Em meio a debates públicos polarizados e narrativas frequentemente distorcidas, o trabalho de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) dentro dos grandes estúdios de games permanece uma realidade pouco compreendida. Longe de ser uma força impositiva ou uma “cabala secreta”, como alguns erroneamente sugerem, essas equipes operam como consultores internos, colaborando com desenvolvedores para criar ambientes mais reflexivos e conteúdos mais autênticos. Um profissional que atua em uma dessas grandes empresas, sob o pseudônimo de Robin, compartilha os sucessos, desafios e a natureza genuinamente colaborativa de seu papel.
O papel prático de um profissional de DEI em um estúdio AAA
Robin trabalha dentro da equipe de DEI de uma grande empresa de jogos. Sua função não é ditar regras ou impor diretrizes, mas colaborar transversalmente com diferentes áreas do estúdio. Ele auxilia na idealização, implementação e avaliação posterior de diversas iniciativas, abrangendo um espectro amplo de projetos – desde o desenvolvimento dos games propriamente ditos até a cultura do ambiente de trabalho. “Muitas vezes, os próprios times nos solicitam apoio”, explica Robin. Essa solicitação pode ser para obter input, pesquisa ou para incorporar uma perspectiva diferente ao projeto. A relação é, portanto, de suporte e consultoria, não de comando.
O apoio interno e a vontade de “fazer direito”
A percepção interna sobre o trabalho de DEI, segundo Robin, é majoritariamente positiva. “Existe um desejo genuíno, across the board, de fazer as coisas direito e de se abrir para novas perspectivas”, afirma. O objetivo central é garantir que as iniciativas da empresa englobem uma variedade de experiências vividas e backgrounds. Esse apoio se traduz em uma vontade frequente de encontrar soluções equilibradas quando surgem discordâncias ou hesitações, que são vistas como naturais no processo criativo. O trabalho, portanto, é construído sobre diálogo e cooperação, não sobre conflito.
O impacto das narrativas externas falsas no ambiente interno
Apesar do apoio interno consistente, Robin observa que narrativas falsas e conversas externas distorcidas influenciaram, em alguns momentos, as percepções dentro da empresa. Isso não diminuiu o apoio da liderança, que permaneceu constante, mas criou uma necessidade adicional de comunicação clara. “Às vezes, precisamos reinvestir tempo para esclarecer o que nosso trabalho realmente envolve”, diz Robin. Essa dinâmica requer reexplicar conceitos que antes pareciam bem entendidos e contra-atuar mal-entendidos que podem surgir internamente, adicionando camadas extras de esforço à rotina já complexa da equipe.
Desmistificando os maiores equívocos sobre o trabalho de DEI
Robin identifica um equívoco fundamental que permeia tanto discussões internas quanto públicas: a ideia de que existe uma “cabala secreta” que financia e impulsiona essas iniciativas. “Na realidade, a maioria das pessoas trabalhando nesta área está tentando contribuir para ambientes mais reflexivos e inclusivos, frequentemente com recursos e budgets limitados”, esclarece. Outra percepção errada é que o trabalho de DEI é diretivo. A realidade é oposta: os profissionais atuam como advisors, oferecendo contexto, levantando considerações e apoiando os times para que eles próprios tomem decisões informadas. O poder criativo final sempre permanece com os desenvolvedores.
Como a colaboração funciona no desenvolvimento dos games
A interação entre a equipe de DEI e os desenvolvedores varia conforme o projeto e o time. Alguns grupos abordam a consultoria logo no início, durante a concepção do game, enquanto outros buscam apoio mais tarde, durante a produção. O suporte oferecido pode assumir diferentes formas: desde compartilhar perspectivas e recursos até fornecer feedback sobre elementos específicos. Robin destaca que, geralmente, quando a colaboração começa mais cedo, há mais espaço para reflexão e iteração. Com o tempo, a conscientização sobre o tipo de apoio disponível cresceu, e mais times estão se engajando de maneiras que melhor atendem suas necessidades e cronogramas específicos.
A carga adicional gerada pela desinformação
O profissional confirma que as narrativas falsas resultaram definitivamente em trabalho adicional para sua equipe. Parte desse esforço extra envolve revisitar como as coisas são comunicadas, mas uma parcela significativa é dedicada a criar espaços para diálogo e esclarecimento. “É necessário explicar não apenas o que o trabalho é, mas também o que ele não é”, afirma Robin. O processo é desafiador e, às vezes, francamente frustrante, especialmente quando requer reinvestir temas que já pareciam resolvidos internamente. Essa dinâmica, porém, reforça a importância fundamental da comunicação transparente e constante e da construção de confiança neste campo.
A proporção de colegas influenciados por visões mal-informadas
Quantificar precisamente quantos colegas compartilham visões mal-informadas é difícil, segundo Robin. Ele avalia que, frequentemente, é uma minoria vocal, com graus variados de informação e perspectiva entre eles. Embora essa minoria possa ter impacto, o que importa mais é a trajetória geral da empresa. “Mesmo quando há mal-entendidos, ainda existe uma base sólida de pessoas que veem o valor do nosso trabalho e estão abertas a se engajar com ele”, observa. Com o tempo, o diálogo continuado e a transparência tendem a fazer a diferença e dissipar resistências.
O sucesso como prova do valor do trabalho
Para contrapor a negatividade dos desafios, Robin compartilha um dos seus maiores sucessos na função: contribuir para o lançamento de um projeto que foi amplamente apreciado pelo cuidado e reflexividade investidos na representação de seu mundo e seus personagens. “O que se destacou foi como os criadores foram intencionais e reflexivos desde o início, e carregaram consistentemente esse espírito durante toda a produção”, relembra. A resposta dos jogadores foi incrivelmente positiva e mostrou que existe um apetite real por esse tipo de trabalho. Essa experiência não apenas validou o impacto prático da consultoria em DEI, mas também serviu como uma fonte de gratificação pessoal e profissional para Robin, que se sente grato por ter participado dessa jornada.
O trabalho em Diversidade, Equidade e Inclusão dentro dos estúdios de games AAA é, portanto, um exercício de colaboração paciente e persistente. Enfrenta a desinformação externa com comunicação interna reforçada, substitui a ideia de imposição pela prática de consultoria e mede seu sucesso não por controvérsia, mas pela criação de conteúdos mais ricos e ambientes de desenvolvimento mais conscientes. Os resultados, como demonstra a experiência de Robin, são tanto internos – na forma de processos mais inclusivos – quanto externos – na forma de games que resonam profundamente com um público diversificado.

