O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou nesta quarta-feira (5) o quarto corte consecutivo na taxa básica de juros, reduzindo a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. A decisão, alinhada às expectativas do mercado financeiro, marca um ajuste de um ponto percentual desde o início do ano, quando a taxa estava em 15%. Mais importante que o corte em si, no entanto, foi o tom do comunicado, que trouxe clareza sobre a postura futura do Comitê: não há compromisso com um novo calendário de cortes.
A tentativa da reunião de junho de fornecer mais informações sobre as percepções de risco inflacionário acabou gerando dúvidas. Desta vez, o texto foi direto. “Em decorrência da dinâmica dos riscos associados à evolução dos preços, o Comitê reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta”, diz o trecho central do comunicado.
Em outras palavras: nada está definido sobre um próximo corte. Ainda assim, os diretores reforçam que a estratégia é manter os juros em patamar restritivo. “O Comitê seguirá acompanhando a evolução do cenário de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta.”
O cenário melhorou
A melhora nos dados de inflação foi o principal argumento para a decisão. O IPCA de junho e o IPCA-15 de julho surpreenderam positivamente, registrando desaceleração maior que a esperada. O aspecto mais relevante foi a melhora disseminada em vários itens avaliados no índice.
No comunicado, o Copom destacou que, embora a inflação cheia ainda esteja acima do limite superior da meta (4,5%), “as medidas subjacentes desaceleraram para patamar ligeiramente abaixo do limite superior da meta”. Além disso, outros fatores contribuíram para a trajetória desinflacionária: o arrefecimento do mercado de trabalho, com redução de vagas e renda salarial, e sinais de moderação na atividade econômica, desde a produção até o consumo.
A pesquisa pré-Copom do BTG Pactual, com 70 participantes do mercado, mostrou que a maioria (87%) espera mais cortes neste ano. A grande questão agora é: o Copom vai continuar cortando ou não?
Até onde vai a taxa Selic?
O comunicado deixa as portas abertas. Os diretores mantiveram o discurso de que os últimos ajustes não representam o início de um ciclo de flexibilização, mas sim uma “calibração” para ajustar o nível de restrição à inflação corrente. O texto ressalta que o cenário atual — caracterizado por aumento da incerteza, desancoragem das expectativas e riscos elevados — demanda “serenidade e cautela” na condução da política monetária.
David Beker, economista-chefe para a América Latina do Bank of America (BofA), avalia que o debate central é se os dados melhores de curto prazo se sustentam diante dos riscos futuros, como as pressões de energia vindas do petróleo e da guerra, o impacto do El Niño e a resposta dos preços a esses eventos. “Em nossa visão, enquanto os preços de mercado continuarem a validar a calibração, com dinâmicas cambiais estáveis e sem deterioração significativa nas expectativas de inflação, o Copom provavelmente continuará aproveitando o espaço disponível para reduzir a Selic.”
O último relatório Focus revisou a projeção para os juros ao final do ano para 13,75%, o que sugere pelo menos mais um corte de 0,25 p.p. Na pesquisa do BTG, quase metade (48,5%) dos respondentes esperam que a Selic feche o ano abaixo desse patamar.
Como ficam os investimentos
Assim como ocorreu com a decisão sobre a Selic, os agentes financeiros esperavam um comunicado mais aberto. Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, afirma que, nesta reunião, o corte era o de menos. “O que importa é a sinalização sobre o ritmo daqui para frente e sobre onde termina esse ciclo.” Para ele, o texto sugere que o BC vai decidir reunião a reunião, deixando claro que “não começou a festa da renda variável”. Trevisan concorda com o movimento: “O BC adotando um tom de serenidade e cautela, mantendo as portas abertas sem se comprometer. É exatamente o desenho que faz sentido: um afrouxamento de velocidade controlada, e não uma corrida.”
Gabriel Santos, head de research da Bloxs, também interpretou a mensagem como prudente. Para ele, o trecho mais relevante é o que afirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações. “Ou seja, o corte atual não deve ser lido como o início de uma sequência automática. O Copom está dizendo que o ciclo existe, mas que o tamanho dele depende de todas as variáveis relevantes.”
Para investimentos, Santos acredita que as taxas do Tesouro Direto devem se movimentar na quinta-feira (6). Títulos prefixados e indexados à inflação (IPCA+) podem se beneficiar de uma leitura de continuidade do ciclo, “mas sem espaço para euforia”. O mercado já precificou parte do movimento, e o ganho de marcação a mercado está condicionado a uma melhora adicional das expectativas de inflação e do risco fiscal. “Se o mercado entender que o Banco Central tem pouco espaço para acelerar os cortes, as taxas intermediárias e longas podem ficar pressionadas”, conclui.
