O duo japonês YOASOBI, formado pelo produtor Ayase e pela vocalista ikura, consolidou-se como um dos fenômenos mais interessantes da música pop global ao transformar narrativas — de contos e romances a peças de teatro e posts em redes sociais — em música. Conhecidos mundialmente pelo estrondoso sucesso de “Idol”, abertura do anime Oshi no Ko, o grupo acaba de lançar “THE BOOK for”, o quarto e conclusivo volume da série THE BOOK. Em uma entrevista exclusiva, Ayase e ikura detalharam o processo criativo por trás do novo álbum, a colaboração com Overwatch, a obsessão pelo ritmo nas versões em inglês e como constroem uma experiência ao vivo que acolhe tanto fãs de longa data quanto novatos.
O encerramento da série THE BOOK e o significado de “for”
“THE BOOK for” chega como o capítulo final de uma sequência que começou com “THE BOOK 1” e seguiu com “THE BOOK 2” e “THE BOOK 3”. Para o duo, o título carrega uma camada dupla de significado. Segundo ikura, o número quatro foi foneticamente adaptado para “for”, criando a leitura “for you” — um presente para o ouvinte. O álbum compila aproximadamente dois anos e meio de trajetória do YOASOBI, funcionando como uma espécie de retrospectiva do período. “YOASOBI’s feeling of continuing to turn novels into sound and to depict stories will not change, and the story will continue. But I hope that through the form of ‘THE BOOK for,’ everyone can once again feel that this is your story, and also our story”, explicou a vocalista, deixando claro que, embora a série se encerre, a filosofia de “novel into music” segue firme.
“Orion” e a colaboração com Overwatch: criando a partir de um universo pré-estabelecido
Uma das faixas de maior destaque no novo trabalho é “Orion”, uma parceria com o jogo Overwatch. A música foi encomendada quando a Blizzard implementou um novo mapa inspirado em Tóquio e decidiu buscar um artista japonês para a trilha sonora temática. Ayase revelou que o processo partiu do universo do game, e não de uma história original. “I wanted the game experience of the people actually playing Overwatch to become even more interesting, and through our music, if I may say so, I also hoped that more people might come to know Overwatch even further. So, with love, we made the song ‘Orion’”, afirmou o produtor. O caso ilustra perfeitamente a flexibilidade do duo: quando o material de origem já possui personagens e cenários consolidados, o ponto de partida é a atmosfera geral do mundo, e não as emoções de um protagonista específico.
Como o YOASOBI transforma histórias em música: leitura intensiva e imersão total
Ayase descreveu o processo de tradução de uma narrativa para uma canção como um exercício de posse intelectual do material original. “I feel like I can’t make the song unless I know the work well enough, unless I’ve taken it into my body enough, to be able to say, ‘After the original author, I’m the person who understands this work the most.’ So it starts with reading and rereading the source material over and over again”, detalhou. A partir dessa imersão, o produtor busca inspiração nas emoções do protagonista ou no clima geral da obra para construir a base sonora e as letras. Ele enfatizou que cada nova colaboração começa de um lugar diferente — ora centrada na perspectiva do personagem, ora no som que a história evoca —, o que garante que cada single tenha uma identidade própria, sem amarras de gênero.
O ritmo como espinha dorsal: o desafio das versões em inglês
Quando perguntado sobre o que não pode ser sacrificado ao adaptar uma canção para o inglês, Ayase foi categórico: “Rhythm is everything. I think about rhythm with everything I have.” Para ele, alterar o ritmo equivale a reescrever a melodia. O cuidado é tamanho que o duo trabalha com o letrista Konnie Aoki, que entende a necessidade de manter a cadência original japonesa. Ikura, por sua vez, revelou seu método de gravação: mantém a versão original nos fones de ouvido e canta linha por linha, assegurando que a respiração e a entonação em inglês espelhem as nuances japonesas. “I always make it so that I can immediately listen to the original Japanese version in my headphones, and every time, line by line, I sing while being conscious of making sure the Japanese nuance can come out in the English version in the same way”, afirmou.
Construindo o setlist como uma narrativa: a experiência de iniciantes e veteranos
O YOASOBI atrai um público extremamente heterogêneo: fãs de anime, jogadores de Overwatch, frequentadores de festivais e ouvintes que conhecem o grupo apenas pelas versões em inglês. Para Ayase, a montagem do setlist é uma responsabilidade central. “I really don’t want to miss a single person, or leave anyone behind. So I think the setlist is extremely important for that”, disse. O produtor trata a sequência de músicas como uma história com começo, desenvolvimento, clímax e conclusão. Ele acredita que, mesmo que alguém não conheça uma determinada faixa, a progressão dramática e a combinação de som e imagem são suficientes para emocionar. “As long as that connects properly as a drama, as a story, then even if there are songs someone doesn’t know, or even if they don’t immediately understand the meaning of the lyrics in that moment, I believe we can absolutely move them through the sound and the visual presentation”, completou.
O papel dos visuais e a diferença entre palcos grandes e pequenos
Os shows do YOASOBI são conhecidos tanto pela música quanto pelos visuais de LED. Ayase explicou que o estilo do duo é naturalmente compatível com direção visual, já que cada canção precisa expressar visualmente sua história de origem. No entanto, ele pondera que o uso de efeitos é estratégico: “If everything is bright the whole time, then the bright moments actually become less interesting.” Por isso, há momentos de escuridão proposital, com ikura iluminada apenas por um spot, contrastando com explosões visuais nos pontos certos. A experiência em diferentes formatos de casa de shows — de turnês em hall a arenas — ensinou o duo a priorizar a conexão individual com o público. Ikura resumiu a filosofia: “I deliver the song with the same amount of passion and energy” para quem está na primeira fila ou no último andar do ginásio.
O que esperar do futuro: “Orion” como manifesto de versatilidade
Perguntado sobre qual música melhor representa o YOASOBI atual, Ayase não hesitou: “Orion”. Para ele, a faixa mais nova é sempre a declaração mais honesta do que o grupo quer expressar naquele momento. E é justamente a diversidade do álbum — que transita por gêneros sem se fixar em nenhum — que aponta para os próximos passos. “I don’t think there is any single genre that defines ‘this is YOASOBI’s music,’ and I don’t think there are any limits in terms of sound design either”, afirmou. O produtor revelou ainda que está trabalhando em algo inédito, que ele descreveu como “a super dark ikura”, um novo território de expressão para a vocalista. A promessa é manter a essência de surpresa a cada lançamento, sem se prender à própria imagem ou às expectativas externas. “THE BOOK for” já está disponível nas principais plataformas de streaming, deixando claro que, mesmo após encerrar uma série, o YOASOBI está longe de colocar um ponto final na própria história.
