Pesquisa global aponta incidentes cibernéticos, economia e IA como maiores riscos

Levantamento do Insurance Information Institute e Munich Re aponta os três maiores riscos percebidos atualmente.

RiskScan 2026 ouviu mais de 1.700 participantes nos EUA e Reino Unido.
Destaques
  • Incidentes cibernéticos são a principal preocupação entre consumidores e executivos de seguros.
  • Inflação e desaceleração econômica atuam como multiplicadores de risco no mercado segurador.
  • Uso de inteligência artificial por seguradoras levanta questões sobre discriminação e dados sensíveis.

Uma pesquisa global realizada pelo Insurance Information Institute (Triple-I) e pela Munich Re identificou os incidentes cibernéticos, as pressões econômicas e a inteligência artificial (IA) como os maiores riscos percebidos atualmente por consumidores, pequenos empresários, executivos de empresas de médio porte, corretores de seguros patrimoniais e de responsabilidade civil (P&C) e as próprias seguradoras. O estudo, batizado de RiskScan 2026, ouvido mais de 1.700 participantes nos Estados Unidos e no Reino Unido, revela como esses fatores estão redefinindo o cenário de riscos e, por tabela, o mercado de seguros em escala global.

Para o consumidor brasileiro, a mensagem é clara: os mesmos ventos que sopram lá fora também agitam o mercado local, ainda que com particularidades regulatórias e econômicas. A pesquisa aponta que as condições econômicas — inflação, desaceleração e aumento dos custos com seguros patrimoniais — funcionam como um multiplicador de riscos, afetando diretamente o bolso do segurado e a estabilidade das operadoras.

Os três pilares de risco segundo o RiskScan 2026

O levantamento classificou os riscos em três grandes grupos, todos com forte interconexão:

  • Incidentes cibernéticos: ataques, vazamentos de dados e falhas em sistemas digitais aparecem como a principal preocupação entre todos os públicos ouvidos. Não se trata apenas de grandes corporações: pequenas e médias empresas, que muitas vezes subestimam sua exposição, também são alvos frequentes. No Brasil, o mercado de seguro cibernético vem crescendo, mas ainda enfrenta desafios de conscientização e subscrição.
  • Pressões econômicas: inflação elevada, desaceleração da economia e aumento dos custos com seguros patrimoniais (residencial, empresarial e automotivo) foram citados como fatores que apertam o orçamento das famílias e elevam a severidade dos sinistros. O estudo destaca que a inflação atua como um “multiplicador de risco”, tornando os prêmios (mensalidades dos seguros) mais caros e os valores de indenização menos previsíveis.
  • Inteligência artificial (IA): a adoção acelerada de IA pelas empresas — tanto para melhorar processos quanto para criar novos produtos — gera oportunidades, mas também riscos regulatórios, éticos e operacionais. No setor de seguros, a IA pode auxiliar na precificação e no atendimento, mas também levanta questões sobre discriminação algorítmica e concentração de dados sensíveis.

O que isso significa para o consumidor brasileiro?

Embora o RiskScan 2026 tenha sido realizado nos Estados Unidos e no Reino Unido, suas conclusões dialogam diretamente com a realidade brasileira. A interação entre riscos cibernéticos e econômicos, por exemplo, já se reflete em reajustes de apólices de seguro auto e residencial, que acompanham a inflação de peças e serviços. Além disso, o crescimento do uso de IA por seguradoras brasileiras — seja para análise de perfil de risco ou para agilizar a regulação de sinistros — exige que o consumidor esteja atento a como seus dados são tratados.

O estudo também aponta que enchentes, riscos cibernéticos e outras exposições interconectadas continuam a evoluir. No Brasil, eventos climáticos extremos — como as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 e 2025 — reforçaram a importância de seguros patrimoniais com coberturas adequadas para fenômenos naturais. A pesquisa sugere que o setor tem a oportunidade de fortalecer a compreensão pública sobre esses riscos e reduzir as lacunas de proteção.

Risco cibernético: uma ameaça silenciosa

Para o pequeno empresário ou profissional liberal brasileiro, o risco cibernético vai além do vazamento de dados de clientes. Um ataque de ransomware pode paralisar as operações por semanas, gerando perda de receita e custos com recuperação de sistemas. O seguro de responsabilidade cibernética cobre despesas como notificação de afetados, recuperação de dados, assessoria jurídica e até mesmo resgate de sistemas sequestrados. No entanto, a adesão ainda é baixa no país, em parte por desconhecimento e em parte pela percepção de que “isso não acontece comigo”.

Pressões econômicas e o custo do seguro

A inflação de serviços — como mão de obra para reparos automotivos e residenciais — impacta diretamente o valor das indenizações. As seguradoras ajustam seus prêmios para refletir esse aumento de custos, o que significa que o consumidor pode observar reajustes acima da inflação geral em suas renovações de seguro auto ou seguro residencial. Além disso, a desaceleração econômica pode levar mais pessoas a subcontratar coberturas ou reduzir limites de indenização, aumentando o risco de subproteção.

Inteligência artificial e regulação no Brasil

A ANS e a SUSEP já começam a olhar para o uso de IA no setor. A Susep, por exemplo, publicou a Circular 666/2022, que estabelece requisitos de governança e segurança cibernética para as seguradoras. A inteligência artificial usada na precificação deve seguir princípios de transparência e não discriminação. Para o consumidor, isso significa que é possível questionar critérios automáticos de rejeição de propostas ou de fixação de prêmios, especialmente se houver suspeita de viés algorítmico.

O que você deve verificar na sua apólice

Diante desse cenário de riscos interconectados, o consumidor brasileiro pode adotar algumas medidas práticas ao avaliar seus seguros:

  • No seguro auto: verifique se a cobertura inclui assistência 24 horas, carro reserva e se o valor da franquia (valor pago em caso de sinistro) está atualizado com a inflação de reparos. Considere incluir coberturas para fenômenos naturais, especialmente se você reside em regiões sujeitas a enchentes ou granizo.
  • No seguro residencial: além da cobertura básica contra incêndio e roubo, avalie a cobertura para danos elétricos (curto-circuito, descarga atmosférica) e para vendaval. Muitas apólices excluem enchente sem endosso específico.
  • No seguro de vida: entenda as exclusões e carências (período após contratação sem cobertura). Algumas apólices não cobrem morte por causas preexistentes ou atividades de risco. A portabilidade de carências é um direito garantido pela SUSEP ao migrar de seguradora.
  • No seguro cibernético para pequenas empresas: verifique o limite de cobertura para recuperação de dados, notificação de clientes e assessoria jurídica. Muitos produtos oferecem análise prévia de vulnerabilidades, o que pode ajudar a evitar um sinistro.

A pesquisa RiskScan 2026 reforça que o ambiente de risco está cada vez mais complexo, com ameaças que se sobrepõem e se potencializam. Para o segurado brasileiro, a principal lição é não subestimar riscos emergentes como o cibernético e o climático, e revisar periodicamente as coberturas contratadas, ajustando limites e franquias à realidade econômica atual. Em um cenário de inflação e transformação digital, o seguro continua sendo a ferramenta mais eficaz de proteção financeira — desde que bem dimensionado e compreendido.

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