O enfraquecimento do pacto do petrodólar e a corrida de bancos centrais por ativos fora do controle direto de governos nacionais estão criando o cenário mais propício da história para a consolidação do Bitcoin como reserva de valor digital. A análise é de Samir Kerbage, sócio-fundador e CIO da Hashdex, uma das maiores gestoras de criptoativos do Brasil e do mundo, que vê o momento atual não apenas como validação da tese de longo prazo, mas como possível acelerador decisivo para a adoção institucional da criptomoeda.
Ruptura do pacto do petrodólar redefine regras do jogo econômico
O acordo histórico pelo qual os Estados Unidos ofereciam garantias de defesa militar em troca da negociação global do petróleo em dólar está passando por uma erosão significativa. Esta mudança estrutural, segundo Kerbage, representa uma reconfiguração profunda da ordem econômica estabelecida nas últimas décadas. “O mundo está vivendo um momento em que a regra do jogo está mudando, os participantes estão se reorientando e, nessa nova orientação global, a demanda por uma reserva de valor não soberana, que não dependa dos governos, está cada vez maior”, afirmou o gestor durante participação no episódio 182 do Outliers InfoMoney.
Corrida silenciosa por reservas não soberanas já começou
Enquanto a China acumula ouro em volumes não divulgados oficialmente, os Estados Unidos mantêm reservas estratégicas de Bitcoin, criando um tabuleiro geopolítico onde ativos não soberanos ganham importância inédita. Kerbage observa que há até um incentivo geopolítico explícito por parte dos americanos: desinflar o valor do ouro e inflar o do Bitcoin justamente para impactar a estratégia chinesa. “O Bitcoin pode ter um papel geopolítico muito importante nessa configuração dos próximos cinco ou dez anos”, projetou o CIO da Hashdex.
Bitcoin como reserva de valor digital: uma tese em evolução
A Hashdex defende desde sua fundação, em 2018, que o Bitcoin é uma “reserva de valor digital emergente”, mas Kerbage faz uma distinção crucial entre o conceito teórico e a realidade atual. Reserva de valor, explica ele, é a capacidade de preservar patrimônio e transmiti-lo ao longo do tempo e entre gerações. O Bitcoin seria a primeira forma 100% digital a cumprir essa função, num mundo ainda acostumado com ouro, imóveis e títulos soberanos de países desenvolvidos.
Gestor admite: Bitcoin ainda não é reserva de valor consolidada
“Parte da tese é ser reserva de valor, mas se você perguntar para mim se o Bitcoin é uma boa reserva de valor hoje, vou dizer que não”, admitiu Kerbage com franqueza. A demanda por reservas não soberanas cresceu de forma exponencial nos últimos anos, mas quem está comprando são os bancos centrais, e eles ainda não compram Bitcoin de forma institucionalizada. Enquanto isso não ocorrer, o ativo seguirá se comportando como um papel de risco, com correlação maior ao Nasdaq 100 do que ao ouro.
Processo de consolidação pode levar décadas
A tese da Hashdex prevê uma migração gradual: o Bitcoin deve evoluir, ao longo de anos ou décadas, de ativo emergente para reserva de valor consolidada. “A grande pergunta é em quanto tempo isso vai acontecer — se vai acontecer em 5 anos, 10 anos ou 50 anos”, pontuou Kerbage. Quando esse processo estiver completo, a expectativa de valorização expressiva que existe hoje sobre o ativo deixará de fazer sentido. Será, então, uma classe mais próxima do ouro do que do venture capital.
Bitcoin versus altcoins: narrativas fundamentalmente diferentes
O gestor chama atenção para a diferença essencial entre Bitcoin e as demais criptomoedas. Enquanto o Bitcoin carrega a narrativa de reserva de valor digital com escassez programada e independência monetária, as altcoins devem ser analisadas como “play de tecnologia”. “Outras criptos você pode ver como um play de tecnologia mesmo. Não existe uma tese de reserva de valor ali”, afirmou Kerbage, estabelecendo uma distinção clara entre os diferentes tipos de ativos digitais.
Origem do Bitcoin está na desconfiança do sistema tradicional
O Bitcoin surgiu em 2009, no rastro da maior crise financeira desde 1929. Seu criador — ou criadores, sob o pseudônimo Satoshi Nakamoto — embutiu na primeira transação da rede uma manchete de jornal sobre o governo britânico resgatando bancos pela segunda vez. A mensagem era deliberada: o mundo precisava de um dinheiro digital, escasso, sem banco central e sem intermediários. Com emissão limitada a 21 milhões de unidades e regras imutáveis gravadas em código, o Bitcoin foi concebido como uma alternativa soberana ao sistema financeiro tradicional.
Trajetória de nicho para ativo de trilhões de dólares
Nos 16 anos seguintes à sua criação, o Bitcoin passou de curiosidade técnica para entusiastas a ativo com capitalização de mercado na casa dos trilhões de dólares, com presença crescente em portfólios institucionais e papel cada vez mais relevante no tabuleiro geopolítico global. Esta trajetória acelerada coincide com um período de questionamento crescente sobre a hegemonia do dólar e a busca por alternativas ao sistema financeiro tradicional.
Desvalorização do dólar acelera busca por alternativas
A perda gradual do poder de compra da moeda americana, combinada com políticas monetárias expansionistas adotadas por diversos bancos centrais, criou um ambiente fértil para a discussão sobre ativos que preservem valor fora do sistema monetário tradicional. Kerbage aponta que esta dinâmica beneficia tanto o ouro quanto o Bitcoin, embora em timelines e com adoções institucionais diferentes.
Adoção institucional é o próximo marco fundamental
O gestor da Hashdex destaca que a entrada significativa de bancos centrais no mercado de Bitcoin representaria um ponto de inflexão histórico. Esta adoção institucional em larga escala transformaria radicalmente o perfil de risco do ativo e aceleraria sua transição para o status de reserva de valor consolidada. Até lá, o Bitcoin permanecerá em uma zona cinzenta entre ativo especulativo e reserva de valor emergente.
Infraestrutura de mercados amadurece para nova realidade
Com mais de 15 anos de experiência em infraestrutura de mercados financeiros e trading quantitativo, Kerbage observa que a evolução tecnológica dos últimos anos criou condições muito mais sólidas para a integração do Bitcoin aos portfólios institucionais. A profissionalização da custódia, o surgimento de produtos regulados como ETFs e o aumento da liquidez em mercados globais criaram um ecossistema mais robusto e seguro para investidores tradicionais.
Regulação avança em ritmo desigual pelo mundo
Enquanto algumas jurisdições abraçam a criptoeconomia com frameworks regulatórios claros, outras mantêm abordagens mais cautelosas ou restritivas. Esta fragmentação regulatória cria desafios para a adoção global uniforme, mas também oferece oportunidades para países que se posicionarem como hubs de inovação financeira. O Brasil, com a recente regulamentação do mercado de criptoativos, busca se colocar neste cenário competitivo.
A convergência entre a crise do petrodólar, a desvalorização das moedas fiduciárias e a busca por soberania financeira individual e nacional criou uma janela de oportunidade histórica para ativos não soberanos. Neste contexto, o Bitcoin emerge não apenas como uma inovação tecnológica ou instrumento de especulação, mas como peça potencialmente fundamental na reconfiguração do sistema financeiro global. Seu destino estará ligado não apenas à evolução tecnológica, mas principalmente às decisões geopolíticas e às escolhas dos grandes detentores de reservas mundiais nos próximos anos.

