Investidores apostam bilhões em parcerias para construir e reformar escolas públicas no Brasil

Em meio a uma agenda intensa de leilões de infraestrutura tradicional, um novo mercado começa a atrair a atenção de grandes investidores: as Parcerias Público-Privadas no setor de educação. Estados como Paraná e Minas Gerais estão na frente, com licitações marcadas para os próximos dias que devem movimentar mais de R$ 2,7 bilhões apenas em investimento inicial. O movimento sinaliza uma expansão significativa das chamadas PPPs sociais, que prometem injetar capital privado na construção, reforma e manutenção de escolas públicas.

Leilões em andamento movimentam mercado de educação

O Paraná abrirá as propostas para seu leilão em 24 de março. O projeto, estruturado com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), está dividido em dois lotes: o norte, com investimento previsto de R$ 697 milhões, e o sul, com R$ 796 milhões. O contrato envolve construção, manutenção e operação de escolas por um período prolongado. Poucos dias depois, em 30 de março, Minas Gerais realizará sua disputa, focada nos serviços não-pedagógicos de 95 unidades escolares. A licitação, estruturada pelo BNDES, também oferece dois lotes: um na região metropolitana de Belo Horizonte (R$ 792 milhões) e outro na região norte do estado (R$ 457 milhões).

Pipeline de projetos supera R$ 9 bilhões em investimentos potenciais

Segundo levantamento da consultoria Garin Partners, o pipeline de projetos de PPPs educacionais com potencial para licitação ainda este ano soma investimentos iniciais de mais de R$ 9 bilhões. Esse montante está distribuído em onze potenciais leilões em nível estadual e municipal. Além dos processos já em andamento, o Rio Grande do Sul revisa estudos para licitar três lotes de reformas escolares. Cidades como Maceió (AL), Joinville (SC), Recife (PE), Natal (RN), Santa Maria (RS), Feira de Santana (BA), Boa Vista (RR) e Porto Velho (RO) também têm projetos em diferentes fases de estruturação, indicando que a onda de investimentos deve se espalhar pelo país.

Construtoras e fundos financeiros disputam o novo mercado

A natureza dessas concessões atrai dois tipos principais de players. Por um lado, as construtoras têm participação natural, já que os projetos envolvem obras de grande porte para erguer novas escolas ou realizar reformas profundas. Por outro, os contratos de longo prazo, frequentemente com duração de 20 anos ou mais, e com receita pré-definida pelos governos, estão chamando a atenção de investidores financeiros. Para esses fundos, um ativo de infraestrutura social com fluxo de caixa previsível apresenta atrativos semelhantes aos de setores como saneamento ou energia.

Modelo de negócio oferece previsibilidade de retorno a longo prazo

“Uma vez tendo equacionado bem as obras, e com um bom plano de operação, são concessões que trazem uma boa previsibilidade de fluxo de caixa para o longo prazo. Para players financeiros, não tem muita diferença entre um ativo de saneamento, por exemplo, e uma PPP social,” analisa Marcelo Sahatdjian, head de infraestrutura social do Santander Brasil. Essa característica é fundamental para atrair capital paciente, disposto a investir grandes somas em troca de retornos estáveis ao longo de décadas.

Startups de educação entram na disputa por consórcios

O mercado também vê o surgimento de novos entrantes especializados. A Mind Lab, uma govtech com histórico em educação, anunciou planos de arrematar três ou quatro concessões nos próximos 18 meses, com o objetivo de alavancar cerca de R$ 1 bilhão em investimentos. A empresa, que recebeu aportes de venture capital no passado, recomprou essas participações para se reposicionar e focar nas PPPs. A estratégia é formar consórcios, unindo seu conhecimento em gestão educacional com a expertise construtiva de grandes grupos e o capital de investidores financeiros.

Crescimento do setor deve superar 20% ao ano

Ivan Pereira, CEO da Mind Lab, estima que o setor de PPPs sociais na educação deve crescer mais de 20% ao ano. “É um mercado em que não vai faltar projeto, vai faltar concessionário,” prevê. A avaliação é compartilhada por Julio Favarin, sócio de Infraestrutura da Garin Partners, que afirma: “É um setor que está explodindo, e só está começando. O volume de projetos vai aumentar muito nos próximos meses e anos.” O otimismo se sustenta na percepção de que o déficit de infraestrutura social no Brasil é maior até que o de infraestrutura econômica.

Resistência política é superada pelo pragmatismo administrativo

Os projetos não avançam sem críticas. Sindicatos e partidos de esquerda já organizaram protestos contra o que chamam de “privatização de escolas”. No entanto, os defensores do modelo argumentam que a gestão pedagógica e a posse dos imóveis permanecem integralmente com o poder público. A concessão se limita às obras de construção, reforma e manutenção predial. Um gestor envolvido na estruturação desses projetos ressalta que o modelo libera os diretores de escolas de tarefas administrativas que consomem tempo: “Na verdade, o que você vai tirar do diretor da escola é basicamente a obrigação de cuidar do prédio. Algo que toma 90% do tempo dele e não tem a ver com educação.”

O fato de o calendário de leilões avançar mesmo em um ano eleitoral, tradicionalmente marcado por cautela em investimentos de longo prazo, indica que as resistências estão sendo vencidas por um consenso pragmático. A necessidade urgente de melhorar a infraestrutura escolar, somada à limitação de recursos públicos, cria um terreno fértil para parcerias. Como resume Ivan Pereira, da Mind Lab, o modelo beneficia múltiplas partes: “É um bom negócio para o País, para o Governo, para todo mundo. Imagina que coisa maravilhosa para os secretários, prefeitos e governadores, você poder falar que está trazendo dinheiro da Faria Lima para investir em escolas.”

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