Quando o conflito no Irã explodiu, a maior parte dos grandes fundos multimercados brasileiros estava posicionada na mesma direção: apostando em alta para os mercados emergentes. A análise do posicionamento de casas como Absolut, Ace, Capstone, Ibiúna, JGP, Kinea, Verde, Vinland e XP revela uma concentração de risco massiva. Com a guerra, não houve para onde correr, e as perdas foram generalizadas. “Pode acontecer de o mercado inteiro estar posicionado e, quando acontece um evento de estresse imprevisível, um choque que ninguém previa, todo mundo desmonta ao mesmo tempo”, explicou Davi Fontenele, host do programa Stock Pickers – Carteiros do Condado, ao comentar a análise de Alexandre Aagesen, gestor da XP Advisory.
O dólar foi a única proteção em meio ao caos global
O único ativo que funcionou como refúgio durante a turbulência foi justamente aquele contra o qual o mercado local estava massivamente posicionado: o dólar americano. “A única moeda que se beneficiou nessa brincadeira toda foi o dólar, que estava todo mundo apostando contra”, afirmou Fontenele. O movimento foi um contrapé completo, penalizando em doble quem estava vendido na moeda norte-americana. Enquanto isso, Lucas Collazo, também apresentador do programa, retornava de uma rodada de reuniões nos Estados Unidos com um termômetro revelador sobre a percepção externa do Brasil.
Gestores globais buscam oportunidades de A a Z no mercado brasileiro
De volta ao Brasil, Collazo relatou um cenário que contrasta fortemente com o pessimismo muitas vezes vigente internamente: um apetite real e concreto de grandes investidores estrangeiros pelo país, mesmo em meio à turbulência geopolítica. “A turma está muito interessada de A a Z no Brasil”, contou. “Me perguntaram que setores comprar, o que vende na frente, se vai ter follow-on, se vai ter IPO.” O consenso nas mesas estrangeiras visitadas é que a tendência estrutural pré-guerra – uma rotação de capital dos Estados Unidos para os mercados emergentes – deve se reafirmar assim que o conflito se dissipar.
O slogan MENGA e o Brasil como proxy preferencial da América Latina
O interesse é tão forte que Collazo ouviu até um slogan cunhado por um dos maiores hedge funds do mundo: “MENGA — Make Emerging Markets Great Again”. Dentro dessa estratégia, o Brasil é tratado como o principal representante da América Latina, devido ao seu peso nos índices internacionais e por ser o mercado mais líquido da região. Os setores que mais despertam o interesse dos “gringos” são os bancos, infraestrutura e commodities, vistos como beneficiários diretos dos fundamentos econômicos locais e do cenário global.
Preocupação com risco institucional, mas eleição é irrelevante no prêmio
Existem, porém, ressalvas no campo institucional. Grandes fundos estrangeiros deixaram claro que só investiriam em crédito estruturado brasileiro se houvesse algum tipo de garantia soberana envolvida. Casos como o do Banco Master foram citados como fatores de cautela. Além disso, fundos especializados em situações de estresse estão monitorando de perto companhias como CSN e Raízen. Curiosamente, o que não está na lista de preocupações primárias dos estrangeiros é a eleição presidencial. O tema surgiu apenas como conversa informal após as reuniões formais. “Não justifica o prêmio”, disseram a Collazo, referindo-se ao desconto excessivo que os ativos brasileiros carregam frente aos fundamentos sólidos do país.
Fundamentos fortes mantêm fluxo estrangeiro positivo mesmo na crise
Os gestores globais enxergam juros reais elevados, um câmbio relativamente comportado e a posição do Brasil como exportador de petróleo como pilares atrativos. Este último fator, ironicamente, faz do país um beneficiário indireto do próprio choque geopolítico que assustou os mercados. Esse cenário explica por que, mesmo durante a turbulência de março, o fluxo estrangeiro na Bolsa brasileira se manteve positivo, tanto em termos de caixa quanto em operações com derivativos.
A duração do conflito é a grande incógnita para os mercados
A pergunta que nenhum gestor, no Brasil ou no exterior, consegue responder com certeza é quanto tempo vai durar o conflito. Se a guerra terminar rapidamente e o fluxo pelo Estreito de Ormuz – passagem crucial para 20% do petróleo mundial – for restabelecido sem danos severos, a recuperação dos mercados pode ser tão rápida quanto foi em eventos passados, como em março de 2020 ou no Joesley Day de 2017. No entanto, Alexandre Aagesen, da XP, aponta um complicador crítico: diferentemente de um bloqueio temporário, ataques diretos à infraestrutura energética exigem reconstrução, um processo que pode levar meses. “Tudo vai depender da duração do conflito e da intensidade, e como isso se traduz na recuperação do mercado de petróleo”, disse. “Ninguém vai saber.”
O custo proibitivo da proteção e a estratégia de andar leve
Durante o pico da crise, proteger as carteiras de investimento ficou caro demais. Muitos gestores, diante da imprevisibilidade e dos custos elevados de hedge, optaram por uma estratégia mais conservadora: reduzir a exposição e “andar leve”. Essa movimentação defensiva, porém, não significou uma fuga do Brasil como destino de investimento, mas sim uma postura tática de curto prazo enquanto a névoa da guerra não se dissipa. A expectativa geral é de que, uma vez normalizado o cenário, o capital internacional retorne com força, reafirmando a tendência de longo prazo.
A resiliência do interesse estrangeiro pelo Brasil em um momento de crise global severa sinaliza uma mudança profunda na percepção de risco do país. Os fundamentos econômicos, por vezes subvalorizados no debate interno, são os grandes responsáveis por este reposicionamento. Enquanto o mundo aguarda a resolução do conflito, o mercado financeiro brasileiro se consolida não como uma aposta especulativa, mas como um ativo estratégico dentro dos portfólios globais, pronto para capturar os fluxos que devem retornar quando a poeira baixar. A confiança externa, demonstrada no olho do furacão, pode ser o vento que impulsiona a próxima fase de valorização.

