O universo digital brasileiro está em ebulição com um fenômeno que mistura educação, entretenimento e investimentos. Dados inéditos do estudo Finfluence 10, da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), revelam que a audiência agregada dos influenciadores de finanças no país saltou de 74 milhões para impressionantes 310,7 milhões de seguidores em pouco mais de cinco anos, um crescimento vertiginoso de 300%. Paralelamente, o número de criadores de conteúdo mapeados pela associação chegou a 904 no segundo semestre de 2025, representando um avanço de 12,6% em relação ao período anterior. Este crescimento explosivo, no entanto, trouxe à tona uma questão crítica: a qualificação daqueles que orientam milhões de brasileiros sobre como aplicar seu dinheiro.
Anbima implementa nova metodologia para medir influência real
Diante de um cenário onde seguidores podem ser comprados e números facilmente inflados, a Anbima, em parceria com o Ibpad (Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados), desenvolveu uma metodologia sofisticada para avaliar a influência real. A estratégia vai muito além da métrica bruta de seguidores. “O número de seguidores não tem o maior peso, porque seguidor se compra”, afirma Amanda Brum, CMO da Anbima. A análise agora considera a frequência de postagem, a qualidade do engajamento gerado, o poder de pautar outros criadores e até mesmo quantos colegas influenciadores seguem determinado perfil. Esses dados, coletados por robôs e processados em uma fórmula proprietária, resultam em um ranking que classifica os perfis do mais ao menos influente de forma mais assertiva.
Mercado financeiro na internet entra na era da hiperespecialização
O conteúdo genérico perde espaço para especialistas de nicho. Amanda Brum destaca que a internet se fragmentou em “nuvens” de conhecimento específico. Enquanto em 2020 o estudo mapeava nove categorias temáticas, atualmente são 15. “Tem influenciador que só fala de cripto e tem uma comunidade grande disso. Outros só falam de trade, fundos de investimento ou finanças pessoais básicas. Tem crescimento pra todo lado”, detalha a executiva. Esta segmentação reflete um público mais maduro, que busca informações profundas sobre áreas específicas do mercado, abandonando a figura do generalista que tentava cobrir todos os assuntos.
Transição do monitoramento quantitativo para a análise qualitativa do conteúdo
A atuação da Anbima evoluiu de um papel meramente observador, que ela mesma define como um “IBGE da internet”, para uma postura ativa de fiscalização qualitativa. A partir de 2025, a instituição começou a analisar o conteúdo dos maiores influenciadores, verificando a conformidade com as melhores práticas de publicidade e a ausência de discursos de ódio. Perfis que não se adequam a esses padrões são removidos do ranking oficial. Este movimento foi uma resposta direta a apelos do próprio setor financeiro, preocupado com a desinformação e com práticas comerciais abusivas disseminadas nas redes sociais.
Ranking de transparência expõe déficit de certificações e gera corrida por qualificação
O ponto de virada mais significativo ocorreu quando a Anbima decidiu tornar público, em seu ranking, quais influenciadores possuíam certificações técnicas válidas para o mercado financeiro, como o CNPI (Certificado Nacional do Profissional de Investimento). O resultado foi um choque de realidade: dos dez maiores influenciadores da edição anterior do estudo, apenas um detinha certificação relacionada às atividades sobre as quais dava conselhos. “Para nossa grande surpresa, quase ninguém tinha”, alerta Amanda Brum. A divulgação desse diagnóstico preocupante, porém, surtiu um efeito imediato e positivo. Influenciadores passaram a correr atrás da regularização. Durante o processo de checagem para o novo ranking, a Anbima ouviu de vários criadores pedidos como “dá para esperar? Porque a minha prova está agendada”.
Responsabilização das instituições financeiras que patrocinam o conteúdo
Com o crescimento da audiência, grandes volumes de investimento em marketing foram direcionados para parcerias com influenciadores, patrocinadas por corretoras, bancos e gestoras de recursos. É neste ponto que a Anbima exerce sua força regulatória de forma mais contundente. Por meio da autorregulação do mercado, a associação cobra diretamente a instituição financeira contratante. “Todas as empresas que estão dentro do ecossistema da Anbima, ao contratarem um influenciador, têm que seguir regras. O contrato tem que ficar claro, ser enviado para a Anbima, e a instituição é responsável pelo que ele está falando”, adverte a CMO. Caso um influenciador faça promessas irrealistas ou exerça atividade regulada sem a devida certificação, a empresa parceira é notificada e pode ser autuada, criando um efeito cascata de responsabilização.
O exercício ilegal da profissão se torna o principal alvo da fiscalização
A Anbima tem reforçado publicamente que muitas das atividades desempenhadas por influenciadores, como recomendação específica de investimentos e análise técnica de ativos, são regulamentadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e exigem certificação profissional. A falta dessa qualificação configura exercício ilegal da profissão, um risco tanto para o investidor leigo quanto para a integridade do mercado. A estratégia de pressionar as instituições financeiras a contratarem apenas perfis qualificados ou a exigirem a certificação como contrapartida visa justamente frear esta prática. “Quando exigimos das empresas as melhores práticas, estou forçando indiretamente uma melhoria do mercado de influência como um todo”, conclui Amanda Brum.
O futuro do setor: mais regulação, mais transparência e maior exigência do público
O movimento iniciado pela Anbima sinaliza uma tendência irreversível: a régua para falar de dinheiro na internet será cada vez mais alta. O investidor brasileiro, inundado por informações, começa a desenvolver um olhar mais crítico, e a transparência sobre qualificações se torna um diferencial competitivo. A corrida por certificações não é mais uma opção, mas uma necessidade para quem deseja se estabelecer com credibilidade no longo prazo. O mercado de influência financeira, que amadureceu em quantidade, agora enfrenta o desafio crucial de amadurecer em qualidade, segurança e responsabilidade, sob o olhar atento de reguladores e de um público cada vez mais informado.
A transformação em curso redefine o que significa ser um influenciador de sucesso no setor financeiro. Não basta mais ter milhões de seguidores ou um conteúdo viral. A autoridade conquistada por certificações reconhecidas, a profundidade técnica e o compromisso com a ética estão se tornando os novos pilares da influência digital sobre investimentos. Este é um caminho sem volta, que beneficia todo o ecossistema: de um lado, os criadores de conteúdo que se profissionalizam ganham legitimidade; de outro, o investidor comum ganha acesso a orientações mais seguras e embasadas em um mercado historicamente complexo.

