A corrida pela implementação de inteligência artificial nas empresas tem gerado um efeito colateral preocupante: em vez de reduzir a carga de trabalho, muitas vezes a tecnologia está criando mais retrabalho, supervisão e processos ineficientes. A observação vem de Carmen Torrijos, responsável por IA na agência Prodigioso Volcán, que alerta para a necessidade de um modelo mais coletivo de produtividade com sistemas de uso comum.
O paradoxo da produtividade individual com IA
Segundo Torrijos, o problema surge quando profissionais começam a usar a IA para tarefas fora de sua área de especialização. “Agora um profissional de comunicação pode prototipar um produto digital com IA usando vibe coding. Isso intensifica em dois focos: primeiro, há uma pessoa enfrentando uma tarefa que não conhece bem, mas que de repente com a IA se habilita quase por arte de magia. Vai sentir liberdade, mas também insegurança”, explica a especialista. O segundo problema é o deslocamento do trabalho: equipes técnicas precisam reformar ou desmontar protótipos criados por não-especialistas, dedicando tempo extra a corrigir erros e alinhar expectativas.
Sistemas coletivos como solução para o retrabalho
Para evitar essa multiplicação de esforços, Torrijos defende uma abordagem mais estruturada. “Para evitar multiplicar o trabalho há que fomentar que haja uma produtividade mais coletiva com IA e gerar sistemas de uso comum, consensuados e que todos possamos aproveitar”, afirma. A especialista critica a cultura que premia excessivamente a iniciativa individual nos últimos anos, sugerindo que empresas precisam criar frameworks compartilhados que toda a organização possa utilizar de forma padronizada.
Como a Escalera revoluciona a pesquisa de mercado com IA
Um exemplo prático dessa abordagem coletiva é o projeto “La Escalera”, desenvolvido pela Prodigioso Volcán. Trata-se de um laboratório de escuta generacional que utiliza modelos de linguagem para simular diferentes faixas etárias. “Se conseguimos condensar a grandes rasgos como pensa a geração Z em um modelo de linguagem, ajustá-lo com instruções e alimentá-lo com estudos geracionais, então temos algo muito parecido a uma pessoa da geração Z”, explica Torrijos. O sistema organiza as gerações em um edifício de quatro andares, com representantes de cada grupo (Z, millennials, X e boomers), permitindo que marcas testem ideias e recebam feedback instantâneo de diferentes perfis demográficos.
Os três níveis para combater viés nos modelos de IA
Torrijos alerta para o risco crescente dos vieses nos assistentes baseados em IA, especialmente quando se tornam ativos de marca. “Temos que conseguir que o que transmitem reme sempre a favor do progresso social, e se reforçam estereótipos ou visões obsoletas do mundo, podem ser uma força importante contra”, adverte. A especialista identifica três níveis de atuação: o primeiro envolve os dados e configuração dos grandes modelos de linguagem (geralmente treinados fora da Europa), o segundo trata dos dados e instruções usados para ajustar esses modelos, e o terceiro está no uso individual, onde usuários conscientes podem solicitar explicitamente conteúdo diverso e inclusivo através de prompts específicos.
O desafio regulatório europeu frente à IA global
A especialista descreve o momento atual como “muito tenso” em termos de regulação. “O ponto de vista europeu da tecnologia e de seu impacto social não é o mesmo que o do resto do mundo, e há um pulso diário por fazê-lo valer”, observa Torrijos. Conceitos como privacidade, propried intelectual e direito à não discriminação são entendidos e protegidos de forma diferente fora da Europa, criando desafios para empresas que operam globalmente. Apesar das dificuldades, Torrijos destaca como positivo o fato da legislação europeia exigir explicitamente que empresas alfabetizem seus funcionários em IA, tornando a educação tecnológica uma obrigação regulatória.
O modelo de negócio insustentável da IA gratuita
Sobre o consumo energético e a sustentabilidade econômica dos modelos atuais, Torrijos é direta: “Não há gente suficiente disposta a pagar por usar ChatGPT, Claude ou Gemini a quantidade que teriam que pagar para que estas empresas pudessem manter os custos econômicos e energéticos, que são astronômicos”. Essa realidade está levando as empresas a buscar outras fontes de receita, como alianças comerciais com grandes corporações ou acordos com governos. A especialista prevê que o acesso gratuito se manterá, mas com uma deriva similar à das redes sociais, onde a exploração de dados dos usuários e a predição de comportamento se tornam a norma.
Publicidade em chats de IA: risco reputacional para marcas
Torrijos expressa ceticismo sobre a aceitação da publicidade integrada em assistentes de IA. “Creio que o anúncio de Anthropic na SuperBowl deste ano resume muito bem o que todos pensamos, que a publicidade põe em risco a intimidade da conversa com a IA e a qualidade da informação que nos dá”, afirma. Para marcas que consideram investir nesse tipo de publicidade, a especialista recomenda cautela: “A nível reputacional e de imagem de marca, creio que neste momento há que ter muito cuidado ao fazer um investimento publicitário em uma plataforma que pode ser muito criticada por esta opção”.
A oportunidade histórica para mulheres na IA
Apesar do setor ainda apresentar uma base herdada muito masculina, Torrijos vê uma oportunidade única. “Estamos muito a tempo de integrar a mais mulheres que chegam por diferentes caminhos: desde as estudantes que elegem carreiras STEM até mulheres profissionais que se reinventam ou que se convertem em perfis híbridos aplicando IA desde a saúde, a linguística, a educação, a investigação, as ciências sociais ou a arte”, destaca. A especialista reconhece avanços qualitativos na visibilidade feminina, mas alerta para os dados preocupantes: no emprego tecnológico na Europa, o porcentagem de mulheres baixou de 22% para 19%, com apenas 13% em postos executivos e 8% em cargos executivos seniores.
A evolução do trabalho nos próximos dois anos
Torrijos prevê que muitas pessoas passarão do uso pontual para o uso constante da IA na atividade laboral ao longo do próximo ano. “Também creio que lhe daremos cada vez menos importância ao uso individual, que se dará por feito, e poremos mais esforço na construção de soluções coletivas que mudarão os processos de verdade”, afirma. A especialista antecipa que profissionais de desenvolvimento, design, UX, redação e criação de conteúdos continuarão essenciais, mas serão procurados em estágios mais avançados da conceitualização dos projetos.
Para quem está começando a integrar IA em seus negócios, Torrijos oferece um conselho direto: construir uma base sólida de formação técnica e entender profundamente os conceitos antes de implementar processos reais. “O maior perigo é pensar que já podemos utilizar a IA a nível produtivo sem contar com perfis técnicos, e delegar nela projetos inteiros ou processos críticos. É um erro”, alerta. A especialista finaliza reforçando o que considera o elemento mais crucial em qualquer iniciativa com inteligência artificial: “Para trabalhar com IA o mais importante é a equipe”.
