O mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) para o pequeno investidor vive um momento de expansão histórica. Dados consolidados pela Uqbar e pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) revelam que os FIDCs abertos ao varejo acumularam um patrimônio líquido de R$ 2,67 bilhões até o final de março de 2026, representando um crescimento de 43,1% apenas nos primeiros meses do ano. O movimento, impulsionado por uma regulação específica que entrou em vigor no final de 2023, demonstra uma migração clara: produtos antes restritos a grandes instituições agora conquistam espaço nas carteiras de pessoas físicas em busca de alternativas dentro do crédito privado.
Gestoras líderes aproximam fundos da marca de R$ 1 bilhão
A corrida pelo patrimônio é acirrada entre as principais gestoras do setor. O Solis Capital Antares Pioneiro FIC, pioneiro na categoria criado em junho de 2024, lidera o ranking com R$ 979,5 milhões, muito próximo de se tornar o primeiro FIDC de varejo a superar a barreira do bilhão de reais. Em pouco mais de um ano, o fundo saltou de R$ 394,9 milhões para o patamar atual, um aumento de 147%. “Tem mais pessoas físicas olhando os FIDCs como opção na renda fixa dentro do crédito privado, buscando uma forma mais pulverizada e descorrelacionada dos mercados tradicionais”, analisa Delano Macêdo, sócio da Solis Investimentos. O fundo conta com mais de 15 mil cotistas e tem registrado entradas diárias de aproximadamente R$ 3 milhões a R$ 4 milhões em novos recursos.
Estratégia de diversificação em fundos de fundos protege o investidor
A estratégia do Solis Pioneiro é baseada em um fundo de fundos, aplicando em uma carteira diversificada de 48 outros FIDCs. Segundo a gestora, 40% do portfólio está alocado em FIDCs de recebíveis multicedente e multisacado, e 21% em consignado público, classes consideradas mais seguras. A estrutura conta com uma subordinação média de 33% – parcela das cotas que absorve as primeiras perdas – e uma provisão para perdas de 8,5%. Com uma carência para resgate de 60 dias, o fundo busca oferecer uma rentabilidade média entre CDI + 1,0% e CDI + 1,3% ao mês, atraindo investidores que buscam um complemento à renda fixa tradicional.
Conversão de multimercado impulsiona captação de R$ 20 milhões mensais
Em segundo lugar no ranking, e também próximo do bilhão, está o Jive BossaNova90, com R$ 948 milhões em patrimônio e mais de 17 mil cotistas. O fundo nasceu em 2023 a partir da conversão de uma carteira multimercado de crédito privado para investidores qualificados, sendo aberto ao varejo em fevereiro de 2025. “Lançamos o BossaNova90 para público em geral no começo de 2025 e ele é um sucesso, com rentabilidade histórica desde o início superior a CDI mais 3%”, afirma Samer Serhan, sócio da JiveMauá. A captação do fundo acelerou significativamente em 2026, atingindo cerca de R$ 20 milhões por mês, com forte participação de ordens via corretoras.
Reforma tributária de 2023 foi gatilho para atratividade dos FIDCs
Serhan destaca que a opção da gestora pelos FIDCs foi catalisada pela mudança tributária de 2023, que extinguiu o come-cotas nesses veículos e estabeleceu uma alíquota única de Imposto de Renda de 15%, independente do prazo de aplicação. Essa mudança tornou os FIDCs mais vantajosos, do ponto de vista fiscal, em comparação com fundos de renda fixa ou multimercados de crédito privado tradicionais. “Está virando um mercado de balcão semelhante ao de CDB e ações”, observa o executivo, indicando que hoje são os próprios investidores que procuram ativamente pela aplicação, e não apenas os distribuidores que a oferecem.
Valora Investimentos registra crescimento de 46% com foco em cotas seniores
A Valora Investimentos, que atua com FIDCs desde 2005, também consolidou sua presença no varejo. Seu fundo Valora Vanguard, lançado para esse público em 2025, atingiu R$ 352 milhões em patrimônio, com um crescimento de 46,4% em 2026. “A demanda vem crescendo de forma consistente no varejo. Apenas em janeiro e fevereiro, o Valor Vanguard captou R$ 82 milhões e chegou a 5 mil cotistas”, relata Daniel Pegorini, CEO da Valora. O fundo se destaca por investir exclusivamente em cotas seniores de mais de 40 FIDCs diferentes, oferecendo um nível de proteção maior ao investidor de varejo, que busca produtos com menor complexidade e volatilidade.
Setores consignado e multicedente dominam as carteiras dos fundos
A composição das carteiras dos principais FIDCs de varejo revela uma preferência por setores considerados mais resilientes e de mais fácil compreensão. Além do consignado público e privado, os fundos de recebíveis multicedente e multisacado – que envolvem créditos originados de diversas empresas e devedores – são os mais presentes. Essa pulverização setorial e a focalização em créditos com lastro em consumo e varejo atendem à demanda do investidor pessoa física por previsibilidade e transparência. “Não é uma demanda por complexidade, é uma demanda por crédito que funcione e que seja transparente”, define Gabriel Padula, CEO do Grupo Everblue.
Risco de crédito e falta de FGC exigem análise criteriosa do investidor
Especialistas alertam, contudo, que o investidor não pode tratar os FIDCs como uma renda fixa tradicional. Trata-se de crédito estruturado, com riscos específicos que demandam entendimento. “O principal risco para o investidor é tratar FIDC como renda fixa tradicional. Na prática, é crédito estruturado, com riscos específicos”, adverte Padula. Inadimplência da carteira, concentração de risco, baixa liquidez (com prazos de carência que variam de 45 a 60 dias) e estrutura inadequada de subordinação são pontos críticos. Além disso, os FIDCs não contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Complexidade operacional e educação financeira são barreiras para expansão
Apesar do crescimento acelerado, o mercado ainda enfrenta desafios significativos para ampliar sua base. Volnei Eyng, CEO da Multiplike, aponta que as principais dificuldades são a complexidade da estrutura, as exigências de governança, a necessidade de lastro performado (com serviço ou mercadoria já entregue) e os custos operacionais elevados. “Há o desafio de comunicação e educação financeira para um público menos familiarizado com crédito estruturado”, complementa. As gestoras precisam não apenas estruturar o veículo, mas demonstrar capacidade sólida de origem, análise e cobrança dos créditos que lastreiam os fundos.
Perspectiva é de consolidação com crescimento moderado em 2026
O setor de FIDCs como um todo, que hoje soma cerca de R$ 800 bilhões em patrimônio, tem a expectativa de atingir R$ 1 trilhão ainda em 2026. No entanto, analistas preveem que o ritmo de crescimento dos fundos de varejo pode moderar em relação ao ano anterior. Samer Serhan, da JiveMauá, observa que fatores extraordinários impulsionaram 2025, como o efeito novidade, a movimentação decorrente da quebra do Banco Master e o vencimento de letras de crédito do BNDES, cenário que não se repete. “Nas últimas três semanas, houve um desaquecimento da atividade como um todo e um aumento da aversão ao risco, depois de janeiro e fevereiro fortes”, pondera.
O amadurecimento do mercado passa necessariamente pela maior transparência e educação. À medida que os investidores se familiarizam com os mecanismos de subordinação, a performance dos recebíveis e os riscos inerentes ao crédito, a tendência é que os FIDCs de varejo, focados em cotas seniores e estruturas pulverizadas, se consolidem como uma opção permanente e relevante para a diversificação de carteiras, complementando a oferta tradicional de investimentos de renda fixa no Brasil.

