Imagine caminhar por corredores infinitos de carpete amarelo molhado, iluminados por lâmpadas fluorescentes que zumbem sem parar, enquanto uma sensação inexplicável de nostalgia misturada com puro desconforto toma conta de você. Essa é a essência das Backrooms, o fenômeno da internet que nasceu como uma creepypasta e hoje se transforma em um dos projetos mais aguardados do terror moderno. O filme Backrooms, produzido pelo renomado estúdio A24 e dirigido pelo jovem criador original da série, Kenny Person, chega aos cinemas brasileiros em 28 de maio de 2026 e promete revolucionar a forma como o público vivencia os liminal spaces no cinema. O que era apenas uma estética surreal e perturbadora de fóruns obscuros agora ganha produção milionária, elenco de peso e uma abordagem autêntica que poucos estúdios conseguiriam entregar.
A Origem das Backrooms: De Creepypasta Obscura a Fenômeno Global dos Liminal Spaces
O que hoje conhecemos como Backrooms começou de forma bem humilde, quase por acidente. Em 2019, um usuário anônimo do 4chan postou uma imagem simples: uma sala vazia com carpete amarelo úmido, paredes bege, luzes fluorescentes piscando e um zumbido constante no ar. A legenda era curta e perturbadora: “Se você noclipa para fora da realidade, acaba aqui”. Aquela imagem estática, combinada com a descrição de um labirinto infinito de salas idênticas e monótonas, rapidamente viralizou e deu origem a uma das maiores lendas urbanas digitais da geração Z e Alpha.
Diferente de creepypastas tradicionais como Slender Man ou Jeff the Killer, as Backrooms não dependem de uma entidade assustadora com rosto ou nome. O verdadeiro horror é o próprio espaço. É o vazio, o silêncio quebrado apenas pelo som distante de lâmpadas velhas, a sensação opressora de estar completamente sozinho em um lugar que parece ter sido construído para humanos, mas que nunca foi habitado. Essa estética “liminal” — que representa espaços de transição, como corredores vazios de shopping à noite, piscinas abandonadas ou salas de espera desertas — toca em algo profundo na psique humana: a nostalgia dolorosa por lugares que nunca visitamos, mas que parecem familiares.
Com o tempo, a comunidade expandiu brutalmente o lore. Surgiram níveis infinitos (Level 0, Level 1, Level !, The End, etc.), cada um com suas próprias regras, entidades hostis e perigos ambientais. O conceito de “no-clipping” — cair para fora da realidade por um erro de movimento, como atravessar uma parede em um videogame bugado — se tornou a porta de entrada mais aterrorizante possível. Não é um portal mágico ou um ritual. É um acidente. Um passo em falso em um estacionamento vazio às 3 da manhã ou um corredor mal iluminado de hospital pode ser suficiente para você desaparecer para sempre.
Essa combinação única de nostalgia, estranheza arquitetônica e terror existencial fez das Backrooms algo muito maior que uma simples história de terror. Virou estética, virou comunidade, virou inspiração para milhares de criadores de conteúdo, artistas, músicos e desenvolvedores indie. Hoje existem jogos como Escape the Backrooms, Backrooms: Survival, e até experiências em realidade virtual que reproduzem com fidelidade assustadora a sensação de se perder nesse labirinto sem fim. O que começou como uma imagem granulada em um fórum agora influencia moda, design de interiores, videoclipes e até campanhas publicitárias que buscam o “efeito liminal”.
Kenny Person: Do YouTube Adolescente ao Diretor Mais Jovem da História da A24
A escolha do diretor para o filme das Backrooms não poderia ser mais simbólica — e arriscada ao mesmo tempo. Aos 16 anos, Kenny Person (conhecido inicialmente como Kane Pixels no YouTube) pegou aquela imagem estática do 4chan e transformou em uma série de curtas-metragens found footage que rapidamente acumularam dezenas de milhões de visualizações. Seus vídeos não eram apenas “assustadores”. Eles eram imersivos, cinematográficos e respeitavam profundamente a essência do terror liminal: o desconforto vinha do ambiente, não de jumpscares baratos ou monstros caricatos.
O que impressiona é como um adolescente, trabalhando com recursos limitados em casa, conseguiu capturar algo que grandes estúdios muitas vezes falham em reproduzir. Seus curtas apresentavam uma fotografia suja, som ambiente opressivo, iluminação fluorescente realista e um pacing lento que faz o espectador sentir o peso do vazio. Ele não apenas mostrou as Backrooms — ele fez o público sentir o que é estar perdido nelas. Essa autenticidade viralizou e transformou Kane Pixels em uma referência obrigatória dentro da comunidade liminal.
Agora, com apenas 20 anos, Kenny Person se torna o diretor mais jovem da história da A24, um dos estúdios mais prestigiados e ousados do cinema contemporâneo (responsável por sucessos como Hereditary, Midsommar, Everything Everywhere All at Once e Moonlight). Essa decisão representa um marco importante: pela primeira vez, uma grande produtora hollywoodiana entrega as rédeas de uma adaptação de internet para o próprio criador original, alguém que cresceu dentro da cultura digital nativa.
Muitos temem que a passagem para o cinema tradicional possa diluir a essência crua dos curtas do YouTube. No entanto, há motivos para otimismo. Kenny não é um “influencer” qualquer tentando migrar para o cinema. Ele já demonstrou visão cinematográfica madura mesmo com orçamento zero. Ter a liberdade criativa dentro de um estúdio como a A24 — conhecido por dar espaço para diretores com propostas autorais e estéticas fortes — pode resultar em algo verdadeiramente especial. Não será um filme de terror convencional. Será um estudo sobre espaço, memória, nostalgia corrompida e o terror do vazio, filmado com o olhar de quem realmente entende o que torna as Backrooms tão perturbadoras.
A24 e o Filme Backrooms: A Escolha Perfeita ou o Maior Risco do Terror Moderno?
Quando o nome A24 foi anunciado como estúdio por trás do filme das Backrooms, a comunidade online dividiu-se imediatamente entre euforia e ceticismo. De um lado, o A24 é sinônimo de terror elevado, atmosférico e autoral. Filmes como Hereditary, Midsommar, The Witch, It Comes at Night e Lamb provaram que o estúdio sabe construir dread (medo lento e psicológico) como poucos, priorizando atmosfera, som e direção de arte em vez de jumpscares gratuitos. É exatamente o tipo de abordagem que as Backrooms merecem: um terror que nasce do espaço em si, da arquitetura errada, da iluminação artificial e da sensação de estar preso em um lugar que não foi feito para ser habitado.
Por outro lado, existe o receio legítimo de que a “A24-zação” possa suavizar ou intelectualizar demais o que nasceu como conteúdo cru, amador e profundamente internet. As Backrooms cresceram nos fóruns do 4chan, no YouTube de baixo orçamento e em pastas de imagens do Pinterest. Seu charme original vem da imperfeição, da estética found footage suja, do som ambiente caseiro e da sensação de que qualquer um poderia cair ali por acidente. Quando um estúdio de prestígio entra com orçamento milionário, elenco renomado e distribuição mundial, o risco de perder essa “alma digital” é real.
No entanto, a contratação de Kenny Person como diretor mitiga boa parte desse medo. Ao colocar o criador original no comando, a A24 demonstra respeito pela fonte e compreensão de que a autenticidade é o ativo mais valioso do projeto. Não se trata de “Hollywood pegando uma trend da internet”. Trata-se de permitir que alguém que viveu e respirou essa estética desde os 16 anos traduza sua visão para a linguagem do cinema de alto nível, com recursos técnicos que ele nunca teve antes.
O elenco também reforça essa ambição. A presença de nomes como o ator de 12 Anos de Escravidão (Chiwetel Ejiofor) indica que o estúdio não está tratando o filme como uma simples exploração de nicho. Eles querem atores capazes de carregar o peso emocional de personagens que não estão apenas fugindo de monstros, mas confrontando o terror existencial de um espaço infinito que devora identidade, memória e sanidade. Ver atores dramáticos de alto calibre vagando por corredores amarelos intermináveis cria um contraste poderoso: o mundano elevado ao surreal, o profissionalismo hollywoodiano servindo uma estética que nasceu no underground digital.
Se o equilíbrio for encontrado — manter a crueza liminal sem perder a qualidade cinematográfica —, o filme Backrooms pode se tornar o marco que abre as portas para outras estéticas digitais virarem cinema de verdade: Frutigeraero, Aquacore, Weirdcore, Dreamcore e até variações mais sombrias como The Mandela Catalogue ou Poolrooms. O sucesso ou fracasso desse projeto não definirá apenas o futuro das Backrooms no cinema, mas o futuro de toda uma geração de criadores que cresceram consumindo e produzindo terror na internet.

