Letícia Novaes, a Letrux, apresenta ao público seu quarto álbum solo, “Sad Sexy Silly Songs”, marcando uma virada estética em sua trajetória musical. O trabalho, lançado recentemente, consolida um conceito que a artista já vinha explorando em discos anteriores, mas com uma abordagem sonora inédita em seu catálogo. Desta vez, a cantora e compositora opta por uma produção mais crua e minimalista, priorizando a voz e o violão para dar protagonismo absoluto às letras, sua verdadeira obsessão criativa.
O conceito tríplice que define a personalidade artística de Letrux
O título do álbum não é apenas um nome, mas um manifesto criativo que resume a essência de Letícia Novaes. “Sad Sexy Silly Songs” funciona como um mapa das três atmosferas que ela identifica em si mesma e que já haviam pautado seus trabalhos anteriores de forma isolada. O álbum “Letrux em Noite de Climão” (2017) representou o “sexy”; “Letrux Aos Prantos” (2020), o “triste”; e “Letrux Como Mulher Girafa” (2023), o “bobo”. Agora, a artista reúne essas três dimensões em um único projeto, criando um panorama completo de sua personalidade artística e humana, onde melancolia, desejo e humor coexistem sem conflitos.
O processo criativo guiado por um tema pré-definido
Em entrevista exclusiva, Letrux revelou que o título surgiu primeiro, anotado em um de seus cadernos de ideias em 2023, com a frase “Sad Sexy Silly Small Songs”. A partir desse conceito, o processo de composição se tornou uma espécie de redação com tema definido, método que ela prefere ao “tema livre”. A artista passou a catalogar suas composições existentes dentro dessas categorias e a criar novas músicas com objetivos específicos, chegando a enviar mensagens para parceiros como Jadsa e Mahmundi com propostas diretas como “Vamos fazer uma música sexy”. Essa estrutura serviu como um norte criativo claro e produtivo.
A defesa da diversão como ato revolucionário na criação
Letrux é enfática ao destacar a importância do humor e da leveza em seu processo criativo, especialmente em um contexto social marcado por crises e dificuldades. Ela cita uma frase da cantora Michelle Gurevich — “Quanto mais a vida fica difícil, mais fácil fica subir no palco” — para fundamentar sua perspectiva. A artista argumenta que, diante de realidades como guerras, pressões capitalistas e problemas cotidianos, a diversão deveria ser uma prioridade constante, não um elemento secundário. Sua formação em palhaçaria reforça essa visão, levando-a a considerar a alegria como um ato revolucionário nos tempos atuais.
A rejeição da autocensura e a valorização do espontâneo
Ao longo da carreira, Letrux já experimentou a pressão para adotar uma postura mais “séria” em sua música, mas identificou que essa contenção apenas a limitava criativamente. Ela percebeu que o público aprecia justamente o lado “bobo”, coloquial e despretensioso de suas composições. Essa constatação a libertou para explorar plenamente seu lado divertido e espontâneo, sem medo de que isso pudesse diminuir o valor artístico de seu trabalho. A diversão se tornou, assim, parte integral não apenas da composição, mas também das etapas de gravação, mixagem e apresentações ao vivo.
A palavra como centro gravitacional do universo criativo
Letícia Novaes define sua relação com a linguagem de maneira quase devocional: “Sou tarada em letra. A palavra manda em mim, e eu obedeço”. Filha de professora e leitora assídua, ela mantém um vínculo físico com a escrita, utilizando cadernos, canetas e lápis como ferramentas preferenciais para o processo criativo. Para ela, a caligrafia manual confere às palavras uma qualidade especial, “como um ponto de luz”, diferente da frieza do texto digital. Essa obsessão lexical é tão central que ela brinca sobre criar uma camiseta com os dizeres “Eu ♥ palavra”.
A divisão de papéis na parceria com Thiago Rebello
Consciente de que sua maior preocupação está nas letras, Letrux buscou no produtor e musicista Thiago Rebello o equilíbrio sonoro necessário. Ela descreve Rebello como “um musicista chique, rebuscado, incrível e maravilhoso” que assume a responsabilidade pela dimensão musical, permitindo que ela se concentre inteiramente no trabalho com as palavras. Essa parceria estratégica resultou na produção minimalista de “Sad Sexy Silly Songs”, onde a simplicidade instrumental serve de moldura para as letras detalhadas e carregadas de intenção.
A relação complexa com o português e o inglês nas composições
O novo álbum apresenta uma divisão quase igualitária entre músicas em português e em inglês, reflexo de um processo orgânico descrito pela artista como uma obediência à vontade própria das palavras. Letrux explica que certas frases e sentimentos “exigem” ser expressos em um idioma específico, e ela simplesmente segue essa demanda. Ela observa que o inglês pode soar mais natural para algumas construções melódicas, enquanto o português oferece um requinte e uma exigência diferentes. Poliglota por interesse pessoal e herança familiar — sua mãe é professora de francês —, a artista demonstra uma sensibilidade aguçada para as nuances linguísticas.
As influências musicais que moldaram o som do álbum
Durante o processo de criação de “Sad Sexy Silly Songs”, Letrux mergulhou em referências diversas que ajudaram a definir a atmosfera sonora do projeto. A artista menciona ouvir intensamente Laurie Anderson, J.J. Cale e Prince, além de soul music americana para capturar a essência “sexy” desejada. Paralelamente, manteve diálogo criativo com artistas contemporâneas brasileiras, como Jadsa, cujo trabalho ela classifica como “maravilhoso e genial”. Essa mistura de influências internacionais e nacionais contribuiu para a sonoridade singular do álbum.
A turnê minimalista que reflete as escolhas do disco
Alinhada à estética crua do álbum, a turnê de divulgação de “Sad Sexy Silly Songs” será realizada em formação reduzida. Letrux se apresentará em trio, acompanhada por Thiago Rebello na guitarra acústica e por Cristine Ariel no violão, utilizando bases eletrônicas apenas em faixas específicas que requerem batidas. A artista, formada em teatro e autodeclarada “bicho de palco”, vê nessa simplicidade uma nova oportunidade de encenação e interação com o público. Ela enfatiza que cada apresentação é única, moldada por variáveis como cidade, humor pessoal e energia da plateia.
Para Letrux, o palco representa a catarse final de um processo criativo que começa na composição, passa pelo desafio técnico da gravação — fase que ela considera a mais difícil — e se completa na troca energética com o público. Com “Sad Sexy Silly Songs”, ela não apenas oferece um novo capítulo em sua discografia, mas também reafirma sua filosofia artística: uma celebração da palavra, da autenticidade e do direito à complexidade emocional, onde tristeza, desejo e bom humor podem habitar o mesmo espaço sem hierarquias.

