A possibilidade de um processo criminal se soma aos diversos litígios civis que cercam o zagueiro Robert Arboleda, do São Paulo. Em um desdobramento significativo do caso envolvendo uma dívida questionada de mais de R$ 1,2 milhão, o atleta agora enfrenta a acusação de ter cometido denunciação caluniosa contra os empresários Rodrigo Marquezelli Rodrigues da Cunha e José Orlando de Almeida. A divergência entre perícias contratadas pelas partes sobre a autenticidade de uma assinatura levou o Ministério Público de São Paulo a abrir um inquérito, colocando todos os envolvidos sob o risco de consequências penais. Este artigo detalha as alegações de ambas as partes, o impasse técnico das análises grafotécnicas e o que está em jogo na investigação que pode manchar a carreira do defensor e a reputação dos empresários.
O Centro da Controvérsia: Uma Dívida de R$ 1,2 Milhão
O caso teve início quando Robert Arboleda, durante a negociação para locar um imóvel, descobriu a existência de um débito registrado em seu nome no 8º Tabelionato de Protesto de São Paulo. A dívida, no valor superior a R$ 1,2 milhão em 2026, seria oriunda de um suposto empréstimo de R$ 200 mil contraído em junho de 2018, com vencimento para março de 2023. A cobrança apresentava uma assinatura atribuída ao jogador. Arboleda, porém, negou veementemente ter assinado qualquer documento relacionado ao empréstimo, levando-o a registrar um boletim de ocorrência na 7ª Delegacia de Polícia da Lapa, em São Paulo, em maio de 2025. No registro, o zagueiro acusou o empresário Rodrigo Marquezelli Rodrigues da Cunha de falsificação de documento e estelionato.
A Reação dos Empresários e a Acusação de Denunciação Caluniosa
A defesa dos empresários apresentou uma versão diametralmente oposta. Rodrigo Marquezelli afirmou que o contrato de empréstimo era legítimo e trouxe à tona uma testemunha crucial: José Orlando de Almeida, ex-empresário de Arboleda entre 2018 e 2023. Em depoimento, José Orlando declarou ter presenciado a assinatura do documento pelo atleta, corroborando a narrativa de Marquezelli. Diante da denúncia policial feita por Arboleda, os empresários contra-atacaram na esfera judicial, acusando o jogador de denunciação caluniosa. Este crime, previsto no Código Penal, caracteriza-se pela falsa imputação de um fato criminoso a alguém, feita perante autoridade. Se comprovada, a acusação pode reverter a situação jurídica, transformando Arboleda de vítima em potencial réu.
O Impasse Técnico: Divergências Entre Perícias Grafotécnicas
A chave para desvendar o mistério reside na análise da assinatura presente no contrato de empréstimo. Ambas as partes investiram em perícias especializadas para sustentar suas versões, resultando em um cenário de absoluta contradição técnica.
A Perícia Contratada pela Defesa de Arboleda
A defesa do jogador contratou a perita grafotécnica Adriana Aparecida Ribeiro. Em seu laudo, ela atestou divergências significativas entre a escrita padrão de Robert Arboleda, obtida através de outros documentos de referência, e a assinatura que constava no contrato questionado. A análise concluiu que havia indícios de que a rubrica não era autêntica, fundamentando a alegação de falsificação levantada pelo atleta.
As Perícias Contratadas pelos Empresários
Em resposta, a defesa de Rodrigo Marquezelli apresentou dois laudos periciais distintos, assinados pelo perito José Antenor de Sá e pela perita Mayane Melo. Utilizando uma amostragem diferente de documentos comparativos, ambos os peritos chegaram a uma conclusão oposta à da perícia de Adriana Ribeiro. Os laudos encontraram convergências e compatibilidades gráficas entre a assinatura em litígio e as assinaturas reconhecidamente autênticas do jogador. Este resultado técnico serviu como pilar para a acusação de que Arboleda teria mentido ao afirmar não conhecer a dívida e, portanto, teria cometido denunciação caluniosa.
A Intervenção do Ministério Público
Diante do impasse técnico criado pelas perícias privadas, com cada lado apresentando laudos que apoiavam plenamente suas narrativas, o caso ganhou uma dimensão mais grave. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) determinou a abertura de um inquérito para apurar os fatos. A instituição, que tem o dever constitucional de promover a ação penal pública, agora conduz uma investigação imparcial para determinar onde está a verdade – e, consequentemente, onde reside a possível prática criminosa.
Um dos passos cruciais determinados pelo MP-SP foi a realização de uma nova perícia grafotécnica, desta vez oficial, contratada diretamente pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). Esta perícia atuará como uma espécie de “laudo-desempate”, buscando oferecer uma análise isenta e definitiva sobre a autenticidade da assinatura, já que as partes envolvidas estão claramente em conflito.
As Consequências Criminais em Jogo
O desfecho da perícia oficial e do inquérito do Ministério Público definirá o futuro jurídico de todos os envolvidos. As possibilidades são binárias e carregam sérias repercussões:
Se a perícia do TJ-SP confirmar que a assinatura foi falsificada, dando razão à versão de Arboleda, os empresários Rodrigo Marquezelli Rodrigues da Cunha e José Orlando de Almeida poderão ser denunciados formalmente pelo MP-SP pelos crimes de falsificação de documento particular e estelionato, conforme alegado inicialmente pelo jogador. Além dos processos civis de cobrança se tornarem inviáveis, eles enfrentariam processos criminais.
Por outro lado, caso a perícia oficial conclua que a assinatura é verdadeira, confirmando as análises dos peritos contratados pelos empresários, a situação de Robert Arboleda se inverterá completamente. O jogador poderá ser enquadrado no crime de denunciação caluniosa. A pena para este delito pode chegar a oito anos de prisão, se a denúncia falsa for de um crime mais grave, como foi o caso – Arboleda acusou os empresários de estelionato e falsificação. Além da repercussão criminal, uma condenação nesse sentido traria um enorme desgaste à sua imagem pública e profissional.
A Relação com Outros Litígios de Arboleda
Vale notar que este não é o único processo judicial envolvendo Robert Arboleda. O empresário José Orlando de Almeida, que surge como testemunha no caso da dívida, também está ligado à empresa Kirin Soccer, que move uma ação separada contra o zagueiro por alegada violação de contratos de intermediação no futebol. Essa sobreposição de interesses e disputas legais sugere um contexto mais amplo de conflitos entre o atleta e suas relações comerciais passadas, tornando o caso da denunciação caluniosa ainda mais complexo e interligado a outras batalhas jurídicas.
À medida que o Tribunal de Justiça de São Paulo nomeia um perito oficial para examinar a assinatura, a tensão cresce. O laudo resultante será mais do que um simples parecer técnico; será o documento que potencialmente indiciará um dos lados por crimes graves. Para Robert Arboleda, a pressão não se limita mais ao campo de jogo ou aos processos civis por multas contratuais, mas avança para a esfera criminal, onde a liberdade e a reputação estão em xeque. Para os empresários, a acusação de forjar uma dívida milionária representa uma ameaça existencial à sua idoneidade e carreira. Em um cenário onde a palavra de um perito pode pesar mais do que a de qualquer testemunha, o desfecho deste impasse grafotécnico definirá não apenas quem deve dinheiro a quem, mas quem poderá responder perante a justiça criminal.

