Anvisa confirma que biscoito recheado não contém petróleo

A Anvisa desmente fake news e explica que o hexano usado na extração de óleos não contamina o biscoito recheado.

Anvisa confirma que biscoito recheado não contém petróleo
Destaques
  • A Anvisa confirmou que biscoitos recheados não contêm petróleo ou derivados em sua composição final.
  • O solvente hexano é usado na extração de óleos vegetais, mas é removido antes do produto final.
  • O limite máximo de resíduo de hexano no óleo bruto é de 30 ppm, e o refino elimina traços.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu uma nota oficial confirmando que os biscoitos recheados disponíveis no mercado brasileiro não contêm petróleo ou qualquer um de seus derivados diretos em sua composição final. A declaração surge como resposta a uma onda de desinformação que tomou conta das redes sociais nos últimos dias, associando o popular lanche a substâncias como gasolina e óleo cru. A confusão, segundo a própria agência, tem origem na forma como certos solventes são aplicados no processamento industrial de óleos vegetais, uma etapa técnica que não deixa resíduos no alimento que chega à mesa.

A origem do boato: solventes no processamento de óleos

A falsa associação entre biscoito recheado e petróleo nasceu de uma interpretação equivocada de relatórios técnicos e posts alarmistas. O cerne da questão está no uso de solventes como o hexano, um hidrocarboneto derivado do petróleo, empregado em larga escala na indústria alimentícia global para a extração de óleos vegetais de sementes como soja, milho e girassol. Esse processo é padrão na fabricação de óleos refinados que, posteriormente, viram ingredientes de milhares de produtos, dos biscoitos aos molhos prontos.

O hexano atua como um solvente de contato: ele é misturado às sementes trituradas para solubilizar o óleo, facilitando sua separação da porção sólida (farelo). Após essa etapa, o solvente é removido por meio de um sistema de evaporação e destilação a altas temperaturas. As plantas industriais modernas são projetadas para recuperar e reutilizar mais de 99% do hexano empregado. O resíduo máximo permitido no óleo bruto extraído é de 30 partes por milhão (ppm), e o óleo ainda passa por refino, neutralização e desodorização, processos que eliminam praticamente qualquer traço remanescente.

É seguro consumir óleos processados com hexano?

Sim. A Anvisa, assim como a FDA (Food and Drug Administration) dos Estados Unidos e a EFSA (Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar), regulamenta rigorosamente os limites de solventes residuais em alimentos. O hexano é classificado como um solvente de Classe 2, ou seja, que deve ser limitado devido à sua toxicidade potencial, mas estudos toxicológicos consistentes indicam que a exposição via alimentação, nos níveis permitidos, é insignificante para a saúde humana. Não há evidência científica de que o consumo de biscoitos recheados industrializados, dentro de uma dieta balanceada, cause qualquer risco associado a solventes orgânicos.

O grande problema da narrativa que viralizou é que ela ignora a diferença entre insumo de processo e ingrediente final. O hexano é uma ferramenta de produção, como a água usada para lavar grãos ou o calor aplicado para assar a massa. Ele não é adicionado intencionalmente à receita e, ao final da cadeia produtiva, sua presença é virtualmente nula.

Biscoito recheado: o que realmente está na composição?

Para desmistificar de vez a informação falsa, vale a pena analisar a lista de ingredientes típica de um biscoito recheado vendido no Brasil. A Anvisa, por meio da RDC 727/2023, exige que todos os ingredientes sejam declarados em ordem decrescente de quantidade na embalagem. Uma rápida verificação em qualquer supermercado revela que os componentes são absolutamente convencionais:

  • Farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico
  • Açúcar
  • Gordura vegetal (geralmente óleo de palma ou soja hidrogenada em parte da formulação)
  • Recheio (açúcar, gordura vegetal, soro de leite, aromatizantes, corantes, acidulantes e emulsificantes)
  • Fermento químico, sal e estabilizantes

Nenhum item nessa lista é classificado como “derivado de petróleo”. A gordura vegetal é proveniente de plantas, e os aditivos são compostos sintéticos ou naturais aprovados para uso alimentício. Não há óleo mineral, parafina ou qualquer hidrocarboneto de origem fóssil na composição final. A confusão pode ter sido alimentada pelo fato de que, em algumas indústrias não alimentícias, solventes como o hexano são usados para dissolver graxas e óleos em processos de limpeza — mas essa aplicação é completamente diferente do seu uso controlado em extratoras de óleo comestível.

O papel da Anvisa na regulação de solventes

A agência brasileira mantém uma lista positiva de solventes autorizados para uso na produção de alimentos, prevista na Resolução RDC 278/2005. O hexano está incluído, com limites máximos de resíduo definidos para cada categoria de alimento. Para óleos e gorduras refinados, o limite é de 10 mg/kg (ou 10 ppm). Na prática, as amostras coletadas em fiscalizações rotineiras apresentam teores muito abaixo desse teto, frequentemente abaixo do limite de detecção dos métodos analíticos.

A Anvisa também realiza análises de contaminantes em alimentos como parte do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos (PARA) e de monitoramentos específicos. Até o momento, nenhuma notificação de segurança envolvendo a presença de hidrocarbonetos derivados do petróleo em biscoitos recheados foi registrada nacionalmente.

Por que esse tipo de desinformação viraliza no Brasil?

O caso do “biscoito com petróleo” não é isolado. Faz parte de um padrão recorrente de desinformação alimentar que explora o desconhecimento do público sobre processos industriais. Termos como “solvente”, “químico” e “derivado de petróleo” são imediatamente associados a algo perigoso, ignorando que a indústria alimentícia faz uso de dezenas de substâncias químicas em etapas intermediárias — como ácidos, bases e enzimas — que são eliminadas ou neutralizadas antes do produto final.

O mercado brasileiro de biscoitos recheados é extremamente relevante: são mais de 200 mil toneladas consumidas por ano, com um valor que ultrapassa R$ 5 bilhões. Marcas como Bauducco, Nestlé (com a linha Chokito e Bis) e a própria Marilan dominam as prateleiras. Um boato como esse, se não combatido com informações técnicas oficiais, pode causar prejuízos econômicos e pânico desnecessário entre consumidores.

A diferença entre química industrial e química alimentar

A indústria de alimentos opera com princípios básicos de química aplicada. O uso de solventes para extração, de catalisadores para hidrogenação e de emulsificantes para textura são técnicas consolidadas há décadas. O que diferencia um processo seguro de um perigoso não é o uso de químicos, mas o controle rigoroso de sua presença residual. A própria água que bebemos passa por etapas de tratamento com cloro e floculantes químicos. Nenhum consumidor razoável acredita que está bebendo cloro.

O biscoito recheado, portanto, é um produto seguro e dentro de todas as normas sanitárias brasileiras. A Anvisa, ao se manifestar, cumpriu seu papel de esclarecimento técnico, desmontando uma narrativa que misturava meias-verdades com alarmismo. A recomendação para o consumidor é simples: desconfie de conteúdos que usam nomes científicos ou termos industriais fora de contexto e, sempre que possível, recorra a fontes oficiais ou a profissionais de segurança alimentar antes de compartilhar.

A era da pós-verdade não poupa sequer o lanche da tarde. Mas, entre um biscoito e outro, o que realmente precisamos digerir é a informação correta. O petróleo fica nos postos de combustível, longe do recheio.

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