Centauro investe R$ 190 milhões no trimestre para recuperar mercado e mira Copa do Mundo

O Grupo SBF, controlador da Centauro e da operação da Nike no Brasil, apresentou um quarto trimestre marcado por um aumento expressivo nos investimentos, que alcançaram R$ 189,7 milhões – um salto de 66% em relação ao mesmo período do ano anterior. A estratégia, batizada de Projeto Destrava, visa acelerar o crescimento e reconquistar a fatia de mercado perdida nos últimos dois anos para redes menores de varejo esportivo.

Margens sacrificadas em troca de expansão acelerada

A receita líquida do grupo cresceu 11,8%, atingindo R$ 2,4 bilhões, alinhada com as expectativas do mercado. No entanto, a rentabilidade foi impactada. O EBITDA ajustado ficou em R$ 314 milhões e o lucro líquido em R$ 164 milhões. Embora esses números tenham superado o consenso de analistas, que previa R$ 261 milhões e R$ 136 milhões, respectivamente, representaram quedas de 0,8% e 4,1% na comparação com o quarto trimestre do ano anterior. O CEO Gustavo Furtado atribuiu a pressão nas margens ao novo ciclo de investimentos, que ele classifica como necessário para o reposicionamento da empresa.

Patrocínios esportivos lideram os gastos estratégicos

Um dos pilares do aumento do capex foi a entrada agressiva no patrocínio de clubes de futebol. O grupo passou a patrocinar o Vasco da Gama e o Atlético-MG, além de ter renovado o acordo com o Corinthians. Paralelamente, a Nike garantiu o patrocínio da SP City Marathon, uma das principais corridas de rua do calendário paulista. Essas movimentações buscam fortalecer a conexão emocional da marca com o consumidor em momentos de alta visibilidade.

Reforma de lojas e expansão de equipe consomem R$ 88 milhões

Além do marketing, a empresa direcionou recursos pesados para a revitalização de sua rede física e para o reforço do time comercial. Os investimentos em reformas de lojas e contratação de vendedores somaram R$ 88 milhões no trimestre, um aumento de 90% na comparação anual. Segundo a gestão, o objetivo é melhorar a experiência do cliente em ponto de venda e aumentar a eficiência operacional, preparando a base para um crescimento orgânico mais sólido.

Gestão garante controle da alavancagem financeira

Um dos pontos de atenção dos investidores era o risco de a nova onda de gastos elevar excessivamente o endividamento. A alavancagem líquida/EBITDA encerrou o período em 0,96x, ante 0,58x no mesmo trimestre de 2024. Gustavo Furtado, no entanto, foi categórico ao afirmar que a empresa não repetirá a situação de estresse financeiro vivida em 2023 e 2024. Ele enfatizou que os investimentos são calculados e que a geração de caixa operacional deve sustentar o plano sem desequilíbrios significativos.

Vendas em lojas comparáveis mostram vigor na Centauro

Um indicador positivo veio das vendas em lojas com mais de um ano de operação (SSS). Na rede Centauro, o SSS cresceu 15,7% no trimestre, um avanço de nove pontos percentuais em relação ao mesmo período de 2024. Na Fisia, operadora das lojas Nike, o crescimento foi mais modesto, de 4,8%, mas representou uma reversão importante após uma queda de 2,9% registrada um ano antes. Os números sugerem que a estratégia comercial começa a dar sinais de tração.

Compra de jato executivo e saída de acionista geram debate

Dois temas adicionais chamaram a atenção do mercado durante o período. O primeiro foi o investimento de aproximadamente R$ 70 milhões na aquisição de uma aeronave executiva no terceiro trimestre, justificado pela necessidade de logística para visitar mais de 280 lojas espalhadas pelo país continental. O segundo foi o fim do acordo de acionistas com a gestora GP, que levantou questões sobre a governança e um possível aumento da influência do fundador Sebastião Bomfim. A diretoria nega qualquer mudança na estrutura de governança e afirma que a decisão foi consensual.

Expectativa fiscal para 2026 e o impacto da Copa do Mundo

Victoria Machado, diretora de Relações com Investidores do SBF, afirmou que a companhia não deve perder benefícios fiscais relevantes em 2026, o que ajudará a amortecer a pressão cambial sobre os produtos importados da Nike. No entanto, a dinâmica tributária será diferente de 2025, quando a empresa praticamente não pagou Imposto de Renda devido a incentivos e à estratégia de distribuição de juros sobre capital próprio. Com unidades como a Centauro voltando a gerar mais lucro, a carga tributária deve aumentar, ainda que com alíquota reduzida. A expectativa é que, no próximo ano, o EBITDA cresça a um ritmo mais acelerado que o lucro líquido. Um catalisador importante para 2026 será a Copa do Mundo, com o lançamento das novas camisas da seleção brasileira pela Nike, que deve impulsionar significativamente as vendas.

A ação do Grupo SBF acumula valorização de 4% nos últimos doze meses. A empresa está avaliada em R$ 2,8 bilhões na B3 e negocia a aproximadamente 5 vezes seu EBITDA projetado para os próximos doze meses. O cenário desenhado pela administração é de um trade-off deliberado: margens menores no curto prazo em troca de uma base expandida e mais competitiva para os próximos anos, com a Copa do Mundo servindo como um teste de fogo para a eficácia dos pesados investimentos em marketing e operações.

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