O cenário dos videogames independentes está em constante evolução, e a busca por sustentabilidade e influência no mercado criou a necessidade de novas estruturas organizacionais. A ascensão de Pim Holfve como CEO duplo da editora Raw Fury e de sua holding Combined Effect marca um momento estratégico crucial para este “indie powerhouse”. Em entrevista exclusiva, Holfve detalhou como o grupo planeja cultivar um ecossistema colaborativo, onde diferentes empresas mantêm sua identidade criativa enquanto compartilham experiência e recursos. Este artigo mergulha nos planos de expansão, na estratégia por trás de recentes sucessos como “Blue Prince” e “Routine”, e na visão de futuro da liderança que visa não apenas crescer, mas empoderar o espaço indie como um todo.
Um Líder para Duas Visões: A Estrutura de Liderança de Combined Effect
A nomeação de Pim Holfve, veterano da indústria com passagem pela Flashbulb Games, para o cargo de CEO tanto da Raw Fury quanto da Combined Effect em finais de 2024 não foi um movimento aleatório. Representa a consolidação de uma visão estratégica que vem sendo construída há mais de um ano. Holfve assume o comando do grupo em um momento de impulso, com a Raw Fury registrando um crescimento de receita de 43% em 2025 e lucros consistentes que permitem reinvestimentos. Sua missão, inicialmente focada na editora, agora se expande para coordenar um portfólio que inclui a própria Raw Fury, a Fury Studios e a Kakehashi Games, resultado da recente fusão com a Neon Doctrine.
Em sua visão, o trabalho é compartilhado de forma orgânica. Holfve continuará a trabalhar de perto com a liderança estabelecida na Raw Fury para as operações diárias, enquanto seu foco principal na Combined Effect é o quadro estratégico maior. A sinergia entre as equipes diretoras já existe, o que proporciona a ele o espaço necessário para orquestrar a colaboração em nível de grupo e perseguir objetivos de longo prazo. Essa estrutura permite que cada empresa mantenha sua autonomia criativa, um pilar fundamental da filosofia do grupo, enquanto se beneficia da governança e da experiência compartilhada.
O Ecossistema Combined Effect: Autonomia com Apoio Estratégico
A Combined Effect não se propõe a ser uma mega-corporação monolítica, mas sim um ecossistema de editores e estúdios independentes. Seu propósito fundamental é oferecer suporte aos membros para que mantenham sua identidade única, ao mesmo tempo que acessam recursos coletivos e orientação estratégica. Na prática, isso se traduz em benefícios mútuos: as empresas do grupo têm suporte em todas as áreas e especialidades, desde marketing e financiamento até desenvolvimento de ferramentas e treinamento de liderança.
Para otimizar essa colaboração, Holfve planeja criar equipes especializadas transversais que atuarão em todo o portfólio da holding. Essas equipes, compostas por especialistas em áreas como aquisição de produtos, marketing digital ou análise de dados, estarão disponíveis para todas as subsidiárias. É crucial notar, no entanto, que o CEO enfatiza que essas colaborações serão sempre “por vontade própria”, nunca impostas de cima para baixo. O objetivo é conectar equipes de forma fluida para que possam apoiar desenvolvedores com mais eficácia e trazer projetos mais ambiciosos ao mercado, respeitando a cultura e os processos de cada empresa.
Sucessos Recentes e as Lições para o Futuro do Catálogo
O desempenho da Raw Fury em 2025 oferece um estudo de caso valioso para a estratégia do grupo inteiro. Lançamentos como o aclamado “Blue Prince” (da Dogubomb), com estimativas de 2.4 milhões de unidades vendidas e uma indicação ao BAFTA, o aguardado horror de sobrevivência “Routine” (Lunar Software), e os títulos “Monsters Are Coming! Rock & Road” e “The Séance of Blake Manor” demonstraram a capacidade da editora em identificar e promover jogos de nicho com alto potencial.
Para Holfve, cada lançamento é uma fonte inesgotável de aprendizado. O sucesso de títulos como “Blue Prince”, um jogo de quebra-cabeça e aventura que definiu seu próprio gênero, reforça a importância de apostar em visões criativas únicas. Essas experiências ensinam não só sobre os pontos fortes e fracos da editora, mas também sobre os hábitos dos jogadores e como se tornar um parceiro melhor para os desenvolvedores. Esses insights coletivos são exatamente o tipo de conhecimento que a Combined Effect pretende circular dentro de seu ecossistema, permitindo que todas as empresas membro tomem decisões mais informadas sobre os tipos de projetos que desejam adquirir e publicar.
A Estratégia de Aquisição: Buscando Empresas Inovadoras e Complementares
Com a base consolidada e um modelo colaborativo em funcionamento, a Combined Effect mantém os olhos abertos para novas oportunidades de expansão. Quando questionado sobre se o grupo ainda está em “modo aquisitivo”, Holfve foi claro: o foco principal é fortalecer as empresas já existentes no ecossistema. No entanto, o interesse em conversar com equipes talentosas que compartilhem sua filosofia é constante.
A abordagem para novas aquisições ou parcerias é cuidadosa e de longo prazo. O grupo não busca simplesmente acumular estúdios, mas sim adicionar empresas que “tragam algo novo para a mesa e complementem o coletivo de uma forma ou de outra”. Isso pode significar uma editora com expertise em um mercado geográfico específico, um estúdio com tecnologia proprietária ou uma equipe com forte tração em um gênero subrepresentado. O objetivo final é construir uma rede de parceiros que, com seus próprios pontos fortes, contribuam para uma visão compartilhada de crescimento sustentável e criatividade independente.
A Visão para os Próximos Cinco Anos: Construindo um Indie Powerhouse
O horizonte temporal de Pim Holfve para a Combined Effect é ambicioso e claro: dentro de cinco anos, ele deseja que o grupo seja reconhecido como um verdadeiro “indie powerhouse”. Essa meta será alcançada através do aprofundamento da colaboração interna, da contínua adição de títulos de alta qualidade ao portfólio coletivo e da atração de equipes talentosas que se identifiquem com a visão de independência criativa dentro de uma estrutura colaborativa.
O crescimento necessário para atingir esse status virá de duas frentes: orgânico e através de aquisições. Mas, para Holfve, a métrica de sucesso vai além de números financeiros. Se, em cinco anos, ele puder olhar para trás e ver que o grupo conectou os jogos de desenvolvedores independentes desconhecidos a um público global, e que os jogos indie como um todo alcançaram um alcance maior, a missão estará cumprida. A filosofia central não é se aproveitar da criatividade alheia, mas atuar como um facilitador do crescimento do espaço independente. A ambição é, portanto, uma ambição de escala e influência, mas sempre guiada por um princípio de empoderamento criativo. A trajetória da Raw Fury sob seu comando, e agora da Combined Effect, será um caso a ser observado por qualquer um interessado no futuro da publicação de jogos independentes.
