O governo cubano, em meio a uma crise de abastecimento que já se arrasta há meses, decidiu digitalizar o racionamento de combustível. A medida, que a princípio poderia soar como um avanço tecnológico, na prática revela a profundidade da escassez que atinge o país. Por meio de um aplicativo chamado Ticket, desenvolvido pela estatal Xetid, os motoristas cubanos agora precisam entrar em uma fila virtual para ter direito a abastecer seus veículos com os minguados 20 litros de gasolina liberados por mês. O que se vê, no entanto, é um sistema que, longe de resolver o problema, impõe uma espera que pode durar semanas ou até meses, empurrando parte da população para um mercado negro onde o litro do combustível chega a custar o equivalente a 12 dólares.
A fila virtual que não acaba: como funciona o aplicativo Ticket
O Ticket é a mais recente tentativa do governo cubano de gerenciar a crise energética com ferramentas digitais. Desenvolvido pela Xetid, uma empresa de tecnologia que nasceu dentro da Universidade das Ciências Informáticas de Havana, o aplicativo exige que o usuário agende um horário para abastecer e aguarde uma notificação. Na teoria, a ideia é organizar a demanda e evitar aglomerações nos postos. Na prática, o sistema se tornou um gargalo burocrático. Relatos de cubanos ouvidos pelo NeoFeed indicam que, mesmo após o agendamento, a espera na chamada “fila virtual” se estende por períodos que variam de algumas semanas a vários meses. Para quem depende do carro para trabalhar ou para emergências, a situação é desesperadora.
20 litros por mês: uma conta que não fecha
A cota de 20 litros mensais por motorista é, por si só, insuficiente para a maioria das necessidades básicas de locomoção. Em um país onde o transporte público é precário e as opções de mobilidade são limitadas, a gasolina racionada mal dá para alguns dias de uso moderado. O resultado é que o aplicativo, em vez de ser uma solução, tornou-se mais um obstáculo em um cenário de escassez generalizada. A digitalização do racionamento, nesse contexto, funciona menos como uma inovação e mais como um instrumento de controle sobre um recurso cada vez mais raro.
O mercado negro e os preços estratosféricos
Para quem não pode ou não quer esperar meses na fila virtual, a alternativa é o mercado negro. Em Cuba, esse mercado informal é alimentado por redes de conhecidos que armazenam combustível, desviam gasolina de veículos oficiais ou revendem estoques adquiridos anteriormente. Nesse circuito paralelo, os preços atingiram patamares absurdos. De acordo com relatos de motoristas cubanos, o litro da gasolina chega a ser negociado por valores entre 4 mil e 6 mil pesos cubanos, o que corresponde a algo entre 8 e 12 dólares. Para efeito de comparação, o preço médio da gasolina no Brasil gira em torno de 6 reais por litro, ou pouco mais de 1 dólar. A disparidade ilustra não apenas a escassez, mas também o desespero de quem precisa se locomover em um país onde a economia está em frangalhos.
Como funciona o mercado paralelo de combustíveis
O mercado negro de gasolina em Cuba opera de forma fragmentada, mas organizada. Motoristas que conseguem acesso ao combustível por meio de desvios ou estoques pessoais criam redes de confiança para revender. Em muitos casos, o combustível é armazenado em galões em residências ou em locais improvisados, o que representa um risco adicional de acidentes. A falta de fiscalização eficaz e a cumplicidade de parte da população tornam esse mercado difícil de erradicar. Para o governo, a existência desse circuito paralelo é um sintoma claro de que o racionamento oficial, mesmo com o apoio de um aplicativo, não atende à demanda real.
Xetid: a estatal que saiu da defesa para o controle digital
Por trás do aplicativo Ticket está a Xetid, cujo nome oficial é Empresa de Tecnologias da Informação para a Defesa. A empresa nasceu dentro da Universidade das Ciências Informáticas de Havana, uma das principais instituições de ensino tecnológico do país. Inicialmente voltada para o setor de defesa, a Xetid foi gradualmente expandindo sua atuação e se tornou um braço importante do que o governo cubano chama de “soberania tecnológica”. A ideia é desenvolver soluções locais que reduzam a dependência de empresas estrangeiras e garantam o controle estatal sobre a infraestrutura digital.
EnZona: a carteira digital que já transformou o comércio cubano
O produto mais conhecido e de maior impacto da Xetid na vida dos cubanos é a plataforma EnZona. Trata-se de uma espécie de carteira digital que permite fazer transferências bancárias e pagar compras por meio de QR Code no comércio varejista e em plataformas de e-commerce locais. O EnZona se tornou uma ferramenta essencial para milhões de cubanos, especialmente em um país onde o acesso a serviços bancários tradicionais é limitado. A popularidade da plataforma mostra que a Xetid tem capacidade técnica para desenvolver soluções que realmente funcionam. O problema é que, no caso do Ticket, a tecnologia está sendo usada para gerenciar a escassez, e não para criar abundância.
Tecnologia como instrumento de controle em tempos de crise
A digitalização do racionamento de combustível em Cuba levanta questões importantes sobre o papel da tecnologia em regimes de escassez. Por um lado, o uso de um aplicativo como o Ticket pode ser visto como uma tentativa legítima de organizar a distribuição de um recurso limitado de forma mais eficiente e transparente. Por outro lado, a experiência dos cubanos mostra que, quando a oferta é insuficiente, a tecnologia pode se tornar apenas mais uma camada de burocracia que atrasa o acesso ao bem essencial. A fila virtual, nesse sentido, é tão cruel quanto a fila física, mas com a vantagem de ser mais fácil de monitorar pelo governo.
O paradoxo da soberania tecnológica
A Xetid é apresentada pelo governo cubano como um exemplo de soberania tecnológica, um conceito que ganha força em países que buscam se proteger da dependência de gigantes estrangeiros da tecnologia. De fato, a empresa desenvolveu soluções robustas, como o EnZona, que são amplamente utilizadas pela população. No entanto, o caso do Ticket expõe uma contradição: de que adianta ter soberania tecnológica se a tecnologia é usada para administrar a pobreza e a escassez, em vez de gerar desenvolvimento e abundância? A resposta a essa pergunta está no centro do debate sobre o modelo econômico cubano e sua capacidade de oferecer qualidade de vida à população.
O futuro do abastecimento em Cuba: entre a fila virtual e o mercado negro
A crise de combustível em Cuba não mostra sinais de melhora no curto prazo. O país enfrenta dificuldades econômicas profundas, agravadas por sanções internacionais, problemas logísticos e uma infraestrutura envelhecida. O aplicativo Ticket, nesse cenário, é uma medida paliativa que tenta organizar o caos, mas não resolve a raiz do problema. Enquanto a oferta de gasolina for insuficiente, a fila virtual continuará sendo uma fonte de frustração para quem precisa se locomover, e o mercado negro continuará prosperando como uma alternativa cara e arriscada.
A experiência cubana com o racionamento digital de combustível serve como um alerta para outros países que enfrentam crises de abastecimento. A tecnologia pode ser uma aliada poderosa na gestão de recursos escassos, mas ela não substitui a necessidade de políticas econômicas sólidas e de investimentos em infraestrutura. Em Cuba, o Ticket é a face digital de uma crise real. E, por mais que o aplicativo funcione, a fila virtual não enche o tanque de ninguém.
