Uso de IA avança na saúde, mas Brasil enfrenta entraves para escalar

Pesquisa da Deloitte revela que 85% das empresas de saúde aumentaram investimentos em IA, mas Brasil ainda enfrenta desafios de governança e infraestrutura para escalar.

Estudo global da Deloitte aponta que 85% das organizações de saúde aumentaram gastos com IA, mas o Brasil luta para escalar aplicações.
Destaques
  • Globalmente, 85% das organizações de saúde aumentaram seus investimentos em inteligência artificial.
  • No Brasil, a maturidade no uso de IA na saúde é heterogênea e esbarra em governança de dados e infraestrutura.
  • A expectativa é que 57% das empresas de saúde consigam colocar experimentos de IA em produção nos próximos meses.

A inteligência artificial (IA) já não é mais uma promessa distante no setor de saúde e ciências da vida (LSHC, na sigla em inglês). Ela está presente no suporte à decisão clínica, na análise de exames de imagem, na descoberta de novos medicamentos, na automação de processos administrativos e na gestão hospitalar. O que a pesquisa global “State of AI in the Enterprise”, divulgada pela Deloitte em 2026, revela é que o setor está saindo da fase de experimentação e entrando em um momento de implementação em escala. Mas, no Brasil, esse movimento enfrenta obstáculos concretos que vão desde a governança de dados até a infraestrutura de telecomunicações.

Avanço global: investimento e confiança em alta

O levantamento, que ouviu 375 empresas do setor de LSHC em todo o mundo, mostra que 85% das organizações aumentaram seus investimentos em IA, e 78% declararam ter mais confiança na tecnologia. A maioria das aplicações ainda está focada em ganhos de produtividade e eficiência operacional, mas 35% das empresas já usam a IA para transformar seus modelos de negócio, criando novos produtos e serviços. Outros 29% estão redesenhando processos centrais a partir da tecnologia.

“Os dados mostram que mais de um terço do setor já está mirando numa transformação mais profunda, mesmo considerando que ela exige mudanças estruturais, revisão de processos, integração de dados, governança e capacitação das equipes. No setor de saúde, isso é ainda mais sensível por envolver regulação, segurança de dados, validação clínica e impacto direto na experiência e nos resultados dos pacientes”, afirma Luis Fernando Joaquim, sócio-líder para a indústria de Life Sciences & Health Care da Deloitte.

Atualmente, 28% das organizações globais conseguiram colocar em produção pelo menos 40% de seus experimentos com IA. A expectativa é que esse índice salte para 57% nos próximos três a seis meses, indicando uma aceleração dos projetos corporativos.

Onde a IA já é usada na saúde

Entre as principais aplicações atuais estão o suporte à decisão clínica, diagnósticos por imagem, otimização do fluxo de pacientes, aceleração da descoberta de medicamentos, gestão de receitas e fortalecimento da cadeia de suprimentos de terapias críticas. No horizonte de longo prazo, as empresas também investem em medicina de precisão, manufatura inteligente, sistemas de qualidade e gestão populacional de saúde.

No Brasil, muitas dessas aplicações já existem, mas em níveis de maturidade muito heterogêneos. “Na medicina diagnóstica, a IA é utilizada para personalização e predição; nos planos de saúde, para combate a fraudes; na indústria farmacêutica, para desenvolvimento de novas drogas; e nos hospitais, em robótica, análise de dados, consultas e atendimentos. Há também projeto na Anvisa para acelerar triagens e registros de novos medicamentos. Mas ainda há limitações para escalar iniciativas mais sofisticadas”, explica Joaquim.

Desafios brasileiros: maturidade desigual e cautela nos investimentos

O especialista destaca que o uso da IA na saúde no Brasil reflete as diferenças regionais, de porte das organizações e de infraestrutura disponível. “Há exemplos avançados, como hospitais inteligentes e cirurgias robóticas, mas essas iniciativas ainda precisam ser disseminadas. De forma geral, o uso ocorre mais em ciência de dados, analytics e automações administrativas e operacionais. Já a IA generativa ainda se concentra em iniciativas de pesquisa e desenvolvimento.”

O principal entrave, segundo a pesquisa, é uma postura de cautela do setor em relação aos custos de investimento nos modelos e aos desafios de governança e definição de estratégias para implantação. No Brasil, isso se soma a questões estruturais, como a necessidade de redes de telecomunicações de alta velocidade, estabilidade de conexão e investimentos elevados em segurança cibernética, especialmente para viabilizar operações remotas e soluções de IA física, como robótica colaborativa e automação laboratorial.

Governança, IA agêntica e riscos regulatórios

A pesquisa aponta que privacidade e segurança de dados lideram as preocupações das organizações globais, citadas por quase três em cada quatro entrevistados. Em seguida vêm conformidade legal, regulatória e de propriedade intelectual; capacidades de governança e supervisão; e qualidade, consistência e explicabilidade dos modelos.

Um destaque do estudo é o crescimento da chamada IA agêntica — sistemas autônomos capazes de executar tarefas complexas, tomar decisões e interagir com outros sistemas. Segundo a pesquisa, 72% das organizações do setor pretendem adotar esse tipo de IA nos próximos dois anos. No entanto, apenas 19% afirmam possuir modelos maduros de governança para essa tecnologia, o que amplia os riscos relacionados a dados, conformidade e monitoramento. No setor de saúde, falhas em IA podem impactar diretamente decisões clínicas, operações e a confiança de profissionais e pacientes.

Outra tendência é a IA física, que combina inteligência artificial, sensores, robótica e sistemas automatizados para atuar no mundo real. Hoje, 57% das empresas do setor já utilizam alguma forma de IA física, percentual que deve chegar a 80% em dois anos. As aplicações incluem automação laboratorial, robótica colaborativa, logística hospitalar e manufatura farmacêutica.

O que significa para o consumidor de planos de saúde e seguros

Para o consumidor brasileiro, a expansão da IA no setor de saúde pode trazer benefícios concretos, como diagnósticos mais rápidos e precisos, redução de fraudes em planos de saúde e maior eficiência no atendimento. No entanto, a lentidão na implementação em escala no Brasil significa que muitos desses avanços ainda demorarão a chegar ao dia a dia dos pacientes e segurados.

Enquanto as operadoras de planos de saúde e as seguradoras investem em IA para combater fraudes e melhorar a gestão de sinistros, o consumidor deve ficar atento a como essas tecnologias impactam a experiência contratual. A transparência no uso de dados, a segurança da informação e a qualidade dos serviços prestados são pontos que devem ser acompanhados de perto, especialmente em um ambiente regulatório ainda em desenvolvimento.

Fechamento prático: o que observar na sua apólice ou plano

Diante desse cenário, o consumidor pode adotar algumas medidas práticas:

  • Verifique a política de privacidade e uso de dados da sua operadora de plano de saúde ou seguradora. Entenda como seus dados clínicos e administrativos são tratados e se há mecanismos de consentimento e governança.
  • Acompanhe as inovações que sua operadora oferece, como aplicativos de telemedicina, chatbots para agendamento ou sistemas de monitoramento remoto. Essas ferramentas podem indicar o nível de maturidade digital da empresa.
  • Fique atento aos canais de atendimento e à qualidade do suporte. IA pode agilizar processos, mas não deve substituir o contato humano quando necessário, especialmente em situações de sinistro ou emergência de saúde.
  • Consulte seu corretor de seguros para esclarecer dúvidas sobre como a tecnologia impacta coberturas, prazos de carência e procedimentos de reembolso. O corretor é o profissional capacitado para traduzir essas mudanças para o seu contrato.

A inteligência artificial veio para ficar na saúde, mas a velocidade com que seus benefícios chegarão ao consumidor brasileiro depende de investimentos em infraestrutura, governança e capacitação. Enquanto isso, o melhor caminho é se informar e exigir transparência das operadoras e seguradoras.

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