Operação bilionária de Daniel Vorcaro expõe lucro de 11.472% em fundos ligados ao Banco Master

Declarações de Imposto de Renda enviadas à CPI do Crime Organizado revelam operações financeiras extraordinárias envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e fundos de investimento vinculados ao Banco Master. Os documentos detalham transações que registraram valorizações superiores a 11.000% em períodos extremamente curtos, levantando questionamentos sobre a natureza e a legalidade dessas movimentações.

Lucro de R$ 294 milhões em 24 horas em transação documentada

Conforme apurado pela Folha de S.Paulo, a operação mais impactante ocorreu entre 27 e 28 de dezembro de 2023. Nesse intervalo de um único dia, Daniel Vorcaro adquiriu cotas do Hans 2 Fundo de Investimento Part. Multiestratégia por R$ 2,5 milhões e as revendeu, no dia seguinte, ao Itabuna Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia pelo valor estratosférico de R$ 294,5 milhões. O lucro nominal da operação foi de R$ 292 milhões, representando uma valorização de 11.472% em menos de 24 horas.

Padrão de operações com fundos ligados ao Banco Master

Essa não foi a primeira transação com características semelhantes. Em maio de 2023, o ex-banqueiro já havia realizado uma movimentação análoga: investiu R$ 10 milhões em cotas do mesmo fundo e, sete dias depois, vendeu-as por R$ 160 milhões ao Astralo Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado I. O ponto crucial é que tanto o Itabuna quanto o Astralo, os fundos compradores nessas duas operações, integram estruturas ligadas ao Banco Master, instituição financeira que era controlada pelo próprio Vorcaro e que posteriormente foi liquidada pelo Banco Central.

Assessoria se recusa a explicar valorizações extraordinárias

Questionada diretamente pela reportagem sobre as razões técnicas ou de mercado que justificariam tamanha valorização em prazos tão curtos, e também sobre a relação comercial entre os fundos envolvidos, a assessoria de Daniel Vorcaro emitiu uma nota na quinta-feira, dia 12, informando que não comentaria o assunto. A ausência de uma explicação formal para ganhos de capital dessa magnitude em operações entre partes relacionadas aumentou o escrutínio sobre os casos.

Investigadores apontam esquema para transferência de recursos

As apurações em curso da Polí Federal convergem para a tese de que os fundos de investimento foram utilizados como um mecanismo sofisticado para transferir recursos do Banco Master para o ex-banqueiro, seus familiares e aliados. Segundo as investigações, o método consistia em inflar artificialmente o valor de cotas de fundos sem o devido lastro em ativos concretos ou fundamentos econômicos, criando lucros fictícios ou supervalorizados em um curto espaço de tempo.

Patrimônio declarado salta de milhões para bilhões em uma década

Os dados fiscais entregues à CPI do INSS traçam uma curva de crescimento patrimonial vertiginosa. Em 2015, Daniel Vorcaro declarou um patrimônio total de R$ 2,9 milhões. Nove anos depois, em sua declaração de 2024, esse montante havia superado a marca de R$ 2,6 bilhões. O crescimento não se limitou ao patrimônio; seus rendimentos anuais acompanharam a escalada. Em valores corrigidos, os rendimentos saltaram de R$ 82,8 milhões em 2016 para R$ 570 milhões em 2024. Somente nas duas operações com fundos em 2023, seu lucro declarado foi de R$ 441,9 milhões, parte dos R$ 631,6 milhões em ganhos de capital totais declarados no ano.

STF mantém prisão preventiva do ex-banqueiro

O contexto jurídico permanece tenso para o ex-banqueiro. Nesta sexta-feira, dia 13, o Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria em plenário virtual para manter a prisão preventiva de Daniel Vorcaro. O julgamento seguirá em andamento até a próxima sexta-feira, dia 20. O ministro Dias Toffoli não participa da análise por ter se declarado suspeito por “foro íntimo”. A decisão ocorre enquanto as CPIs e a Polícia Federal aprofundam as investigações sobre as operações financeiras irregulares que teriam sido realizadas por meio do Banco Master.

As operações bilionárias em 24 horas, a recusa em fornecer esclarecimentos, o padrão de transações entre partes vinculadas e o crescimento patrimonial explosivo formam um conjunto de evidências que sustentam as suspeitas das autoridades. O caso expõe não apenas as supostas manobras de um banqueiro, mas também potenciais brechas e fragilidades no sistema de controle de fundos de investimento, levantando um alerta para reguladores e para o mercado sobre a necessidade de maior transparência e vigilância sobre movimentações de alto valor e prazo curtíssimo.

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