No universo competitivo dos auto battlers, inovar é uma necessidade constante. Para Teamfight Tactics (TFT), o jogo da Riot Games, essa busca pela novidade culminou em uma das mudanças mais ousadas de sua história: a substituição do icônico Carrossel por um novo sistema chamado Reino dos Deuses. À frente dessa transformação radical para o Set 17: Space Gods esteve a líder de design do set, Noëmi Couté. Em uma entrevista exclusiva, Couté revelou os bastidores, os desafios e a filosofia por trás da criação de um mecanismo que pretende redefinir a experiência do jogo e mantê-lo na vanguarda do gênero.
O Desafio da Inovação Contínua em TFT
Manter um jogo como serviço (live-service) relevante e envolvente é um desafio monumental, frequentemente descrito como uma “esteira de conteúdo”. Noëmi Couté aborda essa realidade de frente. Com a mudança no ritmo de atualizações do TFT para três sets completos por ano, a pressão por novidades que cativem a base de jogadores aumentou significativamente. O sucesso estrondoso de mecânicas anteriores, como os Unlocks do set Lore and Legends, criou uma expectativa ainda maior. Couté compara a situação a uma feira de ciências onde a apresentação anterior foi tão impressionante que ofusca o projeto seguinte. A missão da equipe era clara: criar algo que não fosse apenas novo, mas que também desafiasse as premissas fundamentais do jogo.
Da Ideia Ambiciosa à Realidade Pragmática
A concepção inicial do novo sistema era muito mais complexa. Couté imaginava um “bazar do carrossel”, um espaço social dinâmico onde os jogadores interagiriam com diferentes vendedores, como Choncc e Pengu, escolhendo itens em um ambiente vivo. No entanto, restrições técnicas e de tempo forçaram a equipe a repensar a escala do projeto. Implementar uma mecânica tão intrincada, que tocava em sistemas fundamentais do jogo, provou ser inviável no cronograma disponível. Testes com a inclusão de aumentos (augments) no sistema foram mal recebidos, evidenciando uma aversão natural à mudança por parte dos jogadores e a complexidade de sobrepor sistemas centrais.
O Processo de Iteração e Simplificação
Diante dos obstáculos, a equipe entrou em um intenso ciclo de testes. Eles experimentaram desde a remoção pura e simples do Carrossel até ajustes na mecânica de recuperação (comeback mechanic) e até mesmo na estrutura das rodadas. Esta última ideia foi rapidamente descartada pela equipe de finalização, que identificou um atrito excessivo para os jogadores mais engajados. Couté destaca o delicado equilíbrio que precisavam encontrar: “Não queremos causar tanto atrito que esses jogadores pensem ‘Não quero reaprender o jogo. Vou jogar outra coisa'”. O foco então mudou para simplificar a proposta mantendo seu cerne inovador.
O Nascimento do Reino dos Deuses
Do conceito original ambicioso, nasceu o Reino dos Deuses. Em vez de um bazar caótico, os jogadores agora encontram uma praça celestial onde entidades divinas oferecem suas bênçãos. O sistema preserva a função principal do antigo Carrossel – fornecer uma oportunidade de recuperação para jogadores com menos vida – mas o faz através de uma nova camada de narrativa e escolha estratégica. A mudança não é meramente cosmética; ela altera a dinâmica de como os jogadores planejam suas composições e gerenciam recursos ao longo da partida.
O Impacto no Meta-Jogo e na Estratégia
A introdução dos deuses como figuras centrais adiciona uma variável narrativa e imprevisível ao jogo. Cada divindade oferece um conjunto único de bênçãos, que podem incluir itens, ouro, unidades específicas ou efeitos passivos poderosos. Isso significa que, além de gerenciar a economia (gold) e as sinergias no tabuleiro, os jogadores agora devem considerar qual deus buscar como patrono e como as bênçãos oferecidas se alinham com sua estratégia de longo prazo. A escolha deixa de ser apenas sobre pegar o item mais valioso no carrossel e se torna uma decisão estratégica integrada ao plano de jogo.
Lições Aprendidas e o Futuro da Mecânica
Noëmi Couté é transparente ao admitir que a versão lançada do Reino dos Deuses é uma iteração mais simples da visão original. No entanto, ela vê um potencial enorme no sistema. “Acho que o sistema tem muito potencial”, afirma Couté. “Eu pessoalmente adoraria tentar de novo isso uma vez que tivermos dados sobre o que as pessoas gostaram, o que não gostaram, e um pouco mais de tempo para realmente desenvolver a versão mais complicada do que queríamos.” Essa postura reflete uma filosofia de design centrada no jogador e aberta à evolução.
O Legado de Mecânicas que Evoluem
O histórico do TFT mostra que mecânicas inovadoras frequentemente amadurecem ao longo do tempo. Sistemas como Galáxias (Set 3) e Aumentos (Set 6) foram introduzidos, refinados e se tornaram pilares da identidade do jogo. O Reino dos Deuses segue esse mesmo caminho. Embora o Carrossel tradicional retorne no Set 18, a experiência adquirida com os Space Gods pode muito bem germinar em sistemas futuros, mais complexos e integrados. A disposição da equipe para arriscar e “desafiar suas suposições”, nas palavras de Couté, é o que mantém o TFT fresco e competitivo.
Dicas Práticas para Dominar o Reino dos Deuses
Para jogadores que desejam se adaptar rapidamente ao novo sistema, entender suas nuances é crucial. Aqui estão algumas estratégias baseadas na mecânica revelada:
- Avalie a Sinergia, Não Apenas o Poder: Uma bênção poderosa que não se encaixa na sua composição pode ser pior do que uma bênção moderada que complementa perfeitamente sua estratégia. Priorize a coesão do time.
- Monitore a Competição: Se vários jogadores estiverem buscando o mesmo deus ou tipo de bênção, considere mudar seu foco. A diversificação pode garantir acesso a recursos menos contestados.
- Planeje o Longo Prazo: Algumas bênçãos oferecem benefícios cumulativos ou que se tornam mais fortes em estágios posteriores do jogo. Identifique-as e construa sua estratégia ao redor delas desde o início.
- Não Subestime Bênçãos Econômicas: Ouro extra, juros aumentados ou a capacidade de vender unidades por mais valor podem acelerar sua economia drasticamente, permitindo que você ultrapasse os oponentes nos rounds de compra de unidades.
A Visão por Trás do Design: Uma Conversa com Noëmi Couté
O diálogo com Couté vai além dos detalhes técnicos e mergulha na filosofia de design. Para ela, experimentos como o Reino dos Deuses são essenciais para a sobrevivência do gênero. “Para o TFT permanecer na vanguarda dos auto battlers e do gênero e permanecer relevante, temos que buscar a novidade. E a única maneira de buscarmos a novidade é experimentando assim”, explica. Essa mentalidade justifica a coragem de substituir um pilar do jogo desde sua criação. O objetivo nunca foi mudar por mudar, mas evoluir de forma significativa, mesmo que isso signifique dar um passo atrás em uma iteração futura para, então, dar dois passos à frente.
A jornada do Set 17: Space Gods, desde a concepção de um bazar celestial até a implementação do Reino dos Deuses, encapsula os desafios e triunfos do design de jogos como serviço. Sob a liderança de Noëmi Couté, a equipe do TFT demonstrou que a inovação requer não apenas criatividade, mas também pragmatismo, iteração constante e uma coragem genuína de questionar o status quo. Embora o Carrossel faça uma pausa, sua ausência abre espaço para uma nova forma de interação estratégica que pode, no futuro, se tornar tão icônica quanto o sistema que substituiu. A busca pela Lua pode ter sido ajustada para uma órbita mais próxima desta vez, mas o lançamento bem-sucedido deste novo foguete de design mantém o TFT firmemente no caminho para as estrelas.

