Reiji Miyajima, o criador de Rent-a-Girlfriend, concedeu uma entrevista reveladora durante sua passagem pela DOKOMI, em Düsseldorf, e abriu o jogo sobre as camadas de solidão, performance e afeto que sustentam uma das comédias românticas mais comentadas da última década. Em meio a perguntas sobre o processo criativo, a relação com os fãs e os desafios de retratar o amor na era digital, o mangaká deixou claro que a série é, acima de tudo, um reflexo das contradições modernas — onde alugar um sentimento pode ser tão real quanto qualquer outro.
O que torna o aluguel de namoradas um mote tão potente
Miyajima explicou que o fascínio pelo serviço real de rental girlfriend japonês vem justamente da velocidade com que ele responde a uma demanda emocional. “Nas comédias românticas, há sempre uma pressão para que os personagens se aproximem rápido. Com o aluguel é a mesma coisa: você paga e tem um encontro imediato. Isso é um pensamento muito moderno”, afirmou. Para ele, o conceito funciona tanto como material narrativo quanto como símbolo de uma sociedade que busca conexões instantâneas — mas que, paradoxalmente, nunca esteve tão sozinha.
Solidão digital e o herói que insiste em uma só pessoa
O autor relacionou diretamente a trama de Kazuya e Chizuru ao fenômeno das redes sociais. “Quanto mais conexões você tem, mais superficiais elas se tornam. Nesse contexto, Kazuya quer um relacionamento com uma única mulher. Há algo heroico, quase carismático, nessa atitude”, disse. Miyajima enxerga o protagonista como um contraponto necessário à fragmentação afetiva contemporânea — alguém que segura firme em um único afeto enquanto tudo ao redor se dispersa.
Real versus alugado: onde termina a performance?
Uma das questões centrais da obra é a dificuldade de distinguir sentimentos genuínos de encenação. O mangaká admitiu que ele próprio ainda busca essa resposta. “Mesmo que você ame seu parceiro e tenha se aproximado muito, nunca sabe de fato o que o outro sente — seja uma namorada de aluguel ou uma namorada real. Às vezes acho que não há diferença alguma. Mas acredito que ela tem que existir. Escrevo todos os dias tentando encontrá-la.” Essa dúvida existencial é o motor que mantém a série viva e ressoa com leitores que já se perguntaram se estavam sendo amados de verdade.
Comédia como disfarce para a dor
O equilíbrio entre humor e drama é calculado com precisão: “Cerca de 90% de comédia e 10% de seriedade. Meu ideal é que o leitor esteja rindo e, de repente, perceba que está chorando.” Essa proporção explica por que Rent-a-Girlfriend consegue abordar temas pesados — rejeição, insegurança, solidão — sem perder a leveza característica do gênero.
As máscaras que cada personagem veste
Miyajima foi categórico ao afirmar que o uso de “máscaras” não é um recurso estilístico, mas uma constatação inevitável das relações humanas. “Assim que duas pessoas são diferentes, existe uma parede entre elas. Muitos leitores já passaram por isso — e é exatamente essa a mensagem que quero alcançar.” Cada personagem carrega uma persona: Chizuru é a idealização feminina clássica, com cabelos longos e escuros; Ruka se veste de forma deliberadamente fofa para agradar Kazuya; Mami, de constituição mais delicada, tem sua sensualidade revelada por detalhes como as clavículas; Sumi, insegura, tenta se afirmar com muitos acessórios fofos. A moda, para Miyajima, é uma extensão direta da psicologia de cada uma.
Tóquio como metáfora do isolamento afetivo
O cenário da série não foi uma escolha aleatória. “Tóquio é uma cidade enorme e, morando aqui, percebo como as conexões humanas são frágeis. Em um prédio, as pessoas vivem lado a lado, mas não se conhecem, não se cumprimentam. Proximidade física não significa corações conectados. É triste — e Tóquio reflete exatamente isso.” A geografia urbana vira personagem, amplificando a sensação de que os afetos verdadeiros precisam ser construídos contra a corrente.
Por que a série atravessa fronteiras culturais
Para o autor, o apelo global de Rent-a-Girlfriend está na universalidade do amor. “Provavelmente não existe ninguém que nunca tenha se apaixonado. Conexões fracas existem fora do Japão também — é um tema do nosso tempo.” Ele citou Breaking Bad, Lost e Game of Thrones como influências ocidentais que o ajudaram a tornar a narrativa menos local e mais universal. “Alguns valores japoneses são muito específicos, mas, ao consumir obras estrangeiras, espero que minha série se torne mais acessível.”
Processo criativo: rotina, assistentes e a pressão dos prazos
Miyajima descreveu um dia de trabalho intenso: acorda às 6h30, desenha das 7h às 11h30, retoma à tarde até às 18h, e segue até às 21h ou 23h — tudo isso uma vez por semana, para um periódico semanal. “Não consigo escrever bem sob pressão. Então termino tudo o mais rápido possível, bem antes do prazo. Isso me dá tranquilidade para o próximo capítulo.” Ele mesmo desenha os personagens e cuida dos diálogos e correções; os assistentes fazem os fundos e o restante. O editor, figura central no mercado japonês, atua como leitor profissional e sugere ajustes para que a mensagem chegue com mais clareza.
Kazuya como alter ego e a mensagem central da obra
Quando perguntado sobre qual personagem mais se aproxima de sua personalidade, Miyajima foi direto: “Kazuya. É quase um duplo: o que eu penso, ele pensa de forma parecida.” Sobre a essência da série, ele resumiu: “Estar apaixonado é difícil e, às vezes, triste. Não é só dor, mas tem seus lados dolorosos. Desenho isso de forma cômica e divertida. No fim, nunca se sabe se o amor será correspondido. Mas minha mensagem é: vamos amar mesmo assim, apesar de tudo.”
A entrevista também trouxe dicas práticas para aspirantes a mangaká: “Desenhe muito — e com alegria.” Miyajima mencionou a plataforma Kakikomi, onde dá feedback pessoal, e revelou que ainda não pensa em um próximo projeto — quer terminar Rent-a-Girlfriend primeiro. Sobre o impacto do anime, ele celebrou: “Ver os personagens se movendo e falando é muito divertido. O anime alcança o mundo inteiro. É empolgante.”
Ao falar sobre os fãs alemães na DOKOMI, Miyajima se disse impressionado com a intensidade e a paixão do público europeu. “Talvez o entusiasmo por mangá e anime seja tão forte justamente porque as pessoas vivem tão longe do Japão. Aqui tem um clima de festival que é diferente.”
Com mais de 30 volumes publicados e uma legião de seguidores ao redor do planeta, Rent-a-Girlfriend continua a explorar a tênue fronteira entre o que se paga e o que se sente — e, pelas palavras de seu criador, ainda há muito chão para percorrer antes que a cortina final se feche.

