O Sistema Único de Saúde (SUS), em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, lançou um programa de teleatendimento gratuito para tratamento da compulsão por apostas, um transtorno de saúde mental que vem crescendo exponencialmente no Brasil com a popularização das casas de apostas esportivas online. O serviço, disponível através do aplicativo Meu SUS Digital, tem capacidade inicial para realizar 600 atendimentos mensais, oferecendo suporte psicológico e psiquiátrico remoto para quem sofre com o vício em jogos.
O que caracteriza a compulsão por apostas e como ela afeta os brasileiros
A compulsão por apostas, também conhecida como ludopatia ou jogo patológico, é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno de dependência comportamental. Ela se caracteriza pela necessidade incontrolável de apostar, mesmo quando o indivíduo enfrenta graves consequências financeiras, profissionais e familiares. Segundo o psiquiatra Luiz Scocca, do Hospital das Clínicas da USP, esse transtorno compartilha mecanismos cerebrais semelhantes aos de dependências químicas, como o vício em drogas, ativando os mesmos circuitos de recompensa no cérebro.
Sintomas que indicam a presença do transtorno do jogo
Os principais sinais da compulsão por apostas incluem o aumento progressivo do tempo e do valor apostado na tentativa de recuperar perdas anteriores, conhecido como “perseguição de prejuízos”. Outros indicadores são mentiras frequentes sobre a frequência ou o montante das apostas, prejuízos financeiros significativos que afetam o sustento próprio e da família, isolamento social, irritabilidade quando impedido de apostar e a utilização das apostas como mecanismo de escape para problemas emocionais. Esses comportamentos frequentemente evoluem para distúrbios psicológicos associados, como ansiedade generalizada e depressão.
Como funciona o programa de teleatendimento do SUS para dependentes de apostas
O novo serviço do SUS foi desenvolvido para superar barreiras geográficas e de estigma, permitindo que pacientes de todo o país acessem tratamento especializado através de consultas remotas. O processo inicia-se pelo agendamento via aplicativo Meu SUS Digital, onde o usuário pode solicitar atendimento para “transtornos relacionados ao uso de substâncias e comportamentos aditivos”. Após triagem, o paciente é encaminhado para sessões de psicoterapia com profissionais especializados em dependência comportamental, com possibilidade de avaliação psiquiátrica quando necessário.
Vantagens do modelo de atendimento remoto para tratamento de vícios
Cristiano Costa, psicólogo da Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo (EBAC), destaca que o teleatendimento representa um avanço significativo no acesso ao tratamento. “Muitas pessoas com compulsão por apostas hesitam em buscar ajuda presencial por vergonha ou medo de julgamento. O atendimento remoto oferece privacidade e conforto, facilitando o primeiro contato com o tratamento”, explica. O modelo também elimina barreiras logísticas, como deslocamento e tempo de espera em filas, fatores que tradicionalmente dificultam a adesão a tratamentos de saúde mental no sistema público.
Metodologias de tratamento aplicadas no programa do SUS
O tratamento oferecido pelo programa baseia-se em dois pilares fundamentais: a psicoterapia, com ênfase na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), e o suporte medicamentoso quando indicado. A TCC trabalha na identificação e modificação dos padrões de pensamento distorcidos que sustentam o comportamento compulsivo, como crenças irrealistas sobre sorte e probabilidades. Paralelamente, desenvolve-se estratégias comportamentais para evitar gatilhos e construir hábitos mais saudáveis.
Uso de medicação no controle dos sintomas associados à compulsão
Em casos onde a compulsão por apostas está associada a comorbidades como transtornos de ansiedade ou depressão, o tratamento pode incluir medicação prescrita por psiquiatra. Medicamentos como antidepressivos ISRS (Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina) têm demonstrado eficácia não apenas no tratamento dos transtornos de humor subjacentes, mas também na redução dos impulsos compulsivos relacionados ao jogo. A abordagem integrada, combinando terapia e farmacologia quando necessária, tem apresentado os melhores resultados em estudos internacionais sobre o tema.
Contexto do mercado de apostas legais no Brasil e seus impactos na saúde pública
O surgimento desse programa do SUS ocorre em um momento de expansão acelerada do mercado de apostas esportivas no Brasil, que conta atualmente com mais de 180 operadoras legalizadas. A facilidade de acesso através de smartphones, combinada com estratégias agressivas de marketing digital que muitas vezes glamourizam o ato de apostar, tem criado um ambiente de risco especialmente para populações mais vulneráveis. Dados preliminares de estudos brasileiros indicam um aumento preocupante no número de pessoas que relatam perda de controle sobre seus hábitos de apostas.
Iniciativas de prevenção e o conceito de jogo responsável
Paralelamente ao tratamento, especialistas defendem a implementação de medidas preventivas baseadas no conceito de “jogo responsável”. Estas incluem a definição de limites obrigatórios de depósito pelas operadoras, períodos de resfriamento após solicitação do usuário, ferramentas de autoexclusão mais acessíveis e campanhas educativas sobre os riscos da compulsão. A prevenção também passa pelo autoconhecimento individual: estabelecer orçamentos rígidos para apostas, nunca apostar sob influência de álcool ou emoções intensas, e manter um equilíbrio com outras atividades de lazer são estratégias fundamentais.
Caminhos para buscar ajuda além do teleatendimento do SUS
Além do programa específico do SUS, existem outras redes de apoio disponíveis para pessoas que enfrentam a compulsão por apostas. Grupos de apoio mútuo, como os baseados no modelo dos Jogadores Anônimos, oferecem suporte gratuito através de reuniões presenciais e online. A Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo (EBAC) mantém canais de orientação e encaminhamento. Para familiares, organizações como a Gam-Anon fornecem suporte específico para quem convive com um jogador compulsivo, ajudando a estabelecer limites saudáveis e a lidar com as consequências emocionais do problema.
O papel da família no processo de recuperação do jogador compulsivo
A participação da família é frequentemente determinante no sucesso do tratamento. Profissionais recomendam que familiares busquem orientação para aprender a oferecer apoio sem facilitar o comportamento compulsivo, estabelecendo limites claros em relação a empréstimos e pagamento de dívidas. A abordagem deve equilibrar compreensão da condição como um transtorno de saúde mental com a manutenção de responsabilidades, evitando tanto o julgamento moralizante quanto a proteção excessiva que pode perpetuar o ciclo do vício.
A disponibilização de tratamento gratuito para a compulsão por apostas através do SUS representa um reconhecimento importante da seriedade desse problema de saúde pública. Enquanto o mercado de apostas continua a se expandir no país, a existência de uma rede de apoio acessível oferece um contraponto necessário, lembrando que por trás das estatísticas de crescimento do setor existem histórias individuais de sofrimento que merecem atenção e cuidado profissional. A iniciativa demonstra que, embora a regulação do mercado de jogos seja complexa, a responsabilidade do Estado com a saúde dos cidadãos que desenvolvem dependência não pode ser negligenciada, especialmente quando serviços especializados podem significar a diferença entre a recuperação e a ruína financeira e emocional.

