No coração do Edifício Copan, um ícone arquitetônico de Oscar Niemeyer no centro de São Paulo, uma experiência teatral incomum está redefinindo os limites da dramaturgia. A peça Hamlet, Sonhos que Virão, dirigida por Rafael Gomes, ocupa o antigo Cine Copan, espaço fechado desde 1986 e atualmente em fase de reforma para se tornar o futuro Nu Cine Copan, com inauguração prevista para 2027. A escolha do local não é acidental: a ambientação em meio a cimento, tijolos à mostra e a estrutura em transformação serve como metáfora viva para a tragédia shakespeariana, criando um diálogo único entre arquitetura, memória e performance.
O conceito site-specific que transforma ruínas em palco
A montagem adota o conceito de site-specific, prática comum na Europa e nos EUA, mas ainda pouco explorada no Brasil, que utiliza a arquitetura existente como elemento central da narrativa. O público, ao chegar, atravessa a movimentada galeria comercial do Copan e depara-se com o cinema abandonado. No hall, uma instalação com antigas poltronas e pichações de frases de Shakespeare, como o célebre “ser ou não ser”, prepara o terreno para uma experiência que vai além do convencional. A inversão espacial é radical: as 350 cadeiras da plateia estão posicionadas na área onde antes ficava a tela de projeção, enquanto a encenação ocorre no vasto espaço que abrigava as 1200 poltronas originais do projeto de Niemeyer.
A fidelidade ao texto clássico em um cenário contemporâneo
Diferente de muitas releituras modernas que alteram o texto ou o contexto da obra, Hamlet, Sonhos que Virão mantém uma notável fidelidade ao original escrito entre 1599 e 1601. Rafael Gomes, diretor revelado e consagrado no teatro mas com formação em cinema, define a peça como “o Monte Everest da dramaturgia”. A trama, que já rendeu adaptações cinematográficas com astros como Laurence Olivier e Mel Gibson e inspirou animações como O Rei Leão, é apresentada em sua essência: a história do príncipe Hamlet (Gabriel Leone), consumido pela dúvida e pela sede de vingança após a morte do pai e o golpe de seu tio Cláudio (Eucir de Souza), que assume o trono e se casa com a rainha Gertrudes (Susana Ribeiro).
A linguagem cinematográfica aplicada à cena teatral
A formação de Gomes no audiovisual se reflete em escolhas encenáticas precisas. A iluminação, assinada por Wagner Antônio, cria imagens de impacto quase pictórico, como a cena do mergulho fatal de Ofélia (Samya Pascotto), que começa no antigo mezanino e se desdobra em tons verdes na parede, criando uma sequência visual memorável. Os atores, por vezes, deslocam-se pelo palco sobre um trilho, em um movimento que simula o travelling cinematográfico, conduzindo o olhar do público pelo espaço. Em contraste, Gabriel Leone realiza os monólogos de Hamlet sentado em uma cadeira a meio metro das primeiras fileiras, estabelecendo um “close-up” teatral que expõe as emoções do personagem com uma proximidade rara.
O elenco e a comunicação visceral com a plateia
Gabriel Leone, ator com vasta trajetória no audiovisual, surpreende pela entrega visceral. Ele incorpora um deboche à loucura estratégica de Hamlet, criando uma comunicação vibrante e direta com o público, o que facilita a assimilação da complexa jornada psicológica do personagem. O elenco de apoio, incluindo Felipe Frazão como Horácio, Bruno Lourenço como Laertes e Samya Pascotto como Ofélia, sustenta a tensão dramática em um espaço que, longe de ser um obstáculo, potencializa a sensação de desintegração e conflito.
A trajetória de Rafael Gomes entre palco e tela
Aos 43 anos, Rafael Gomes construiu uma carreira que transita entre teatro e cinema com naturalidade. Foi um dos criadores do vídeo Tapa na Pantera (2006), um dos primeiros fenômenos do YouTube brasileiro, e já dirigiu quatro longas-metragens, incluindo 45 Dias Sem Você (2018) e Amigos sem Compromisso (2024). No teatro, destacou-se com adaptações de Um Bonde Chamado Desejo (2015) e Gota D’Água [A Seco] (2016). Sua expertise em ambas as linguagens é o alicerce para a fusão proposta em Hamlet, Sonhos que Virão, onde trata o espetáculo “como um filme”, sem abandonar os princípios fundamentais do teatro.
Ao optar por não forçar anacronismos ou reinterpretações textuais agressivas, a montagem encontra sua força na atmosfera e na concepção espacial. O cinema em obras torna-se uma extensão do palácio em ruínas da Dinamática shakespeariana, onde os personagens são, eles mesmos, estruturas em colapso. O resultado é uma experiência que atrai tanto os puristas do teatro, pela reverência ao texto, quanto um público mais amplo, seduzido pela imersão e pela potência visual. Em um momento cultural que frequentemente busca a novidade a qualquer custo, Hamlet, Sonhos que Virão demonstra que a contemporaneidade pode surgir do diálogo respeitoso com um clássico e da coragem de ocupar espaços inusitados, transformando a tragédia mais famosa do Ocidente em um evento único, onde cada tijolo à vista e cada feixe de luz contam uma parte da história.
