Em uma jogada que redefine o cenário farmacêutico nacional, a EMS, controlada pelo empresário Carlos Sanchez, anunciou a aquisição do laboratório Medley da francesa Sanofi. O negócio, avaliado em US$ 660 milhões de enterprise value (aproximadamente R$ 3,5 bilhões), consolida a posição da EMS como líder absoluta no segmento de genéricos, elevando sua participação de mercado para 31%.
Um preço premium para eliminar a concorrência
O valor pago pela EMS surpreendeu o mercado. A avaliação da Medley foi feita em 18 vezes seu EBITDA, um múltiplo significativamente superior ao de outras empresas do setor. Enquanto a Hypera negocia a 7,2x, e gigantes globais giram em torno de 10x, Sanchez pagou um prêmio que sinaliza uma estratégia agressiva. Fontes próximas ao processo revelam que a oferta superou em muito as propostas não-vinculantes recebidas dois meses antes, que incluíam players como a própria Hypera, Aché e a indiana Sun Pharmaceutical. “Ele nitidamente quis dar um recado: quem manda no mercado de genérico sou eu,” afirmou um banqueiro envolvido na negociação.
A ameaça indiana que acelerou o acordo
A presença da Sun Pharmaceutical, a maior empresa farmacêutica da Índia, foi o catalisador que levou Sanchez a fechar o negócio antes do prazo. Com faturamento global de US$ 6,2 bilhões e valor de mercado de US$ 52 bilhões, a Sun representava uma ameaça real de desestabilizar o mercado brasileiro com sua capacidade de produção de baixo custo. Ao perceber essa concorrência como crível, a EMS apresentou sua proposta vencedora. Com ela em mãos, o banco Lazard, assessor da Sanofi, decidiu aceitá-la e encerrar o processo de venda antecipadamente, em março, sem esperar pelas ofertas vinculantes.
Estratégia defensiva e de escala em um único movimento
A transação serve a dois propósitos principais para a EMS. Primeiro, é uma jogada defensiva, impedindo a entrada de um concorrente global com poder de fogo para pressionar preços e margens. Segundo, é um movimento de escala, agregando uma marca historicamente forte e respeitada entre os médicos ao seu portfólio. “A EMS tem uma das melhores execuções do setor, mas a Medley é uma marca bem mais forte,” comentou uma fonte do setor. A combinação une a eficiência operacional da EMS com o prestígio da Medley, criando uma força dominante no varejo farmacêutico.
O futuro das marcas e a corrida pelos GLP-1
Segundo Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS, as marcas EMS e Medley vão coexistir, mesmo oferecendo os mesmos medicamentos, com o mesmo posicionamento de preço inicialmente. No entanto, há especulações de que, a médio prazo, a Medley possa se tornar a marca premium do grupo, enquanto a EMS atuaria como marca de combate. Outra possibilidade estratégica é o uso da marca Medley para medicamentos de alto valor agregado, como os análogos de GLP-1, usados no tratamento de diabetes e obesidade. A patente da semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Ozempic, expira em breve, abrindo uma corrida por genéricos e similares que a EMS agora está ainda mais bem posicionada para liderar.
Sinergias operacionais e a manutenção da estrutura produtiva
A empresa descarta fechamento de fábricas ou concentração imediata da produção. A estratégia é manter as plantas existentes de ambas as companhias e expandir a capacidade conforme a demanda do mercado. A EMS já tem anunciado um plano de investimentos superior a R$ 1 bilhão em expansão fabril para os próximos anos. Após a conclusão do negócio, que ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), a empresa vai avaliar como uma estrutura pode complementar a outra, otimizando a cadeia de suprimentos que já opera no limite.
A aquisição da Medley representa o maior movimento de Carlos Sanchez na indústria farmacêutica, consolidando um legado que começou com seu pai em uma pequena farmácia de manipulação. Ao pagar um preço que supera a lógica puramente financeira, Sanchez não apenas adquiriu ativos e participação de mercado, mas também reafirmou seu controle estratégico sobre um setor vital, enviando uma mensagem clara sobre quem dita as regras do jogo dos genéricos no Brasil. O mercado, agora mais concentrado, aguarda os próximos passos deste gigante e como ele moldará o acesso a medicamentos essenciais nos próximos anos.

