A Engrenagem da Sucessão: A Declaração de Valdemar e o Xadrez Eleitoral de 2026

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou publicamente nesta semana que o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), seria o “vice ideal” para compor uma chapa presidencial com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas eleições de 2026. A declaração, feita em entrevista, revela um movimento tático precoce do partido que abriga o ex-presidente Jair Bolsonaro, buscando alinhar forças em um estado considerado chave para qualquer vitória nacional, mesmo que Zema não tenha, nas palavras do próprio Valdemar, “avaliação nacional” expressiva. O anúncio é um primeiro sinal organizado do campo bolsonarista para a sucessão presidencial, indicando que a estratégia passará por tentar cooptar figuras estaduais de peso para compensar eventuais fragilidades do nome principal no plano federal.

O Peso do Agora

A declaração de Valdemar Costa Neto não é um mero palpite ou uma opinião solta no ar. Ela chega em um momento de silêncio estratégico por parte de Jair Bolsonaro sobre seus planos para 2026 e de incerteza sobre qual rota o movimento que comanda irá seguir: apostar na experiência e no reconhecimento nacional do patriarca ou acelerar a projeção de um herdeiro político. Ao nomear Flávio Bolsonaro e vincular a ele um nome como Zema, Valdemar faz mais do que sugerir uma chapa. Ele testa a temperatura do eleitorado, dos aliados e da própria família Bolsonaro para uma solução de sucessão que é, antes de tudo, um cálculo de sobrevivência política. A fala é um ensaio para um futuro onde o capital eleitoral do ex-presidente pode precisar ser transferido ou compartilhado, e Minas Gerais, com seus mais de 15 milhões de eleitores – o segundo maior colégio do país –, aparece como a âncora sem a qual qualquer projeto nacional parece fadado ao naufrágio.

O que está em jogo vai além de uma composição de chapas. É a revelação de uma fragilidade calculada e de uma força a ser conquistada. A força é o eleitorado mineiro, tradicionalmente decisivo e atualmente comandado por um governador que conseguiu se reeleger com um discurso de gestão técnica e antipolítica, ecoando, em outro tom, sentimentos que também alavancaram Bolsonaro. A fragilidade, exposta pela própria declaração, é a necessidade de buscar fora do núcleo duro um nome que confira respeitabilidade técnica e amplie o apelo eleitoral de um Bolsonaro – neste caso, Flávio – cuja imagem ainda é intensamente associada ao sobrenome e às polêmicas do pai. Valdemar não está apenas escolhendo um vice. Está tentando costurar uma ponte entre dois universos políticos que, embora compartilhem parte de um mesmo eleitorado, operam com linguagens e projetos distintos: o bolsonarismo militante e o conservadorismo gerencial.

As Peças no Tabuleiro Mineiro

Para entender o alcance da proposta, é necessário dissecar a situação política em Minas Gerais. Romeu Zema chega ao final de seu segundo mandato com altos índices de aprovação, em torno de 70% segundo pesquisas do final de 2025, consolidado como um administrador popular. Sua base eleitoral, no entanto, é heterogênea. Atrai desde eleitores de direita desencantados com a polarização clássica até parcelas do centro que valorizam sua imagem de gestor. A aproximação com o bolsonarismo é um risco calculado para ele. Por um lado, poderia garantir o apoio logístico e militante de uma máquina nacional (o PL) para um eventual salto nacional próprio ou para aliados. Por outro, pode corroer sua imagem de “acima da política partidária” e afugentar eleitores moderados que o veem como uma alternativa ao radicalismo de ambos os lados.

Internamente no campo bolsonarista mineiro, a declaração também mexe com outras peças. Figuras como o senador Carlos Viana (PL-MG) e a bancada federal bolsonarista no estado têm suas próprias ambições e bases de poder. A importação de Zema como carro-chefe de uma chapa nacional poderia criar atritos e exigir uma complexa negociação de espaços. Não se trata apenas de convencer Zema, mas de engrenar sua eventual candidatura vice-presidencial com as lideranças locais do partido que pretende lançar a chapa.

Flávio Bolsonaro: Do Senado ao Planalto?

A escolha de Flávio Bolsonaro como nome presidencial na fala de Valdemar é, por si só, um capítulo crucial da história. O senador pelo Rio de Janeiro tem trabalhado para construir uma trajetória própria no Congresso, focando em pautas econômicas liberais e na defesa de bandeiras conservadoras. Sua avaliação nacional, no entanto, ainda é largamente um reflexo da do pai. Pesquisas de intenção de voto para 2026, quando mencionam seu nome, geralmente o mostram com percentuais baixos, frequentemente atrás do próprio Jair Bolsonaro e de outros presidenciáveis em potencial.

A estratégia de associá-lo a um vice com forte raiz estadual e imagem de gestor competente é clássica: busca-se compensar a falta de experiência executiva nacional de Flávio e ampliar seu apelo para além do núcleo ideológico. É uma tentativa de emular, em alguma medida, a fórmula que levou o pai ao poder em 2018, quando a aliança com o general Hamilton Mourão serviu para passar um ar de estabilidade e seriedade a uma candidatura então vista como turbulenta. A pergunta que fica é se Zema aceitaria ser o “Mourão” de uma chapa com Flávio, ou se sua ambição e capital político o colocam em posição de exigir o topo do ticket.

As Reações e os Silêncios

Nas horas seguintes à declaração de Valdemar, o silêncio foi a resposta mais eloquente. Nem Flávio Bolsonaro, nem Romeu Zema se manifestaram publicamente para endossar ou rejeitar a ideia. Este silêncio coordenado é parte do jogo. Para Flávio, comentar poderia significar assumir prematuramente uma candidatura que talvez ainda não seja consensual dentro da família e do movimento, ou criar um atrito com o pai, cujos planos são um mistério. Para Zema, falar poderia queimar pontes precocemente. O governador mineiro mantém um relacionamento pragmático com o governo federal atual e com o centro político, e sua moeda de troca é justamente a ambiguidade.

Por outro lado, dentro do PL, a fala do presidente nacional tem peso de diretriz. Valdemar é o principal operador político do bolsonarismo, o arquiteto das alianças que sustentaram o governo e o responsável pela máquina partidária. Sua declaração é um sinal verde para que aliados comecem a trabalhar a ideia nos bastidores, testemunhando reações e construindo narrativas. A ausência de uma negativa imediata de Zema já pode ser lida, nesse contexto, como um pequeno sinal positivo.

O Cenário Nacional e as Outras Variáveis

A movimentação em torno de Flávio e Zema não ocorre no vácuo. Ela é uma resposta a um cenário nacional fluido. No campo da centro-esquerda, a possibilidade de uma nova candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é incerta devido à sua idade, e nomes como Fernando Haddad (PT) e Simone Tebet (MDB) se preparam. No centro-direita, figuras como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Eduardo Leite (PSDB-RS) são mencionadas. A direita bolsonarista precisa decidir se se reunifica em torno de Jair Bolsonaro, que mesmo inativo politicamente mantém índices sólidos de rejeição mas também de apoio fervoroso, ou se aposta em uma renovação que mantenha o sobrenome mas com um rosto menos polarizador.

A escolha por Flávio pode ser uma forma de tentar manter o núcleo duro do bolsonarismo – que é leal à família – enquanto se tenta atrair os descontentes com o PT que, no entanto, têm reservas em relação a Jair. É uma linha tênue e perigosa. A rejeição ao ex-presidente é um dado eleitoral concreto, e não está claro se o filho consegue descolar-se dela suficientemente. Zema, nessa equação, seria o antídoto contra essa rejeição em Minas Gerais, e possivelmente em outros estados.

O Efeito Dominó

A declaração de Valdemar Costa Neto é a primeira peça de dominó de uma longa fileira. Seu impacto imediato será nos bastidores de Minas Gerais e do PL. Espera-se que, nas próximas semanas, lideranças do partido no estado comecem a pressionar Zema por uma definição, enquanto o governador, por sua vez, avaliará o que ganha e perde ao se associar formalmente ao projeto. A reação do próprio Jair Bolsonaro será crucial. Se ele permanecer em silêncio ou fizer um gesto de apoio tácito à ideia, o caminho para Flávio ficará significativamente mais livre. Se, por outro lado, ele manifestar qualquer desconforto ou sinalizar que pode ser candidato, a narrativa construída por Valdemar desmorona.

Para o eleitor, este é o início do processo de desenho do cenário de 2026. A simples existência dessa possibilidade de chapa altera os cálculos de todos os outros atores. Partidos de centro que viam em Zema um possível aliado ou um nome a ser cooptado agora terão que lidar com a perspectiva de vê-lo na chapa adversária. O PT e aliados, por sua vez, estudarão como explorar a eventual associação de Zema a um Bolsonaro, tentando desgastar a imagem de gestor apartidário do governador. O jogo começou, e os movimentos de agora definirão quais peças estarão realmente disponíveis daqui a dois anos.

O futuro da sucessão presidencial, portanto, pode depender menos de grandes discursos e mais de uma negociação silenciosa entre um governador pragmático de Minas Gerais e uma família política que busca se perpetuar no poder. A declaração de Valdemar jogou a proposta na mesa. Resta saber se ela será aceita, recusada ou usada como moeda para um acordo ainda maior. O que está claro é que a corrida para 2026, oficialmente, já começou nos corredores do poder e nas manchetes, muito antes de qualquer convenção partidária.

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