Durante a maratona Awesome Games Done Quick de 2026, enquanto centenas de pessoas assistiam presencialmente em Pittsburgh e mais de 40 mil acompanhavam online, a speedrunner Blackheartwings fez uma pausa na corrida de Split Fiction. Diante do microfone, ela apontou um tropo problemático no jogo: a personagem Mio, uma pessoa de cor, é consistentemente transformada em animais, enquanto Zoe, branca, permanece humana. “Como uma pessoa de cor, me vi muito na Mio ao jogar”, disse Blackheartwings. “Acho que devemos poder nos ver nos jogos e na mídia com que interagimos. Então, se você está fazendo um jogo, talvez seja cuidadoso com a forma como seus personagens interagem com a narrativa, e talvez pare de transformar suas pessoas de cor em animais. Isso seria ótimo.” A plateia, longe de vaiar ou ficar em silêncio, respondeu com aplausos e apoio. Naquele momento, encapsulou-se uma jornada de anos: como a Games Done Quick (GDQ) evoluiu de um evento de speedrun no porão da mãe do fundador para um espaço deliberadamente moldado para ser inclusivo, seguro e representativo.
A política de tolerância zero e a evolução da moderação
Ao longo dos anos, a GDQ implementou uma política clara de tolerância zero para assédio, racismo, transfobia e outros comportamentos excludentes. Essa postura, no entanto, não surgiu da noite para o dia. Nos primeiros anos, comentários problemáticos de runners e comentaristas às vezes passavam sem consequência, e o chat do Twitch era um espaço desregulado. A virada começou a ganhar força entre 2016 e 2018, quando a organização começou a agir de forma mais contundente. “Decidimos há alguns anos que teríamos uma política de tolerância zero para vários tipos de assédio”, explica Matt Merkle, diretor de operações da GDQ. “Demonstramos, especialmente nos primeiros anos da implementação desse programa, que estávamos sérios. Tivemos que banir algumas pessoas.” A comunidade, em sua maioria, entendeu. “Ninguém quer ficar estressado ou se sentir insultado ou não bem-vindo quando vem a um evento”, completa Merkle. “Eles querem se divertir com os amigos.”
Lições aprendidas com crises em comunidades específicas
O caminho para essa postura firme foi pavimentado por crises em comunidades específicas de speedrun. BD, hoje líder de eventos do Frame Fatales na GDQ, viveu um cisma na comunidade de mods Kaizo de Super Mario World em 2020, quando um streamer influente revelou-se transfóbico. “Quando confrontado, ele se aprofundou nisso de uma forma muito dolorosa e forçou muitas pessoas a lidar com algo muito alto”, recorda BD. “O processo disso não foi muito divertido, para dizer o mínimo.” A speedrunner trans Shovda foi alvo de ataques virulentos, recebendo e-mails com imagens de mulheres trans enforcadas e mensagens degradantes. “Uma das coisas que aprendemos com isso é que tolerância zero significa tolerância zero”, afirma BD. “Não tolerar a intolerância significa que, se a vemos, nós a esmagamos. Vi o que acontece quando você a deixa apodrecer porque ‘ah, a pessoa é uma personalidade grande demais’ ou tem muita influência. Se você realmente quer ser inclusivo, isso tem que ter prioridade sobre tudo.”
A decisão de sair da Flórida e seu impacto financeiro
Em 2022, a GDQ tomou uma de suas decisões mais caras e simbólicas: cancelar a realização do AGDQ 2023 na Flórida, quebrar o contrato com o hotel e manter o evento apenas online. O motivo foi a legislação estadual hostil à comunidade LGBTQ+, incluindo a lei conhecida como “Don’t Say Gay”, e a desconsideração dos perigos da COVID-19. “Dada a contínua desconsideração do estado pelos perigos da COVID-19 e uma agressão aumentada contra indivíduos LGBTQ+, não acreditamos que seja um local seguro para nossa comunidade neste momento”, declarou a organização na época. Vanessa “PleasantlyTwstd” B, coordenadora de eventos do Black In A Flash, confirma o impacto. “A coisa toda com a Flórida foi realmente um acordo de fazer ou quebrar, e acabamos quebrando nosso contrato para sair e mover o evento para outro lugar”, diz ela. “Foi um movimento grande, assustador e também muito custoso.” O fundador Mike Uyama admite que a decisão “definitivamente atrasou qualquer expansão ambiciosa porque o orçamento ficou apertado nos próximos anos”. No entanto, não houve arrependimento. “Não íamos arriscar a vida dos participantes por dinheiro”, resume Merkle.
O significado simbólico da mudança para a comunidade
Para a comunidade, a saída da Flórida foi uma demarcação clara de valores. “Essa mudança foi uma linha na areia”, avalia Elite Spud, speedrunner de Luigi’s Mansion. “Pessoas que discordaram dessa mudança provavelmente também discordam de muitas coisas que estão acontecendo agora.” Blackheartwings vê a decisão como um testemunho do compromisso da organização. “Genuinamente, como alguém que é um pouco familiarizado com o que é quebrar um contrato de hotel, é um milagre que a GDQ ainda esteja de pé”, observa. “O fato de estarem dispostos a fazer isso e a colocar as pessoas que ajudam a fazer este evento acontecer sobre o ganho financeiro de tudo? Isso fala volumes.” A ação demonstrou que a inclusão anunciada era mais do que performática.
Os grupos de afinidade como motor de mudança e representação
Um dos pilares da estratégia de inclusão da GDQ é a criação e o apoio a grupos de afinidade autônomos, como Frame Fatales (para mulheres e pessoas femininas), Black In A Flash (para corredores negros), GDQueer e grupos para latino-americanos e asiáticos. Esses grupos não só realizam seus próprios maratonas de caridade ao longo do ano, mas também influenciam a programação dos eventos principais. “Eles realmente impulsionaram a mudança em como a linha principal [da GDQ] opera agora”, opina SatanHerself, apresentadora do Creature Corner. “É uma mudança maravilhosa.” BD, do Frame Fatales, explica a filosofia: “Um dos objetivos principais que temos para nossos eventos é desenvolver, enriquecer e elevar toda a nossa comunidade. Se nossos eventos arrecadam um monte de dinheiro para a caridade, mas o fazem às custas da comunidade, não conseguimos o que nos propusemos a fazer.”
Autonomia e identidade dentro da estrutura da GDQ
Esses grupos mantêm sua agência dentro da “nave-mãe” GDQ. “Tecnicamente fazemos parte da nave-mãe GDQ, mas ao mesmo tempo temos nossa própria agência e fazemos nossa própria coisa”, diz PleasantlyTwstd sobre o Black In A Flash. Isso inclui moderação adaptada. “[Alguém pode alegar] ‘Ah, pela GDQ, o que eu fiz foi ok’. E é tipo, pela GDQ, sim, mas para o Black In A Flash, o que você está fazendo ou dizendo é problemático ou ofensivo.” PleasantlyTwstd enfatiza a importância de preservar a identidade: “Eu quero que o Black In A Flash seja negro. Não quero que seja negro mas consumível ou negro mas amigável. Não, este é o grupo de speedrunning negro. Tem piadas negras, tem memes negros… É nós sendo nós.”
Os desafios persistentes na representação no palco principal
Apesar dos avanços, runners e membros da equipe apontam que a representação de pessoas de cor nos eventos principais, AGDQ e SGDQ, ainda é um ponto fraco. “Há, muito notavelmente, uma falta de pessoas de cor no grande palco”, afirma Blackheartwings, que é biracial. “Muito da sobreposição ocorre apenas dentro da comunidade Fatales, no sentido de que uma Fatale por acaso é uma pessoa de cor para estar no grande palco.” PleasantlyTwstd é mais direta: “Não amo que [o AGDQ 2026] foi um evento de 144 horas e havia três pessoas negras [no palco]. Isso fere meu coração de um jeito especial.” Ela argumenta que a mudança é necessária: “As pessoas não gostam de mudar as coisas. As pessoas ficam tipo ‘Se não está quebrado, não conserte’. Mas é tipo, eu estou explicando para você como está quebrado.” SatanHerself reconhece que a cultura original, muito fechada e composta majoritariamente por homens brancos, deixou uma herança. “Ainda temos um caminho a percorrer antes de estarmos totalmente nesse espaço onde parece que todos estão incluídos.”
A necessidade de mentoria e passagem de bastão
Para Elite Spud, a solução passa por mentoria e renovação geracional, algo que eles observam na própria comunidade de Luigi’s Mansion. “Há uma guarda antiga que ainda não passou o bastão, mas está começando a acontecer de qualquer maneira”, diz. “Em algum momento, precisa passar, e estou curioso se a comunidade vai se dividir por causa disso.” Eles não almejam liderança, mas um papel de facilitador: “Não quero ser o líder. Só quero ser alguém que meio que conduz as pessoas para dentro… Quero ver outros runners novos um dia dizerem ‘Eu entrei nesse jogo – entrei no speedrunning no geral – porque você me ajudou’.” Uyama, o fundador que se afastou em 2023, vê com bons olhos essa evolução. “A GDQ fez bons progressos em ser mais inclusiva e representativa, enquanto nos velhos tempos seria quase exclusivamente todos caras, maioria branca, talvez alguns asiáticos.”
Ação comunitária além da GDQ: o caso do ICE Breaker
O espírito de ativismo e apoio mútuo cultivado na GDQ transborda para iniciativas independentes. Durante o AGDQ 2026, a organizadora Helix, chocada com o assassinato de Renee Good pelas forças de imigração (ICE) em Minneapolis, lançou uma ideia no Bluesky: uma maratona beneficente anti-ICE. A resposta foi avassaladora. “Tive pessoas chegando até mim no meio da GDQ para me dizer ‘Se isso acontecer, quero me envolver'”, conta. Em poucos dias, 125 pessoas se voluntariaram e mais de 400 runners se inscreveram. O evento, batizado de ICE Breaker, arrecadou mais de US$ 56.000, superando algumas maratonas da própria GDQ. “Há algo sobre a rapidez com que o evento se formou, a quantidade esmagadora de apoio e o quão divertido foi”, reflete Helix. “Tínhamos hosts de longa data da GDQ [envolvidos]. Esses são hosts que nunca ouvi xingar antes… e eles estavam inequivocamente dizendo com todo o peito ‘Foda-se o ICE’ a cada duas frases. Foi incrível.”
A GDQ como farol em tempos de retrocesso político
Em um cenário político onde o sentimento anti-trans ganha apoio governamental e muitas empresas recuam no chamado “ativismo de marca”, a GDQ manteve sua postura. “O fato de a GDQ ter mantido sua posição e não ter recuado em nada é super importante”, diz Blackheartwings. “Eles fazem um bom trabalho em não nos desencorajar [de dizer] que direitos trans são direitos humanos; não é um ponto político, e isso é algo que eles deixam muito claro.” Para SatanHerself, a organização representa uma visão de futuro. “Precisamos não apenas lutar por um futuro melhor, mas também visualizar como esse futuro se parece. E o futuro se parece com a GDQ.” Serendiplays, speedrunner brasileira que atua como voluntária, vê um lado amargo na impossibilidade de viajar para os EUA com segurança, mas usa isso como combustível. “É muito desencorajador, mas ao mesmo tempo, tento usar como combustível para continuar trabalhando duro… porque no final do dia, o que fazemos é importante; somos todos nós trabalhando por um mundo melhor.”
A jornada da Games Done Quick demonstra que construir um espaço verdadeiramente inclusivo no gaming não é um destino, mas um processo contínuo e ativo. Requer decisões difíceis com custos financeiros reais, tolerância zero para a intolerância, a criação de estruturas que dão voz e autonomia a grupos sub-representados, e a coragem de enfrentar críticas internas e externas. Mais do que um simples evento de caridade, a GDQ se tornou um microcosmo de uma comunidade de jogos possível – onde a paixão obsessiva pela velocidade convive com a defesa intransigente da dignidade humana, onde piadas internas e memes absurdos não anulam discussões sérias sobre representação, e onde a diversidade não é um adereço, mas a força que impulsiona a criatividade e a resiliência do próprio esporte. O caminho ainda tem obstáculos, especialmente na representação equitativa no palco principal, mas a estrutura construída – e os princípios defendidos a alto custo – oferecem um roteiro não apenas para o futuro da speedrun, mas para qualquer comunidade que queira sobreviver e prosperar em um mundo cada vez mais fragmentado.

