O crescimento global dos prêmios de seguros perderá fôlego em 2026. De acordo com relatório da resseguradora Swiss Re divulgado nesta terça-feira, o avanço real (ajustado pela inflação) será de apenas 1,3%, uma desaceleração significativa frente aos 3,9% registrados em 2025. A projeção para 2027 é de uma leve recuperação, para 1,6%. O movimento é puxado principalmente pelo enfraquecimento dos preços no segmento de propriedade comercial (property & casualty ou P&C), que deve crescer apenas 0,6% no acumulado do ano, contra 3,9% no ano anterior.
Por que o mercado de P&C está desacelerando?
O relatório aponta que o segmento de seguros de danos e responsabilidades está entrando em uma fase mais branda do ciclo. A combinação de capital abundante no setor, forte rentabilidade recente das seguradoras e a redução dos custos de resseguro está intensificando a concorrência entre as companhias. Isso se reflete diretamente na precificação das apólices.
O índice global de preços de seguros comerciais da corretora Marsh caiu 5% no primeiro trimestre de 2025, marcando o sétimo trimestre consecutivo de queda. O recuo é mais acentuado no seguro patrimonial (property), com redução de 9% nas taxas. Por outro lado, as taxas de responsabilidade civil (casualty) ainda sobem 3%, impulsionadas pelo aumento dos custos de sinistros, especialmente nos Estados Unidos.
Inflação de sinistros pode limitar a queda dos preços
Apesar da pressão concorrencial para baixo, a Swiss Re alerta que a inflação de sinistros continua elevada. O aumento dos custos de construção e dos preços de energia alimenta o valor das indenizações, o que pode funcionar como um piso para a queda dos prêmios. A projeção é que a inflação global ao consumidor fique em média de 4% em 2026, recuando para 3,3% em 2027. Esse cenário de custos mais altos tende a limitar o enfraquecimento do mercado, impedindo que os preços caiam de forma mais abrupta.
Vida segue em alta, mas também perde ritmo
No segmento de seguros de vida, o crescimento projetado é de 2,3% em 2026. Embora seja um ritmo inferior ao observado em 2025, o seguro de vida continua sendo o motor de expansão do setor, sustentado pelo aumento da demanda por produtos de proteção financeira e previdência em economias emergentes e maduras.
Rentabilidade permanece acima do custo de capital
Mesmo com o crescimento mais lento dos prêmios, a rentabilidade das seguradoras deve se manter saudável graças ao cenário de juros mais altos. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) no segmento P&C deverá cair para 11,4% em 2026, ante 14% em 2025, mas ainda acima do custo de capital estimado para o setor. A receita de investimentos mais forte compensa em parte a pressão sobre os prêmios.
Cenário macroeconômico e o impacto no Brasil
A Swiss Re também reduziu a previsão de crescimento real do PIB global para 2,5% em 2026, citando os efeitos do conflito no Oriente Médio. Como contraponto, os investimentos em infraestrutura de inteligência artificial devem sustentar o crescimento, especialmente nos Estados Unidos e em partes da Ásia.
Para o mercado segurador brasileiro, o movimento global de desaceleração e suavização de preços no exterior não se traduz automaticamente no mercado doméstico. O Brasil opera com dinâmicas próprias, influenciadas pela regulação da SUSEP, pela competição local — que envolve players como Porto Seguro, Bradesco Seguros, SulAmérica, Allianz, Azos, e MAG Seguros — e por fatores como índice de roubos e acidentes, custo de peças e mão de obra, e a inflação local. A tendência de concorrência mais acirrada pode se refletir em condições mais atrativas em algumas linhas, mas a inflação de sinistros também pressiona os custos por aqui.
O que isso significa para o consumidor brasileiro?
A desaceleração global dos prêmios de seguros, especialmente no ramo P&C, sugere que as seguradoras podem continuar oferecendo condições competitivas nas renovações, com possibilidade de redução de prêmios em apólices de seguro patrimonial e de responsabilidade civil para empresas. Para o consumidor pessoa física, o cenário é mais heterogêneo. No seguro auto, por exemplo, o aumento dos custos de peças e reparos tende a manter o valor das apólices elevado, mesmo com a concorrência. No seguro de vida, as taxas de juros mais altas no Brasil favorecem produtos com componente de investimento, como o seguro de vida com cobertura por sobrevivência (VGBL ou PGBL). Já nos planos de saúde, a lógica é diferente: o reajuste é regulado pela ANS e depende da sinistralidade da operadora, sendo menos influenciado pelo ciclo global de seguros.
Pergunta frequente: O mercado de seguros vai ficar mais barato em 2026?
Não necessariamente. A desaceleração global dos prêmios afeta principalmente os seguros comerciais e patrimoniais de grandes riscos, onde a concorrência é mais intensa. No varejo de seguros (auto, residencial, vida individual), os preços são influenciados por fatores locais como custo de sinistros, inflação de peças e mão de obra, e a regulamentação brasileira. Por isso, o consumidor deve avaliar cada apólice individualmente, comparando coberturas e condições, sem expectativa de queda generalizada dos valores.
O que verificar na sua apólice ou na hora de contratar
Diante desse cenário de mercado em desaceleração, mas com custos de sinistros ainda altos, o segurado brasileiro deve adotar uma postura ativa:
- Compare prêmios e coberturas entre diferentes seguradoras no momento da renovação. Uma redução de preço pode vir acompanhada de cortes em coberturas importantes.
- Atente-se à inflação de sinistros: franquias muito baixas ou coberturas muito amplas podem ter reajustes maiores no futuro. Avalie o equilíbrio entre prêmio e franquia.
- No seguro auto, verifique as condições de reparo em rede referenciada e o custo de peças, que são os principais fatores de reajuste.
- No seguro de vida, considere produtos com atualização de capital (como VGBL/PGBL) para proteger o valor do benefício contra a inflação.
- Consulte um corretor de seguros de confiança para analisar as condições específicas do seu perfil e região, já que as dinâmicas locais podem diferir das tendências globais.
A desaceleração global é um sinal de que o mercado segurador está entrando em uma fase de maior concorrência e preços mais ajustados. Para o consumidor brasileiro bem informado, isso representa uma oportunidade de revisar e otimizar suas proteções, sempre com base em fatos e na orientação de um profissional qualificado.
