Estreito de Ormuz fechado pode levar petróleo a US$ 150 e derrubar economias globais

O fechamento do Estreito de Ormuz, principal rota marítima para exportação de petróleo do Oriente Médio, pode elevar os preços do barril para US$ 150 e “derrubar as economias” globais. O alerta foi feito pelo ministro do Petróleo do Catar, Saal al-Kaabi, em entrevista ao Financial Times, enquanto ataques iranianos a navios petroleiros já reduziram a quase zero o tráfego na passagem estratégica.

Impacto imediato no mercado e previsão de crise prolongada

Os preços do petróleo Brent já reagiram às tensões, disparando para mais de US$ 90 nesta manhã, um aumento significativo em relação aos US$ 70 praticados antes do início do conflito. O ministro catariano alertou que mesmo se o conflito fosse encerrado hoje, levaria “semanas ou meses” para as exportações serem normalizadas. A projeção catastrófica considera que 20% dos barris negociados globalmente passam pelo estreito, que o Irã afirma manter fechado enquanto durar o conflito com Estados Unidos e Israel.

Setor de seguros marítimos em alerta máximo

As taxas de seguro para trânsito por Ormuz já quintuplicaram, passando de 0,25% para 1,25% sobre o valor do casco dos navios em apenas alguns dias. Segundo a corretora Marsh, 150 embarcações precisaram mudar de rota e pelo menos cinco sofreram danos, representando uma exposição estimada em US$ 90 milhões em valor de casco marítimo. Analistas do setor esperam que os custos aumentem ainda mais nos próximos dias, à medida que se intensificam as possibilidades de fechamento permanente da passagem.

Ceticismo inicial do mercado e revisão de projeções

Inicialmente, a maior parte dos analistas mantinha um cenário de petróleo em queda devido a perspectivas de excedente de oferta. Bob McNally, ex-assessor da Casa Branca para assuntos de energia, comparou a situação à fábula do “menino que gritava lobo”, lembrando que diversos eventos geopolíticos nos últimos anos tiveram impacto limitado nos preços. No entanto, com a escalada dos ataques a infraestruturas petrolíferas, bancos começaram a revisar suas projeções.

Posicionamento divergente de grandes instituições financeiras

Enquanto a Goldman Sachs mantém como cenário-base apenas mais cinco dias de exportações “muito baixas” (15% do normal) passando pelo estreito, elevando sua projeção para o Brent no segundo trimestre para US$ 76, outros analistas já consideram a possibilidade de o barril superar os US$ 100 com uma interrupção prolongada. A divergência reflete a incerteza sobre quanto tempo o Irã manterá a rota fechada e a eficácia de possíveis medidas contrárias.

Proposta americana de escolta a petroleiros

Nos últimos dias, Donald Trump afirmou que os EUA poderiam fornecer seguros e até escoltar petroleiros em Ormuz, embora não tenha detalhado como essa operação militar seria realizada. A China, principal compradora dos barris que passam pela região, disse que pretende negociar diretamente com o Irã para garantir a passagem de embarcações. A complexidade diplomática aumenta com múltiplos atores tentando influenciar o desfecho da crise.

Impacto direto no Brasil e política de preços da Petrobras

Com a disparada internacional do petróleo, aumentou significativamente a defasagem entre os preços dos combustíveis da Petrobras e os valores internacionais. Dados do Centro Brasileiro de Infraestrutura mostram que o diesel da estatal era vendido cerca de 30% abaixo da paridade de importação, e a gasolina 24% abaixo. A política de preços adotada desde o início do governo Lula prioriza não repassar “volatilidade” aos consumidores, o que pode pressionar os resultados da divisão de refino.

Posicionamento da Petrobras e setor de gás natural

A CEO da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou em teleconferência recente que a política de preços está mantida e que não há discussões na diretoria sobre mudanças. Paralelamente, a Eneva, que compra gás natural liquefeito da Qatar Energy para sua termelétrica em Sergipe, afirmou que não enxerga riscos imediatos no fornecimento. Segundo Marcelo Lopes, diretor de Comercialização da empresa, os carregamentos continuam sendo enviados a partir dos EUA, contornando a região de conflito.

O mercado global de energia enfrenta seu maior teste geopolítico desde a invasão russa da Ucrânia, com consequências que podem se estender muito além dos preços do petróleo. A dependência das economias ocidentais e asiáticas do petróleo do Oriente Médio, combinada com a dificuldade de desviar rotas de transporte em escala global, cria uma situação onde semanas de interrupção no Estreito de Ormuz poderiam desencadear recessões em cadeia. A capacidade dos governos e empresas de gerenciar estoques, encontrar fornecedores alternativos e negociar soluções diplomáticas determinará se a projeção catastrófica do Catar se materializa ou se o mercado encontrará mecanismos para absorver o choque como fez em crises anteriores.

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