Mercados privados enfrentam crise com alertas de 24 meses difíceis e riscos de inadimplência

O cenário nos mercados privados de Wall Street está longe de ser tranquilo. O começo de 2026 tem sido um dos mais desafiadores para as ações das maiores gestoras do setor em mais de uma década, com quedas superiores a 25% para gigantes como Apollo, Ares, Blackstone e KKR, enquanto o S&P 500 registrava uma leve retração de 0,3%. Essa discrepância revela uma preocupação profunda dos investidores com o futuro imediato de crédito privado e private equity, setores que movimentam trilhões de dólares globalmente.

Executivos alertam para período prolongado de ajuste no setor

Durante a conferência Bloomberg Invest, líderes das principais gestoras pintaram um quadro cauteloso. Dawn Fitzpatrick, CIO da Soros Fund Management, foi uma das mais diretas ao prever que investidores em crédito privado e private equity enfrentarão “18 a 24 meses dolorosos” pela frente. A declaração ecoou o sentimento de outros executivos no evento, que apontaram para um período de correção após anos de crescimento acelerado e busca por retornos em ambientes de juros historicamente baixos.

Disrupção da inteligência artificial pressiona portfólios de software

Um dos focos centrais de preocupação é o setor de software, que se tornou um favorito dos investidores de mercados privados nos últimos anos. A ameaça agora vem da inteligência artificial, que tem o potencial de corroer modelos de negócios estabelecidos e desvalorizar ativos significativos dentro dos portfólios desses fundos. Analistas alertam que, se a IA disruptar as empresas americanas na magnitude que alguns especialistas preveem, as taxas de default em crédito privado podem disparar, criando um efeito cascata em todo o sistema.

Blackstone e Blue Owl adotam estratégias opostas para lidar com resgates

Enquanto os alertas eram feitos no palco da conferência, no campo de batalha dos fundos, gestoras adotavam posturas radicalmente diferentes para enfrentar uma onda de pedidos de resgate. A Blackstone anunciou que permitiria aos investidores resgatar um recorde de 7,9% das cotas de seu principal fundo de crédito privado, uma decisão que Fitzpatrick classificou como inteligente para a saúde de longo prazo do negócio. No extremo oposto, um fundo da Blue Owl decidiu suspender resgates trimestrais e buscar a venda de ativos para devolver capital aos investidores.

Limites de resgate são características ou falhas do sistema?

A divergência de abordagens levanta questões fundamentais sobre a liquidez nos mercados privados. Vivek Bantwal, co-head global de crédito privado da Goldman Sachs Asset Management, defendeu que limites a saques em fundos são “características, não falhas” do mercado de US$ 1,8 trilhão. Segundo ele, esse tipo de mecanismo de proteção permite “que o fundo proteja, de fato, o investidor e o próprio fundo do tipo de destruição de valor que pode acontecer em vendas forçadas”.

Diversificação como estratégia de sobrevivência em tempos turbulentos

Mike Arougheti, CEO da Ares Management Corp., argumentou que apenas as gestoras de mercados privados mais diversificadas irão sobreviver ao período de ajuste. “Diversificação é um grande meio de mitigar riscos,” afirmou o executivo. “Também é uma forma de suavizar os retornos. Estamos constantemente tentando encontrar o equilíbrio certo.” A declaração vem em um contexto onde gestores de private equity estão lutando para se desfazer de ativos e devolver dinheiro aos investidores, sendo forçados a recorrer a formas caras de dívida para extrair retornos dos negócios que adquiriram.

Risco de chamadas de margem preocupa gestoras de crédito

Fitzpatrick destacou um risco adicional que pode amplificar os problemas: a possibilidade de queda nas avaliações forçar chamadas de margem em fundos que tomaram empréstimos bancários usando seus ativos como garantia. “Uma vez que isso aconteça, esses fundos de crédito privado vão ter que levantar caixa para atender às chamadas de margem,” alertou. “Se você começar a ver dor ou escrutínio sobre os bancos nesse lado do crédito, acho que isso pode ser um prenúncio de coisas piores.”

Cenário extremo de default de 15% é considerado improvável, mas não impossível

Embora tenha sido categórico ao dizer que a previsão de analistas do UBS Group AG de taxas de default em crédito privado chegando a 15% é “absolutamente errada”, Arougheti fez uma ressalva preocupante. O executivo observou que alguns portfólios tiveram taxas de perda de 8% a 10% durante a crise financeira de 2008, sugerindo que, em um cenário de estresse severo, números elevados não são totalmente descartáveis. “Se você está falando de taxa de default de 15% em crédito privado — o que, de novo, acho que não é possível —, mas se chegar lá, todo o resto do seu portfólio, garanto, estará completamente destruído,” afirmou.

Escolhas de risco feitas na alta cobram seu preço na baixa

Marc Rowan, CEO da Apollo Global Management Inc., trouxe uma perspectiva filosófica sobre a situação atual. “As pessoas fizeram escolhas: se você queria um dividendo maior, podia assumir mais risco,” disse Rowan. “Isso parecia muito bom na subida. Não vai parecer tão bom na descida.” A declaração resume o sentimento de muitos no setor: estratégias que funcionavam bem em um ambiente de juros baixos e crescimento constante estão sendo testadas em um novo paradigma de custos de capital mais altos e disrupção tecnológica acelerada.

Mercados de crédito tradicionais permanecem sólidos, mas direct lending preocupa

Connor Teskey, CEO da Brookfield Asset Management, classificou os desafios atuais do crédito privado como “soluços” para o setor, mantendo uma visão otimista de longo prazo. “Em geral, achamos que os mercados de crédito estão em boa forma, os balanços dos bancos estão ótimos, os balanços corporativos estão fortes, os mercados de capitais estão líquidos,” afirmou. “Mas, quando você chega ao direct lending, há, sem dúvida, algumas preocupações.” A distinção é importante, pois sugere que os problemas podem estar concentrados em segmentos específicos dentro do universo mais amplo do crédito privado.

Seleção natural deve separar gestoras que cumprem promessas das que não cumprem

Fitzpatrick previu que haverá uma “seleção natural das gestoras de ativos alternativos” que não cumprem sua parte do acordo quando se trata de devolver capital aos investidores conforme prometido. Esse processo de diferenciação já está em curso, com investidores observando atentamente como cada gestora lida com os pedidos de resgate e a pressão por liquidez. As que conseguirem navegar pelo período turbulento sem quebrar promessas fundamentais aos investidores devem emergir fortalecidas, enquanto outras podem ver sua reputação e base de capital seriamente prejudicadas.

O momento atual representa um teste de estresse sem precedentes para a estrutura dos mercados privados, que cresceram exponencialmente na última década prometendo retornos superiores em troca de iliquidez. À medida que os prazos de investimento se esgotam e os ciclos econômicos mudam, a capacidade desses fundos de entregar o que prometeram está sendo posta à prova. Os próximos 24 meses não apenas revelarão quais gestoras têm modelos de negócios resilientes, mas também testarão a própria premissa de que mercados privados podem consistentemente oferecer alfa significativo após considerar todos os riscos e custos. A dor que os executivos preveem pode ser o preço necessário para separar estratégias sustentáveis de especulação disfarçada de investimento sofisticado.

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