Um levantamento da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) revela uma discrepância significativa no mercado nacional de diesel. O combustível está sendo vendido no Brasil por um valor aproximadamente 25% inferior ao preço médio internacional. Na prática, isso significa que o diesel brasileiro circula por cerca de 75% do valor praticado no mercado externo, criando uma defasagem relevante que impacta a estrutura financeira do setor.
Defasagem de preços compromete sustentabilidade do mercado
A diferença de preços, que chegou a cerca de R$ 3 por litro no início desta semana, não é um fenômeno isolado. Ela ocorre em meio a políticas governamentais implementadas para conter a alta no preço do combustível para o consumidor final. Segundo análise do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBI), a prática de desvincular o preço interno do diesel das oscilações do mercado internacional compromete a sustentabilidade do modelo de comercialização. A medida, embora tenha efeito positivo no curto prazo para o usuário, cria distorções profundas na cadeia de suprimento.
Subsídio pressiona caixa das empresas e importadores
Pedro Rodrigues, diretor da Abicom, foi enfático em entrevista à CNN Brasil sobre os riscos dessa estratégia. “Não é nada sustentável do ponto de vista do balanço da companhia”, afirmou. Rodrigues explicou que vender o produto abaixo do seu valor de mercado pressiona diretamente o caixa das distribuidoras e refinarias. O efeito cascata também alcança os acionistas dessas empresas, que enfrentam retornos menores devido à política de preços. Um ponto crucial destacado pelo especialista é a dependência brasileira da importação de diesel para complementar a produção nacional. Sem reajustes que acompanhem o cenário global, a atividade de importação perde completamente sua viabilidade econômica, podendo levar a desabastecimento.
Proposta de subvenção divide custos entre União e Estados
Em resposta aos efeitos da alta internacional, o governo federal discute medidas para mitigar o impacto. Uma proposta central, enviada pelo novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, na última terça-feira, prevê uma subvenção de R$ 1,20 por litro de diesel. O mecanismo busca dividir os custos entre a União e os Estados, tentando reduzir o impacto direto no preço final ao consumidor. A medida, conforme a proposta, deve valer até o fim de maio deste ano, estabelecendo um período de intervenção temporária.
Fim da paridade internacional reduz previsibilidade do mercado
A ruptura com a política de paridade internacional, que mantinha os preços domésticos alinhados às variações globais, trouxe uma consequência além dos números: a perda de previsibilidade. Os agentes do mercado – desde as refinarias até os postos de combustível – agora operam com preços que variam sem uma referência clara e objetiva. Essa falta de um benchmark estabelecido dificulta o planejamento financeiro, a logística de compras e a formação de preços futuros, aumentando a instabilidade operacional do setor.
A situação atual coloca o setor de combustíveis em um dilema complexo. Enquanto o subsídio e o controle de preços protegem o consumidor e segmentos econômicos sensíveis, como o transporte rodoviário de carga, eles corroem a saúde financeira das empresas que operam a cadeia. O equilíbrio entre proteção social e sustentabilidade econômica se mostra delicado e urgente. A solução demandará não apenas medidas temporárias de subvenção, mas uma revisão estrutural do modelo de formação de preços, garantindo que o mercado brasileiro tenha resiliência para enfrentar as volatilidades internacionais sem sacrificar sua capacidade de operar em longo prazo.

