Espanha perde posição entre os 10 melhores do mundo em mulheres diretoras após dois anos consecutivos de queda

O último relatório Women in Business da Grant Thornton revela uma contradição preocupante no mercado empresarial espanhol. Enquanto o país se consolida como referência global na implementação de estruturas formais de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), os dados mostram um retrocesso alarmante na presença feminina nos cargos de maior autoridade. A Espanha, que chegou a figurar entre as dez nações com maior representatividade feminina em diretoria, caiu para a 14ª posição mundial após dois anos consecutivos de redução.

Paradoxo espanhol: liderança em políticas DEI com estagnação na prática

O cenário espanhol apresenta um contraste marcante entre o discurso corporativo e a realidade dos números. Com 97,1% das empresas médias possuindo estratégias definidas de diversidade e inclusão – porcentagem significativamente superior às médias europeia e global – a infraestrutura formal parece sólida. No entanto, essa aparente vantagem não se traduz em progresso real nos últimos anos. Desde que alcançou o pico histórico de 40% de mulheres em cargos diretivos em 2024, o país registra quedas consecutivas, chegando a 37,3% em 2026.

O preocupante aumento de empresas sem mulheres na diretoria

Um indicador particularmente alarmante é o crescimento de empresas espanholas sem nenhuma mulher em seus comitês executivos. Em apenas um ano, esse número saltou de 4,5% para 7,8%, distanciando-se dos padrões europeus (4,8%) e globais (5,7%). Este aumento de mais de três pontos percentuais sugere que, apesar das políticas formais, barreiras estruturais persistentes continuam impedindo o acesso feminino aos mais altos escalões corporativos.

Panorama global: retrocesso generalizado com exceção europeia

O ano de 2026 marca um ponto de inflexão negativo na trajetória global de representação feminina em cargos de liderança. Quase todas as regiões do mundo registraram diminuições nos percentuais de mulheres em posições diretivas, com África e América do Norte sofrendo quedas superiores a dois pontos percentuais. A América do Sul, mesmo com leve redução, mantém a liderança mundial com 37% de representação feminina.

Europa como única exceção em cenário de declínio mundial

Neste contexto de retrocesso generalizado, a Europa emerge como a única região a evitar o declínio, registrando um aumento simbólico de 0,1%. Dentro do continente, a Espanha mantém posição de liderança relativa com seus 37,3%, superando tanto a média da União Europeia (34,9%) quanto o dado global (32,9%). No entanto, essa posição de destaque relativo esconde uma realidade mais complexa quando analisada em perspectiva histórica.

A década perdida: estagnação nos cargos de máxima influência

Os dados revelam o que especialistas classificam como uma “década perdida” para as mulheres nos cargos de maior influência corporativa. O percentual de mulheres CEO na Espanha caiu para 18,5% em 2026, representando um declínio de dez pontos percentuais em apenas três anos, desde o pico de 28,5% registrado em 2023. O aspecto mais revelador é que, dez anos atrás, em 2016, o percentual de CEOs femininas era praticamente idêntico: 18%.

Presidências permanecem em patamar residual

A situação é ainda mais crítica nas presidências de conselhos e empresas, estagnadas em um residual 3,4%. Este cenário contrasta fortemente com a tendência global, onde o número de mulheres CEO aumentou 2,1 pontos percentuais, alcançando 23,8%. A discrepância sugere que fatores específicos do mercado espanhol estão dificultando o avanço feminino para os cargos de maior prestígio e poder.

Distribuição desigual: mulheres concentradas em áreas de suporte

A análise da distribuição de mulheres por áreas funcionais revela padrões persistentes de segregação vertical e horizontal. As diretoras continuam concentradas em áreas tradicionalmente consideradas de suporte: Recursos Humanos (46,8%) e Finanças (38,5%). Em contraste, as áreas estratégicas consideradas críticas para o futuro das empresas apresentam representação feminina significativamente menor.

Sub-representação em funções estratégicas e tecnológicas

Apenas 11,5% das Direções de Tecnologia (CTO) e 13,4% das Direções de Informação (CIO) são ocupadas por mulheres na Espanha. Mesmo em funções tradicionalmente associadas ao feminino, como a Direção de Comunicação, a representação se limita a 9%. Esta distribuição desigual sugere que, mesmo quando as mulheres alcançam posições de liderança, frequentemente o fazem em áreas com menor influência estratégica e poder decisório.

Desigualdades regionais dentro da Espanha

As disparidades não se limitam às áreas funcionais, mas também se manifestam geograficamente dentro do próprio território espanhol. As Ilhas Canárias lideram em termos de presença feminina em cargos diretivos com 42,6%, seguida por Andalucía (42%), Comunidade de Madrid (40,8%) e Catalunha (40,5%). Em contraste, regiões como Navarra apresentam apenas 24,4% de mulheres em posições de direção.

Fatores que explicam as diferenças regionais

Especialistas apontam que essas variações podem estar relacionadas a diferenças na estrutura industrial regional, tradições culturais locais e políticas de igualdade implementadas pelos governos autônomos. No entanto, a persistência dessas disparidades mesmo dentro de um país com legislação nacional unificada sobre igualdade sugere que fatores não legislativos continuam exercendo influência significativa.

Pressão dos investidores: a paridade como critério de financiamento

Um dos desenvolvimentos mais significativos dos últimos anos tem sido a crescente pressão dos investidores por maior transparência e progresso em matéria de igualdade de gênero. Segundo o relatório, 26,5% das empresas espanholas afirmam ter recebido solicitações de investidores para conhecer seus níveis de paridade de gênero antes de comprometer recursos financeiros.

A diversidade como vantagem competitiva e estratégia de sobrevivência

Esta pressão externa se combina com uma crescente consciência interna sobre os benefícios tangíveis da diversidade. Diretores espanhóis identificam melhorias concretas em suas organizações: 22,1% afirmam que a diversidade torna suas empresas mais inovadoras, 19,5% apontam melhoria na tomada de decisões e 18,8% mencionam melhor desempenho financeiro. Para quase metade das empresas médias (47,6%), que identificam a falta de financiamento como principal limitação ao crescimento, destacar iniciativas de igualdade tornou-se uma estratégia de sobrevivência financeira.

Resistência às tendências internacionais de retrocesso

Em um contexto global marcado por movimentos contrários às políticas DEI, particularmente nos Estados Unidos, a Espanha demonstra resiliência em seu compromisso com a igualdade. “Os tambores de retrocesso, principalmente provenientes dos Estados Unidos, estão tendo um efeito limitado sobre os planos e programas de diversidade de gênero em nosso país”, explica Isabel Perea, sócia-diretora de Auditoria da Grant Thornton.

O papel da legislação espanhola na manutenção do compromisso

Este compromisso persistente tem raízes na legislação nacional. Desde março de 2022, empresas espanholas com 50 ou mais trabalhadores são obrigadas a implementar Planos de Igualdade que incluem ações concretas para promover igualdade de tratamento e oportunidades. Esta base legal fornece um piso mínimo que impede retrocessos significativos, mesmo em períodos de pressão contrária.

O desafio da próxima década: traduzir políticas em resultados

O principal desafio identificado pelo relatório não é a criação de novas políticas ou estruturas formais, mas a tradução eficaz dessas iniciativas em resultados mensuráveis. Com 69,5% das empresas revisando suas políticas de diversidade no último ano – majoritariamente como parte de processos de avaliação padrão (50,2%) – a infraestrutura para o progresso existe. A questão central é por que essa infraestrutura não está produzindo avanços consistentes na representação feminina nos cargos de maior poder.

Mudança de foco: da implementação para a efetividade

Especialistas sugerem que é necessário uma mudança de paradigma: em vez de focar exclusivamente na criação e implementação de políticas, as organizações precisam desenvolver mecanismos mais sofisticados para medir a efetividade dessas iniciativas e identificar barreiras específicas que impedem o progresso feminino. Isso inclui análise mais detalhada dos processos de promoção, cultura organizacional e mecanismos informais de poder.

O cenário que se apresenta para os próximos anos é de complexidade crescente. Enquanto a base legal e o compromisso corporativo com a igualdade parecem sólidos na Espanha, os dados revelam obstáculos persistentes que resistem às soluções tradicionais. O verdadeiro teste para as empresas espanholas não será manter suas políticas de diversidade, mas transformar essas estruturas formais em mudanças reais na composição de seus órgãos de máxima decisão – onde, afinal, se define não apenas o futuro das próprias organizações, mas também o ritmo do progresso social em direção a uma sociedade verdadeiramente equitativa.

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