Um estudo recente conduzido pela Mastercard em parceria com a Associação Espanhola de Mulheres Empresárias (ASEME) revela um cenário paradoxal no empreendedorismo ibérico. Enquanto a atividade empreendedora feminina cresce continuamente e seu valor social é amplamente reconhecido, as estruturas de apoio e financiamento ainda apresentam barreiras significativas que impedem seu pleno desenvolvimento. Os dados mostram que quase 85% das mulheres enfrentam obstáculos financeiros ao empreender, contrastando fortemente com a percepção de apenas um terço dos homens sobre essas desigualdades.
Percepção de desigualdade é mais aguda entre mulheres empreendedoras
O estudo demonstra uma clara divergência na percepção sobre as condições para empreender. Enquanto 45,7% da população espanhola em geral reconhece que as mulheres partem em desvantagem ao iniciar um negócio, essa percepção se intensifica drasticamente quando se considera apenas as mulheres empreendedoras: 58,3% delas afirmam sentir essa desigualdade na prática. Entre os homens, apenas 33,1% reconhecem a existência dessas barreiras estruturais. Essa disparidade nas percepções sugere que muitos dos desafios enfrentados pelas mulheres permanecem invisíveis ou subestimados por parte significativa do ecossistema empresarial.
Conciliação aparece como principal barreira no empreendedorismo feminino
Para 67,7% das empreendedoras entrevistadas, o maior obstáculo concreto é equilibrar a vida profissional com as responsabilidades familiares. Esta preocupação supera em importância outros fatores como preconceitos de gênero diretos e a burocracia administrativa. Os dados mostram que as mulheres referem a conciliação como desafio em 14,8% dos casos, enquanto entre os homens essa porcentagem cai para 9,9%. Essa diferença de quase cinco pontos percentuais reflete a persistência de modelos sociais que ainda atribuem às mulheres a maior parte das responsabilidades domésticas e de cuidado familiar.
Mulheres avaliam pior o ecossistema de apoio ao empreendedorismo
As empreendedoras demonstram maior crítica em relação às estruturas de apoio disponíveis. Enquanto 38,9% das mulheres avaliam negativamente o ecossistema de apoio ao empreendedorismo, apenas 27,6% dos homens compartilham essa visão. Essa diferença de mais de onze pontos percentuais indica que as iniciativas existentes podem não estar atendendo adequadamente às necessidades específicas das mulheres que decidem empreender. A falta de adequação dessas estruturas contribui para ampliar as desigualdades já existentes no mercado.
Financiamento representa gargalo crítico para empreendedoras
O acesso ao capital continua sendo um dos maiores desafios para as mulheres que desejam iniciar ou expandir seus negócios. Embora 76,5% dos empreendedores em geral necessitem de financiamento externo, 84,9% das mulheres relatam encontrar obstáculos significativos nesse processo. Como consequência direta dessa dificuldade, seis em cada dez mulheres empreendedoras utilizam exclusivamente recursos próprios ou poupanças familiares para financiar seus negócios. Esta dependência de capital interno limita severamente o potencial de crescimento e a capacidade de inovação desses empreendimentos.
Capital de risco ignora empreendimentos liderados por mulheres
Gricell Garrido, presidente da ASEME, destaca uma estatística preocupante: “As empresas fundadas exclusivamente por mulheres recebem apenas uma fração do capital de risco investido na Europa, aproximadamente 2% ou menos do financiamento total de venture capital”. Este dado é particularmente alarmante quando considerado em contraste com o crescimento contínuo da atividade empreendedora feminina. A discrepância entre o potencial demonstrado e o financiamento recebido representa não apenas uma limitação para as empreendedoras individuais, mas também uma perda significativa de oportunidades para toda a economia.
Suporte institucional é considerado deficiente por empreendedores
Mais de 40% dos entrevistados no estudo classificam como deficiente o respaldo oferecido pelos organismos públicos ao empreendedorismo. Essa avaliação negativa atravessa gêneros, indicando problemas estruturais que afetam todo o ecossistema. Entre as principais demandas estão políticas de conciliação mais flexíveis e acessíveis (57,8%) e a simplificação de trâmites e redução da carga burocrática (48,7%). Para 42,3% das mulheres, ajudas diretas e subvenções específicas seriam elementos fundamentais para reduzir as desigualdades atuais.
Reconhecimento social do empreendedorismo feminino contrasta com barreiras práticas
Apesar das dificuldades documentadas, o estudo revela um reconhecimento generalizado do valor das mulheres no tecido empresarial. Para 78,9% dos espanhóis, o papel da mulher no empreendedorismo é considerado altamente relevante para o desenvolvimento econômico e social. Entre as mulheres, esse percentual sobe para 83,2%. Esta contradição entre reconhecimento teórico e barreiras práticas sugere que, embora a sociedade valorize a contribuição feminina para a economia, os mecanismos para converter esse reconhecimento em oportunidades reais ainda são insuficientes.
Iniciativas buscam visibilizar e apoiar empreendedoras
Durante a apresentação do estudo, Mastercard e ASEME anunciaram a iniciativa MasterWomen, projetada para destacar empreendedoras que atuam como agentes de transformação em suas comunidades. Na edição atual, três mulheres receberam reconhecimento por suas contribuições: Sara Sorribes (Vidrio Sorribes) ganhou o prêmio MasterWoman por elevar a artesanía através da inovação; María Castro (El Milagrito) foi finalista por seu impacto econômico em Sevilla; e Yukonda Esparragoza (Lavandería Romeral) foi reconhecida por sua resiliência no mercado canário.
Premiação oferece suporte financeiro e técnico
A Mastercard concedeu um prêmio de 6.000 euros à vencedora e 3.000 euros a cada finalista, recursos que serão destinados ao desenvolvimento e digitalização de seus negócios. Além do apoio financeiro, as premiadas terão acesso a ferramentas de cibersegurança e digitalização oferecidas pela companhia. Esta abordagem combinada de financiamento e capacitação técnica representa um modelo promissor para apoiar o crescimento sustentável de empreendimentos liderados por mulheres.
Estratégias para reduzir as desigualdades no empreendedorismo
Os dados do estudo apontam para a necessidade de intervenções em múltiplas frentes para criar um ambiente mais equitativo para as empreendedoras. A simplificação de processos burocráticos aparece como uma demanda transversal, mencionada por 48,7% dos entrevistados. Esta medida teria o potencial de reduzir barreiras de entrada que afetam desproporcionalmente mulheres, que frequentemente precisam conciliar o processo de abertura de empresas com outras responsabilidades.
Políticas de conciliação são fundamentais para igualdade de oportunidades
Com 57,8% dos entrevistados destacando a necessidade de políticas de conciliação mais flexíveis, fica evidente que a questão vai além do empreendedorismo individual e toca em estruturas sociais mais amplas. Medias como horários flexíveis, apoio ao cuidado infantil e reconhecimento das responsabilidades familiares compartilhadas poderiam criar condições mais justas para que as mulheres possam dedicar tempo e energia ao desenvolvimento de seus negócios sem sacrificar outras dimensões de suas vidas.
Financiamento direcionado pode corrigir distorções de mercado
Considerando que apenas 2% do capital de venture capital na Europa é destinado a empresas fundadas exclusivamente por mulheres, mecanismos de financiamento específicos podem funcionar como corretores temporários dessas distorções de mercado. Subvenções, linhas de crédito preferenciais e fundos de investimento focados em empreendedoras representam estratégias que podem acelerar a redução das desigualdades enquanto o mercado se ajusta para reconhecer o valor desses empreendimentos.
O caminho para um ecossistema empreendedor verdadeiramente inclusivo requer não apenas reconhecimento do valor das mulheres na economia, mas também ações concretas que transformem esse reconhecimento em oportunidades reais de crescimento e desenvolvimento. As iniciativas que combinam apoio financeiro, capacitação técnica e visibilidade, como o programa MasterWomen, representam passos importantes nessa direção, mas precisam ser ampliadas e complementadas por políticas públicas que ataquem as raízes estruturais das desigualdades. A transformação do cenário atual não beneficiaria apenas as mulheres empreendedoras, mas toda a economia, ao liberar o potencial inexplorado de milhares de negócios que hoje enfrentam barreiras desnecessárias ao seu desenvolvimento.

