O Papa Leão XIV promulgou em 25 de maio de 2026 a encíclica “Magnifica Humanitas” (Grande Humanidade), sua primeira desde a posse, dedicada à proteção da dignidade humana na era da inteligência artificial. O documento contém 245 parágrafos e aproximadamente 42.300 palavras na versão em inglês, extensão excepcional para uma encíclica. O texto estabelece um paralelo direto entre dois episódios bíblicos: a Torre de Babel, símbolo da autossuficiência humana, e a reconstrução dos muros de Jerusalém sob Neemias, exemplo de colaboração comunitária. Para o pontífice, a escolha do rumo da IA reside precisamente entre esses dois caminhos. A tecnologia em si não é demonizada, mas a justificativa da substituição sistemática de trabalhadores em nome do lucro é apresentada como inaceitável. Essa dupla atitude percorre toda a encíclica: não há negação do progresso técnico, mas uma barreira ética intransponível contra a exclusão de seres humanos em nome da eficiência.
Rerum Novarum como Precedente e a Mudança do Polo de Poder
A data de assinatura, 15 de maio de 2026, marca exatos 135 anos da publicação da encíclica “Rerum Novarum” pelo Papa Leão XIII. Aquele documento de 1891 foi a primeira vez que a Igreja Católica se posicionou formalmente sobre a questão social, defendendo os direitos dos operários industriais contra a exploração do capitalismo desenfreado e, ao mesmo tempo, rejeitando as soluções do socialismo. Leão XIV retoma conscientemente essa linhagem. O que era a fábrica do século XIX é agora o ecossistema digital e autônomo do século XXI. No entanto, o pontífice identifica uma diferença crucial: na época de Leão XIII, o Estado ainda liderava e regulava a inovação tecnológica; hoje, são as empresas privadas transnacionais que detêm recursos superiores aos de muitos governos e determinam a direção do desenvolvimento. O poder mudou de mãos, e a encíclica aponta diretamente para essa concentração de poder tecnológico no setor privado como o novo campo de batalha pela dignidade humana.
| Rerum Novarum | Magnifica Humanitas | |
|---|---|---|
| Ano de Publicação | 1891 | 2026 |
| Papa | Leão XIII | Leão XIV |
| Contexto Histórico | Revolução Industrial e expansão do trabalho fabril | Disseminação rápida da IA e tecnologias digitais |
| Objeto de Proteção | Direitos e condições de vida dos operários | Dignidade humana na era da IA |
| Alvo de Crítica | Capitalismo excessivo e socialismo | Paradigma tecnocrático |
| Agente da Tecnologia | Principalmente o Estado | Empresas privadas transnacionais |
| Exigências Principais | Dignidade do trabalhador e salário justo | Regulação da IA, proteção do emprego e restrição ética de armas autônomas |
Estrutura em Cinco Capítulos e o Paradigma Tecnocrático
A encíclica é organizada em uma introdução e cinco capítulos. Os dois primeiros capítulos revisam a história e os princípios da doutrina social católica. O terceiro capítulo enfrenta diretamente a IA e o que o papa chama de “paradigma tecnocrático”, uma visão de mundo que subordina todas as dimensões da vida humana à lógica da eficiência técnica e do controle. O papa critica tanto o transumanismo quanto o pós-humanismo, correntes que buscam superar ou transcender a condição humana através da tecnologia. Para Leão XIV, os limites humanos não são erros a serem corrigidos, mas uma parte essencial da identidade a ser acolhida. O quarto capítulo aborda a proteção da verdade, do trabalho e da liberdade. O papa expressa preocupação com a estrutura que deixa para os humanos apenas as tarefas para as quais não há treinamento ou capacidade, uma vez que a IA automatiza as atividades rotineiras. O trabalho não é visto como mera fonte de renda, mas como um caminho de amadurecimento e realização pessoal. O quinto capítulo trata do uso de sistemas de armas autônomas, que o papa descreve como uma normalização da guerra que enfraquece o controle humano e exige “a mais rigorosa contenção ética” no desenvolvimento de armamentos baseados em IA.
O Significado da Presença do Cofundador da Anthropic
A cerimônia de publicação ocorreu no Sínodo do Vaticano, quebrando a tradição de delegar o anúncio a cardeais ou porta-vozes. O próprio papa subiu ao púlpito para apresentar o documento, um gesto incomum que sublinha a importância atribuída ao tema. Entre os presentes, a figura que mais chamou a atenção foi Christopher Olah, cofundador da Anthropic. Olah lidera a pesquisa de interpretabilidade na empresa, área que busca desvendar o funcionamento interno dos modelos de IA de forma compreensível para os humanos. A presença de Olah no Vaticano carrega múltiplos significados. A Anthropic havia recusado, em fevereiro, uma exigência do Departamento de Defesa dos EUA para “uso irrestrito” de seus modelos, o que levou a administração Trump a proibir o uso dos sistemas da empresa em agências federais. A aparição conjunta no Vaticano é uma sinalização política clara: a Igreja não rejeita a tecnologia, mas faz questão de demarcar a linha divisória entre a pesquisa de segurança e a exploração militar. O Papa definiu o papel da Igreja não como substituta das responsabilidades políticas, mas como fornecedora de uma base para “reconhecer e promover” tudo o que contribui para a dignidade de cada pessoa, a vitalidade das comunidades e o bem comum.
O Alcance Real de 42 Mil Palavras
Qual é o impacto real desta encíclica? Não há força legal direta. Embora existam mais de 1,3 bilhão de católicos no mundo, é incerto se as palavras do papa têm poder para alterar as decisões das grandes empresas de tecnologia. Pesquisadores de ética tecnológica da Universidade de Santa Clara apontam que alguns líderes tecnológicos podem ser compelidos a levar o documento a sério como um “mandato moral”, enquanto outros setores argumentam que o público principal da encíclica são os fiéis e o clero, e que seu alcance nos conselhos de administração do Vale do Silício é limitado. Ainda assim, o fato de um documento com mais de 42 mil palavras ter sido dedicado exclusivamente à IA já é um evento em si. Em 1891, quando Leão XIII falou sobre os direitos dos operários fabris, a encíclica foi acusada de interferência indevida. Hoje, quando Leão XIV fala sobre os riscos da IA, é provável que reações semelhantes ocorram. O papa encerra a encíclica com uma referência ao Magnificat, o cântico de Maria: uma exaltação dos humildes e uma promessa de que os famintos serão saciados. A estrutura que concentra os benefícios da IA em poucos e descarta muitos é, para o pontífice, a inversão direta desse ideal. As 42 mil palavras não impõem regulamentações técnicas. Elas devolvem a pergunta fundamental: a tecnologia para quem? Essa é a questão central que a encíclica coloca, e que nenhum sistema de hardware ou arquitetura de dados pode responder sozinho.

