Os números começam a mostrar um fenômeno que economistas e gestores acompanham com atenção crescente: a produtividade global está acelerando, e a Inteligência Artificial aparece como principal motor dessa transformação. Segundo análise da gestora Kapitalo, esse salto de eficiência está redefinindo parâmetros macroeconômicos e criando espaço para políticas monetárias menos restritivas em diversos países.
Produtividade visível nos dados altera cenário macroeconômico
Carlos Woelz, gestor da Kapitalo, destaca que os efeitos da IA já são mensuráveis nas estatísticas econômicas. “A produtividade já está aparecendo nos números”, afirma o especialista. “Isso significa emprego baixo, alguma desaceleração, mas também produtos mais baratos e espaço para ajustar juros.” Embora reconheça que a medição de produtividade seja “um resíduo, mal medido”, Woelz enfatiza que os movimentos estruturais estão claros e representam uma mudança significativa em relação ao período recente.
Risco de precipício econômico foi evitado pela eficiência tecnológica
A análise não ignora os desafios recentes. Woelz recorda um período em que a economia global flertou com um “precipício” de desaceleração, pressionado pela queda de renda e menor geração de empregos. “Se você começa a demitir nesse ambiente, aí sim você cai no precipício”, alerta o gestor. No entanto, a combinação de maior eficiência operacional com menor necessidade de contratações massivas criou um colchão de segurança que evitou cenários mais dramáticos.
IA ajuda a afastar risco recessivo e amplia margem de manobra
Segundo Woelz, a Inteligência Artificial desempenhou papel crucial ao “tirar a economia da beira” de uma recessão mais profunda. “À medida que você sai do precipício, você ganha espaço para manejar política monetária”, explica. Essa maior flexibilidade permite que até mesmo choques externos, como variações no preço do petróleo, sejam absorvidos com menor impacto inflacionário quando combinados com ganhos consistentes de produtividade.
Microeconomia sente impacto imediato da transformação digital
Bruno Mauad, sócio da Kapitalo, analisa as mudanças do ponto de vista microeconômico. “Mesmo nas empresas brasileiras já vemos mudanças rápidas”, observa. O especialista cita exemplos que vão desde a adoção de máquinas chinesas mais eficientes em fábricas nacionais até cortes corporativos massivos em grandes empresas de tecnologia no exterior, como a Block (antiga Square).
Modelos de negócio tradicionais enfrentam pressão disruptiva
“A vida de alguns modelos de software vai ficar mais difícil”, prevê Mauad. Ele destaca como informações que antes exigiam terminais profissionais especializados hoje estão disponíveis “no celular em segundos”. Essa democratização do acesso a dados e análises sofisticadas pressiona empresas que construíram seus negócios na intermediação de informações ou na venda exclusiva de dados.
Brasil se beneficia por estar no lado dos ativos físicos
Paradoxalmente, o Brasil encontra vantagens competitivas nessa nova configuração. Mauad argumenta que o país se beneficia por estar do lado dos ativos físicos, que são mais difíceis de serem substituídos por tecnologias digitais. “Google, Amazon… todo mundo investindo. E quem investe pesado precisa de matéria-prima”, aponta, referindo-se aos pesados investimentos em infraestrutura física que grandes empresas de tecnologia estão realizando globalmente.
Vantagem do subdesenvolvimento permite copiar eficiência já testada
Mauad cita o economista Carlos Tristano para explicar uma dinâmica peculiar: “a vantagem de ser subdesenvolvido é copiar o desenvolvido”. Países como o Brasil podem importar tecnologias de IA já maduras e testadas em mercados mais avançados, recebendo um “choque positivo de preços” sem precisar arcar com os custos de pesquisa e desenvolvimento inicial.
Produtividade importada gera ganhos indiretos significativos
Woelz complementa essa análise explicando que países menos produtivos podem ter um ganho extra de eficiência ao adotar tecnologias já consolidadas. Ao importar serviços de IA, centros de dados e soluções digitais a custos menores, o Brasil captura parte dos ganhos de produtividade gerados globalmente. No entanto, o gestor faz uma ressalva importante: transformar esse choque positivo em inovação doméstica sustentável ainda representa um desafio considerável.
Ciclo atual lembra período de produtividade dos anos 1990
Woelz identifica paralelos entre o momento atual e o ciclo de produtividade observado entre 1994 e 1996. Naquele período, cortes de juros coordenados globalmente, combinados com saltos de eficiência tecnológica, criaram um cenário que o gestor classifica como “maravilhoso”. A combinação entre crescimento mais forte ou juros mais baixos – “um dos dois vem” – tende a favorecer commodities e ativos de risco, segundo sua análise.
Riscos geopolíticos permanecem como variável crítica
Apesar do otimismo com os ganhos de produtividade, ambos os especialistas mantêm atenção aos riscos geopolíticos. Woelz comenta que tensões no Oriente Médio “podem interromper ou não a melhora cíclica”, mas reconhece que o ponto de partida atual é mais favorável do que há um ano: desemprego em patamares controlados e maior capacidade de ajuste das economias a eventuais choques externos.
Empregos podem ser criados em vez de destruídos no curto prazo
Um aspecto contra-intuitivo da discussão sobre IA e produtividade merece destaque: evidências recentes sugerem que, pelo menos no curto prazo, a Inteligência Artificial pode estar criando mais empregos do que destruindo. Blog do Banco Central Europeu já destacou essa tendência, que desafia narrativas apocalípticas sobre automação total e desemprego tecnológico em massa.
Investimentos em infraestrutura tecnológica redefinem balanços
Mauad observa uma mudança estrutural fundamental: grandes empresas de tecnologia, antes leves em ativos físicos, tornaram-se investidores pesados em infraestrutura. Essa transformação tem implicações importantes para cadeias de suprimentos e para a demanda por commodities, criando oportunidades para países produtores de recursos naturais.
Eficiência operacional reduz pressão inflacionária de base
O aumento da produtividade via IA atua como um contra-peso natural às pressões inflacionárias. Quando empresas produzem mais com menos recursos humanos e materiais, os custos unitários tendem a cair. Essa dinâmica permite que bancos centrais mantenham taxas de juros em patamares menos restritivos sem perder o controle sobre a inflação, criando um círculo virtuoso de crescimento com estabilidade de preços.
Setor financeiro adapta estratégias ao novo cenário
As implicações para o mercado financeiro são profundas. A recomendação da Kapitalo reflete essa nova realidade: em vez de investir diretamente em crédito, os gestores sugerem focar em “renda fixa eficiente“. Essa abordagem busca capturar os ganhos de produtividade sem se expor excessivamente aos riscos tradicionais do mercado de crédito, que podem ser amplificados em períodos de transformação tecnológica acelerada.
Empresas brasileiras mostram adaptabilidade surpreendente
Contrariando expectativas de que o Brasil ficaria para trás na revolução da IA, Mauad observa adoção rápida mesmo em empresas tradicionais. A combinação entre necessidade de ganhar eficiência em um ambiente competitivo e acesso facilitado a tecnologias desenvolvidas no exterior está criando um cenário de modernização acelerada em diversos setores da economia brasileira.
A transformação em curso representa mais do que uma mudança tecnológica pontual – trata-se de uma reconfiguração profunda de como valor é criado e distribuído nas economias modernas. Os ganhos de produtividade gerados pela IA estão criando espaço para políticas econômicas mais flexíveis, mas também exigem adaptações estruturais de empresas, trabalhadores e formuladores de políticas. O desafio agora é garantir que esses ganhos de eficiência se traduzam em melhorias sustentáveis de bem-estar, sem ampliar desigualdades ou criar novas formas de exclusão econômica. O Brasil, com suas particularidades e potencialidades, tem a oportunidade de navegar essa transição de forma mais suave do que economias mais maduras, desde que consiga combinar a importação de eficiência com o desenvolvimento de capacidades próprias de inovação.

