EMS adquire Medley da Sanofi por US$ 660 milhões e domina 31% do mercado de genéricos

Em uma das maiores transações do setor farmacêutico brasileiro, o Grupo EMS, controlado por Carlos Sanchez, concretizou a compra do laboratório Medley da multinacional francesa Sanofi. O negócio, avaliado em US$ 660 milhões (R$ 3,5 bilhões), foi fechado a um múltiplo de 18 vezes o EBITDA da Medley, um prêmio significativo que reflete a estratégia agressiva de Sanchez para consolidar sua liderança e afastar concorrentes globais, especialmente a gigante indiana Sun Pharmaceutical.

Um múltiplo recorde para afastar a concorrência global

O valor pago pela EMS chamou a atenção do mercado. O múltiplo de 18x EBITDA supera amplamente as avaliações de outras empresas do setor. Enquanto a Hypera negocia a 7,2x, e players globais giram em torno de 10x, Sanchez pagou um preço que especialistas consideram defensivo. O movimento impediu que a Sun Pharmaceutical, a maior empresa farmacêutica da Índia, com faturamento de US$ 6,2 bilhões, entrasse no mercado brasileiro de genéricos por meio desta aquisição. “Ele nitidamente quis dar um recado: quem manda no mercado de genérico sou eu,” comentou um banqueiro que participou do processo de venda.

O processo que acelerou a decisão da Sanofi

O processo de venda da Medley foi iniciado em outubro, com ofertas não vinculantes enviadas em janeiro. As propostas vinculantes estavam marcadas para 18 de março, mas a oferta da EMS, apresentada antes do prazo, foi considerada irresistível. Com a proposta de Sanchez em mãos e o conhecimento das outras ofertas, o banco Lazard, assessor da Sanofi, recomendou aceitar o negócio e encerrar o processo antecipadamente. A transação ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE).

Consolidação histórica no setor de genéricos

Esta é a maior aquisição da história da EMS, fundada em 1950 como uma farmácia de manipulação por Emiliano Sanchez, pai de Carlos. A compra combina a fatia de mercado de 23% da EMS com os 8% da Medley, criando um líder absoluto com 31% de participação no segmento de genéricos. A Medley faturou R$ 1,3 bilhão no ano passado, com um EBITDA de aproximadamente R$ 200 milhões. O Grupo NC, holding que controla a EMS, faturou cerca de R$ 11 bilhões no mesmo período.

Estratégia de marca e sinergias operacionais

Segundo Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS, as marcas EMS e Medley vão coexistir, mesmo oferecendo o mesmo medicamento, com posicionamentos de preço semelhantes inicialmente. Fontes do setor, no entanto, especulam que, no médio prazo, a Medley pode se tornar a marca premium do portfólio, enquanto a EMS atuaria como marca de combate. Outra possibilidade é o uso da marca Medley para medicamentos de maior valor agregado, como as drogas GLP-1, cujas patentes começam a expirar.

Expansão de capacidade sem fechamento de fábricas

A EMS não planeja fechar fábricas ou concentrar a produção. A estratégia é manter as plantas existentes de ambas as empresas e expandir a capacidade conforme a demanda. “Ambas as empresas passaram por ampliações fabris mas já se encontram no limite de supply chain. Na EMS, já anunciamos mais de R$ 1 bilhão de investimentos em expansão fabril nos próximos anos e, depois do closing, veremos o que uma empresa pode fazer para a outra,” afirmou Marcus Sanchez. O foco é capturar sinergias operacionais e de distribuição para fortalecer a cadeia de suprimentos.

Um movimento defensivo com olho no futuro

Além de consolidar escala, a aquisição tem um caráter claramente defensivo. Ao adquirir a Medley, a EMS não só aumenta sua participação de mercado, mas também elimina a possibilidade de um player global de baixo custo, como a Sun Pharma, usar a Medley como plataforma para desestabilizar os preços do mercado brasileiro. A marca Medley, historicamente mais respeitada entre os profissionais de saúde, também agrega valor reputacional ao portfólio da EMS, conhecida por sua execução operacional eficiente. O negócio sinaliza uma nova fase de concentração no setor farmacêutico nacional, com a EMS reforçando seu modelo de negócios baseado em margens altas e crescimento orgânico e inorgânico.

A aquisição da Medley representa um ponto de inflexão na trajetória da EMS e de Carlos Sanchez. Mais do que um simples ganho de market share, é a afirmação de um modelo de negócios que, ao evitar a entrada de um competidor global agressivo, protege a rentabilidade de todo um segmento. A coexistência das duas marcas e a busca por sinergias mostrarão se a EMS consegue não apenas ser a maior, mas também extrair o máximo valor de um mercado que promete continuar em transformação, especialmente com a expiração de patentes de medicamentos de alto custo. A consolidação do setor parece ter encontrado seu principal arquiteto.

Compartilhar este artigo
Canal oficial de conteúdo do portal Overcentral. A Equipe Central produz notícias, guias e análises com foco em credibilidade e relevância, garantindo que você receba o melhor conteúdo editorial diariamente.