IPCA+ supera CDI como porto seguro contra a inflação no longo prazo

Estudo da XP e Atlantiqis aponta que o IPCA+ é a melhor proteção contra a inflação para investidores de longo prazo.

Destaques
  • O CDI teve retorno real negativo em 2020 e 2021, perdendo poder de compra.
  • O IPCA+ garante uma taxa de juro real fixa até o vencimento, protegendo contra a inflação.
  • O Tesouro IPCA+ 2032 oferecia 8,27% de juro real, um prêmio histórico.

O debate sobre qual ativo de renda fixa realmente protege o patrimônio do investidor brasileiro no longo prazo ganhou novos contornos. Um estudo intitulado “Repensando o ativo sem risco: uma visão brasileira”, produzido pela Atlantiqis em parceria com a XP e assinado por Eduardo Marinho, Ruy Ribeiro e Artur Wichmann, coloca em xeque a crença de que investimentos pós-fixados atrelados ao CDI ou à Selic representam a opção mais segura. A conclusão central é que, para horizontes de investimento mais longos, o IPCA+ emerge como o verdadeiro porto seguro, justamente por proteger o poder de compra contra a corrosão da inflação — um fenômeno consistente e duradouro na economia brasileira.

CDI não é ‘livre de risco’

A noção de que o CDI é um investimento sem risco ignora uma variável crucial: a inflação. O estudo aponta que a segurança de um ativo deve ser medida pela sua capacidade de financiar planos futuros, e não apenas pelo crescimento nominal do saldo. Enquanto o CDI aumenta o valor em tela, o IPCA+ garante que a capacidade de compra desse valor seja mantida ao longo do tempo.

O principal risco do CDI para prazos mais longos é o chamado risco de reinvestimento. O investidor sabe quanto vai receber de juros hoje, mas não consegue garantir a taxa real (juro descontado da inflação) que conseguirá ao reinvestir o dinheiro no futuro, seja após o vencimento ou o resgate do título. Dados históricos mostram como essa incerteza pode ser custosa.

Entre janeiro de 2019 e janeiro de 2023, quem aplicou no CDI viu seu retorno nominal de aproximadamente 27% ser praticamente anulado pela inflação acumulada de 23,5% no período. Em 2020 e 2021, anos de forte estresse econômico, o CDI entregou retornos reais negativos: -1,73% e -5,37%, respectivamente. Isso significa que, em vez de proteger, o investimento perdeu poder de compra. “Para investidores que recorreram a esse instrumento em busca de proteção patrimonial diante da maior crise sanitária em um século, o resultado foi a erosão silenciosa do poder de compra precisamente quando mais se buscava preservá-lo”, afirma o documento.

Esse comportamento não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, os títulos equivalentes ao Tesouro Selic, as T-Bills, também tiveram retorno real médio negativo entre 2006 e 2026.

IPCA+ como novo porto seguro no longo prazo

A grande diferença entre os dois ativos está no horizonte de investimento. O CDI é um instrumento adequado para o curto prazo, como reserva de emergência ou dinheiro com liquidez imediata. Para objetivos de médio e longo prazo, o título indexado à inflação oferece uma vantagem contratual: ao comprar um Tesouro IPCA+, o investidor conhece exatamente a taxa de juro real no momento da aplicação (IPCA + um percentual fixo). Essa taxa fica garantida até o vencimento, independentemente das oscilações futuras da inflação ou dos juros.

O estudo demonstra que o risco dos papéis IPCA+ cai drasticamente conforme o prazo aumenta. As flutuações de curto prazo nos preços dos títulos, conhecidas como marcação a mercado, tendem a ser temporárias e compensadas por retornos maiores no futuro. Para que essa proteção funcione, no entanto, é essencial manter o título até o vencimento. Carregar o ativo até a data final constitui uma estratégia de mitigação de risco, especialmente quando se busca casar objetivos de longo prazo com ativos que protejam contra a inflação.

No cenário atual, a taxa básica de juros está em 14,25% ao ano, com inflação de 4,72% acumulada em 12 meses, resultando em uma taxa real de 9,5% ao ano para o CDI — superior aos juros reais dos títulos IPCA+, que giram em torno de 8%. No entanto, essa taxa real do CDI não é garantida para o longo prazo e pode se tornar negativa se a inflação subir ou os juros caírem. Já o IPCA+ trava um juro real positivo desde o momento da compra.

Simulação prática: IPCA+ contra CDI no financiamento de uma faculdade

Para ilustrar a diferença na prática, o estudo apresenta um exercício de investimento de longo prazo. Imagine uma investidora que, em janeiro de 2010, precisava poupar R$ 500 mil para pagar a faculdade do filho dali a cinco anos. Ela poderia escolher entre IPCA+ e CDI. Como a faculdade fica mais cara com a inflação, o valor necessário em 2015 seria maior do que os R$ 500 mil iniciais.

Os resultados mostram que o investimento em IPCA+ garantiu o valor necessário em diferentes cenários, enquanto o CDI deixou “buracos” financeiros. Nos exemplos:

  • Aplicação em janeiro de 2010, resgate em janeiro de 2015: aporte de R$ 361.216,06. O Tesouro IPCA+ rendeu R$ 675.973,26; o CDI, R$ 574.335,01. Diferença de -R$ 101.638.
  • Aplicação em julho de 2010, resgate em julho de 2015: aporte de R$ 370.476,53. O Tesouro IPCA+ rendeu R$ 713.291,97; o CDI, R$ 598.309,47. Diferença de -R$ 114.982.

A simulação evidencia que, para um objetivo de valor real futuro, o CDI não conseguiu acompanhar a correção inflacionária, gerando um déficit significativo.

O custo da inflação consistente no Brasil

A inflação elevada e persistente no Brasil tem raízes estruturais. Um estudo da TAG Investimentos, apresentado em sua carta mensal de julho, aponta o descontrole das contas públicas como principal motor. O Brasil leva, em média, 15 meses para transformar a emissão de dinheiro em inflação oficial (IPCA). Isso significa que a dívida pública de hoje determina a remarcação de preços nos supermercados daqui a pouco mais de um ano.

Desde 2002, a quantidade de dinheiro disponível no país cresceu a uma taxa média de aproximadamente 14,09% ao ano, enquanto a inflação avançou cerca de 6,42% no mesmo período. Para a gestora, ao gastar além do que arrecada, o Estado transfere silenciosamente o custo da dívida pública para o poder de compra da população.

Diante desse cenário, a TAG Investimentos recomenda manter sobrepeso em títulos indexados à inflação, especialmente os de prazo mais curto. Nesta terça-feira (7), o Tesouro IPCA+ 2032 oferecia 8,27% de juro real no Tesouro Direto, uma taxa historicamente elevada. A gestora destaca que a inflação implícita nesses títulos está próxima de 6%, contra uma projeção de mercado abaixo de 4% — uma diferença de 2% que representa um “prêmio” atraente em um país que insiste em ter inflação acima das expectativas.

O que o investidor brasileiro deve considerar

Nem o estudo da XP com a Atlantiqis nem a carta da TAG sugerem o abandono completo do CDI. Ambos reconhecem que a indexação ao juro básico faz sentido para o curto prazo, como reserva de emergência ou dinheiro para liquidez operacional. O problema, segundo a TAG, é quando o caixa tático se passa por plano de aposentadoria.

Para o investidor brasileiro, a principal lição é clara: o horizonte de investimento deve ditar a escolha do ativo. Se o objetivo está a cinco, dez ou vinte anos de distância, o IPCA+ oferece uma proteção contratual contra a inflação que o CDI não consegue garantir. A decisão não é entre um ativo “ruim” e outro “bom”, mas entre instrumentos adequados para diferentes prazos e propósitos. O CDI segue sendo uma ferramenta valiosa para o dia a dia; o IPCA+, para construir e preservar riqueza real no longo prazo.

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