O mercado de consórcios brasileiro vive uma transformação que vai muito além do óbvio efeito dos juros altos. A Evoy, administradora independente que movimenta cerca de R$ 250 milhões em créditos por mês, acaba de dar um passo estratégico para consolidar sua expansão nacional: a contratação de Valney Corrêa como head comercial. Em vez de atribuir o crescimento do setor apenas à Selic, o executivo aponta uma mudança cultural mais profunda — e é exatamente essa virada de chave que redefine o consórcio como instrumento financeiro sofisticado, e não mais como mero plano de compra parcelada.
A nova fase da Evoy e o reposicionamento do consórcio no Brasil
Valney Corrêa assume a liderança comercial da Evoy em um momento em que a administradora independente busca não apenas crescer em volume, mas também diversificar seus canais de distribuição e capturar um público de maior poder aquisitivo. A chegada do executivo marca uma fase de expansão que, segundo ele, está alicerçada em uma transformação na percepção do produto. “O mercado cresce ano após ano há muito tempo. O que mudou nos últimos cinco anos foi a forma como as pessoas passaram a enxergar o consórcio. Hoje ele deixou de ser visto apenas como uma alternativa para quem não consegue financiamento e passou a ser entendido como uma ferramenta financeira inteligente”, afirma.
Essa mudança de paradigma não aconteceu por acaso. A entrada de grandes instituições financeiras como BTG Pactual, XP e Safra no segmento de consórcios funcionou como um selo de credibilidade para um produto que, historicamente, carregava o estigma de ser uma opção de segunda linha. Para Corrêa, essa presença ampliou o horizonte do negócio: “Quando grandes instituições financeiras passam a oferecer consórcio, um público de maior patrimônio começa a olhar para essa solução de outra maneira. O consórcio passa a integrar estratégias de preservação de investimentos e planejamento patrimonial.”
Operações estruturadas: o consórcio como ferramenta de planejamento patrimonial
Um dos movimentos mais relevantes que o head comercial da Evoy identifica é o crescimento das chamadas operações estruturadas. Diferente da venda tradicional de uma cota de consórcio para aquisição de um bem específico, essa modalidade envolve empresas e investidores que utilizam o produto como instrumento de otimização financeira. Na prática, é possível estruturar operações para substituir financiamentos mais caros, levantar capital com ativos como garantia ou até mesmo organizar o fluxo de caixa com base na previsibilidade de contemplação.
Segundo Corrêa, esse modelo vem ganhando tração especialmente entre escritórios de investimentos e clientes de alta renda. “A operação estruturada permite desenhar uma estratégia considerando histórico dos grupos, capacidade de lance e prazo esperado de contemplação. Não existe promessa, mas existe previsibilidade construída com base em dados”, explica. A diferença fundamental em relação ao varejo é que aqui o consórcio é tratado como parte de uma estratégia maior, e não como uma compra isolada.
Como funciona a previsibilidade em operações estruturadas
Diferente do que muitos imaginam, não se trata de loteria ou sorteio puro. Em operações estruturadas, o investidor ou empresa distribui suas cotas entre diferentes grupos da mesma administradora, levando em conta o histórico de lances e a capacidade de antecipação de cada um. Com isso, é possível calcular uma janela de contemplação com margem de erro reduzida, transformando o consórcio em uma ferramenta com prazo previsível — desde que o planejamento seja feito com base em dados reais dos grupos ativos.
Esse tipo de abordagem exige conhecimento técnico e acesso a informações históricas, algo que a Evoy, como administradora independente, pode oferecer de forma mais flexível que os grandes bancos. A agilidade na tomada de decisão e a capacidade de desenhar soluções customizadas são diferenciais competitivos que a empresa pretende explorar nessa nova fase.
Varejo ainda domina, mas imóveis tomam a liderança
Apesar do avanço das operações estruturadas, o varejo ainda responde pela maior parte do volume de negócios da Evoy. A aquisição de veículos continua sendo o carro-chefe em quantidade de contratos, mas o valor movimentado conta uma história diferente. “O imóvel vem crescendo acima do automóvel em volume de crédito comercializado. Estamos ampliando nossa atuação nesse segmento e acreditamos que ele poderá se tornar nosso principal produto em pouco tempo”, projeta Corrêa.
Essa tendência reflete um movimento de maturidade do consumidor brasileiro. Com a valorização imobiliária e a dificuldade de acesso ao crédito tradicional, o consórcio imobiliário surge como uma alternativa viável para quem busca planejamento de longo prazo sem pagar juros abusivos. A Evoy, que compete diretamente com gigantes bancários mesmo sendo independente e relativamente jovem, vê nesse segmento uma avenida de crescimento.
O corretor de seguros como canal estratégico
Na estratégia de expansão da Evoy, um profissional ganha destaque especial: o corretor de seguros. Para Corrêa, esse parceiro reúne características que o tornam naturalmente apto a oferecer consórcio. “O corretor já possui relacionamento, conhece o momento de vida do cliente e identifica oportunidades como a troca do veículo, a compra de um imóvel ou o planejamento patrimonial. É um parceiro muito importante para ampliar a distribuição”, afirma.
A lógica é simples e eficaz: o corretor de seguros já está inserido na vida financeira do cliente, acompanha renovações de apólices, sinistros e mudanças de perfil. Oferecer consórcio como complemento ao portfólio de produtos não apenas aumenta a receita do profissional, mas também fortalece o vínculo com o segurado, que passa a enxergar o corretor como um consultor financeiro completo, e não apenas como um vendedor de apólices.
Mercado secundário de consórcios atrai investidores
Outro fenômeno que o head comercial da Evoy observa com atenção é o crescimento do mercado secundário de cotas de consórcio. Nesse modelo, investidores adquirem cotas já ativas de terceiros, utilizando mecanismos previstos em regulamento para antecipar a contemplação — por meio de lances ou até mesmo pela transferência de titularidade — e depois negociam as cartas de crédito já contempladas no mercado.
Segundo Corrêa, esse nicho vem atraindo empresários, investidores e fundos especializados. A dinâmica é parecida com a de outros ativos financeiros: comprar com desconto, acelerar a contemplação e vender a carta de crédito com ágio. “Trata-se de um mercado ainda pequeno se comparado ao varejo tradicional, mas com grande potencial de crescimento”, avalia. O executivo ressalta que a Evoy tem se preparado para atender essa demanda, oferecendo suporte técnico e regulatório para operações mais complexas.
Qual a diferença entre o mercado primário e secundário de consórcios
No mercado primário, o cliente contrata uma nova cota diretamente com a administradora, paga as parcelas mensais e aguarda a contemplação por sorteio ou lance. Já no mercado secundário, um investidor compra uma cota já ativa de outro consorciado, assumindo as parcelas restantes e todos os direitos sobre aquela cota. A vantagem é que, em muitos casos, é possível adquirir cotas com valor de mercado inferior ao saldo devedor ou com histórico de lances que aumentam a chance de contemplação antecipada. A desvantagem é a complexidade regulatória e a necessidade de conhecimento aprofundado sobre as regras de cada grupo.
Selic cai, mas consórcio continua crescendo
Uma das perguntas mais recorrentes entre analistas e investidores é: o que acontece com o mercado de consórcios quando a Selic cair? A resposta de Valney Corrêa surpreende pela contundência. “A Selic influencia, mas não determina o crescimento. Hoje existe uma mudança cultural. O consumidor passou a planejar melhor suas aquisições e percebe que o consórcio pode reduzir significativamente o custo financeiro”, observa.
O executivo lembra que durante a pandemia, quando a taxa básica de juros atingiu patamares historicamente baixos, o mercado de consórcios também registrou forte expansão. Isso demonstra que o produto não é refém do ciclo econômico, mas sim de uma transformação comportamental. O brasileiro está mais educado financeiramente, mais exigente e mais disposto a buscar alternativas ao crédito tradicional. O consórcio, nesse cenário, ganha espaço não como plano B, mas como estratégia preferencial de aquisição.
Por que o consórcio resiste à queda dos juros
Diferente do financiamento, que se torna mais barato quando a Selic cai, o consórcio não depende diretamente da taxa de juros para ser atrativo. Sua principal vantagem é a ausência de juros compostos sobre o saldo devedor. Em vez disso, o consorciado paga uma taxa de administração, que incide apenas uma vez sobre o valor total do crédito. Em um cenário de juros baixos, o financiamento pode parecer mais interessante no curto prazo, mas o consórcio ainda leva vantagem para quem tem disciplina financeira e não precisa do bem imediatamente. Com juros altos, a diferença se torna ainda mais gritante, mas a mudança cultural — e não apenas o ciclo econômico — é o que sustenta o crescimento estrutural do setor.
O posicionamento da Evoy em um mercado competitivo
A Evoy ocupa hoje uma posição singular no mercado brasileiro de consórcios. Como administradora independente, compete diretamente com gigantes bancários, mas sem a estrutura de agências e a vasta base de clientes cativos que os grandes grupos possuem. A vantagem, segundo Corrêa, está na agilidade e na capacidade de inovação. “Somos uma empresa jovem, mas já estamos entre as principais administradoras do País. Nossa flexibilidade para desenhar operações sob medida e a qualidade do nosso atendimento são diferenciais que nos permitem competir de igual para igual com os bancos”, afirma.
Com um volume mensal de R$ 250 milhões em créditos comercializados, a Evoy demonstra que é possível crescer com independência em um setor dominado por grandes instituições. A aposta agora é diversificar os canais de distribuição, fortalecer a atuação no segmento imobiliário e expandir as operações estruturadas, mirando um público que já entendeu que consórcio é, acima de tudo, uma ferramenta de planejamento financeiro — e não um mero sorteio.
O movimento de contratação de um head comercial com a experiência de Valney Corrêa sinaliza que a Evoy não quer apenas acompanhar o crescimento do mercado. A empresa quer liderar a transformação, mostrando que o consórcio brasileiro amadureceu e agora ocupa o lugar que sempre mereceu: o de instrumento sofisticado de gestão patrimonial, acessível a diferentes perfis de investidores e consumidores.
