de “Gruppen” como “uma experiência icônica e cósmica”. A complexidade intelectual da obra é tal que, nas palavras do maestro, “nem vale a pena começar a falar sobre ela”. O foco, portanto, está na experiência sensorial única que proporciona, com seus três palcos, três maestros e um caos organizado que culmina em momentos que ele descreve como “quase orgásmicos”, especialmente nos rituais finais com metais e percussão. Essa ousadia programática é a marca registrada de seu trabalho.

A formação de um regente entre a África e a Europa

A trajetória internacional de Thierry Fischer, nascido na Zâmbia e de origem suíça, moldou sua abordagem eclética. Seu primeiro instrumento foi a flauta doce, estudando posteriormente piano no Conservatório de Abidjan, na Costa do Marfim. Já na Europa, aprimorou seus estudos em flauta transversal na Alemanha. Sua carreira como instrumentista profissional, especialmente na Orquestra de Câmara da Europa, colocou-o em contato com dois gigantes da regência do século XX: Nikolaus Harnoncourt e Claudio Abbado.

As lições de Harnoncourt e Abbado

Desses dois mestres, Fischer extraiu lições fundamentais e aparentemente contraditórias. De Harnoncourt, herdou o rigor histórico e a importância das regras de articulação, andamento e contexto de época. “A expressão desse tipo de música vem das regras do tempo… Tudo é absolutamente crucial,” afirma. De Abbado, cuja aura descreve como “misteriosa” e “cósmica”, absorveu a importância da intuição e da emoção acima do mero rigor técnico. “Porque ninguém está interessado em ouvir algo historicamente correto, mas orgânico demais, sem emoção.” Esse duplo aprendizado é visível em sua condução, que busca equilibrar precisão e expressividade.

O futuro na Osesp e a busca pela excelência

Com contrato recentemente estendido até 2030, Thierry Fischer tem planos ambiciosos para a Osesp, incluindo projetos de gravação. Após registrar a Segunda Sinfonia de Mahler, os planos são gravar a Quarta e a Sétima, ambas na programação de 2026. Sua satisfação com a posição é evidente. “Me sinto mais orgulhoso do que nunca por estar na Osesp. A possibilidade e a busca pela excelência em todos os aspectos, dentro e fora dos palcos, são algo único na indústria da música clássica,” declarou ao Brazil Journal.

Esse compromisso com a excelência e a coragem programática – capaz de colocar Beethoven e Stockhausen no mesmo patamar de importância – define a era Fischer na Osesp. Ele não vê a temporada como um simples conjunto de concertos, mas como um “museu de arte moderna” vivo, onde o reconhecimento do clássico e o desafio do novo coexistem para criar uma experiência musical completa e relevante para o público de 2026. Seu orgulho não está em uma marca pessoal imposta, mas na construção coletiva de um padrão de qualidade que exige passos difíceis, mas firmes, no caminho da arte.

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