A Mapfre promoveu um encontro em São Paulo para discutir como o aumento da frequência de eventos climáticos extremos, impulsionado por um novo ciclo do El Niño, está transformando o mercado de seguros. Durante o evento, a seguradora apresentou ajustes em suas estratégias de subscrição e anunciou a ampliação de coberturas em seguros residenciais, além de novidades para o agronegócio e para grandes riscos industriais. A iniciativa reflete uma tendência do setor de incorporar inteligência meteorológica ao planejamento operacional para reduzir a exposição a perdas.
O cenário climático e seus reflexos nos seguros
O climatologista Daniel Perez, cofundador da MeteoIA, explicou que, embora o El Niño seja um fenômeno conhecido, seus impactos se tornaram menos previsíveis. Ele destacou que 2024 registrou recordes globais de temperatura e que, para o Brasil, o cenário projetado indica contrastes regionais: enquanto o Sul e parte do Sudeste enfrentam maior risco de chuvas intensas, o Centro-Oeste e a Amazônia convivem com períodos mais prolongados de seca. “Frear a natureza é fisicamente impossível. A saída prática que as empresas encontraram foi incorporar a meteorologia ao planejamento operacional”, afirmou Perez, citando a possibilidade de mobilizar peritos e reposicionar equipes de atendimento semanas antes de uma tempestade.
Leonardo Marins, diretor territorial São Paulo da Mapfre, reforçou que os eventos climáticos deixaram de ser uma preocupação pontual e passaram a influenciar decisões de negócio durante todo o ano. Para ele, reunir especialistas, equipes técnicas e corretores permite preparar o mercado para responder a cenários cada vez mais desafiadores.
Estratégias da Mapfre para o agronegócio
Fabio Damasceno, diretor de seguro rural da Mapfre, destacou que o acesso a informações climáticas mais precisas está modificando a forma como a seguradora acompanha suas operações. “Quanto maior a capacidade de compreender o comportamento do clima durante uma safra ou em uma determinada região, melhores são as condições para avaliar riscos, orientar os corretores e oferecer soluções compatíveis com a realidade de cada cliente”, afirmou.
Entre as novidades apresentadas, a Mapfre iniciará testes com um seguro paramétrico voltado inicialmente para a cultura do café. Nesse modelo, indicadores climáticos previamente definidos são usados para agilizar o pagamento das indenizações, sem depender de perícia presencial. A expectativa é expandir esse tipo de cobertura para outras culturas. Além disso, a companhia vem incorporando imagens de satélite na análise das propriedades rurais, ampliando a precisão na avaliação dos riscos.
Damasceno também anunciou que a Mapfre ampliou o uso de análises meteorológicas em parceria com a MeteoIA para acompanhar áreas seguradas e apoiar a tomada de decisões em diferentes linhas de negócios. A iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla de monitoramento de riscos climáticos, diante da maior incidência de eventos extremos registrada nos últimos anos.
O que é um seguro paramétrico?
Diferentemente do seguro tradicional, que exige a comprovação de danos para liberar a indenização (sinistro), o seguro paramétrico utiliza índices objetivos — como volume de chuva, temperatura ou velocidade do vento — para disparar o pagamento automaticamente quando um limite pré-acordado é ultrapassado. Isso reduz o tempo de espera e elimina a necessidade de vistoria, sendo especialmente útil em situações de catástrofe.
Ampliação de coberturas no ambiente urbano e grandes riscos
No seguro residencial, a Mapfre passou a oferecer cobertura para alagamentos em imóveis localizados no estado de São Paulo. Para a carteira de automóveis, permanecem cobertos danos causados por granizo, vendavais e calço hidráulico. Já no segmento de Grandes Riscos, a companhia informou manter capacidade para liderar operações corporativas com limites de até R$ 600 milhões por risco.
Os executivos lembraram que as enchentes registradas no Rio Grande do Sul evidenciaram o impacto financeiro dos eventos extremos e a baixa penetração do seguro no país. Segundo dados apresentados no encontro, apenas 6% do patrimônio atingido possuía cobertura securitária, o que reforça a necessidade de revisar periodicamente os limites das apólices (contratos de seguro) e ampliar a cultura de gestão de riscos.
O papel dos corretores diante da instabilidade climática
Durante o evento, especialistas discutiram a importância da orientação dos corretores para que os clientes contratem coberturas adequadas e adotem medidas preventivas, como a manutenção periódica de estruturas e equipamentos. A instabilidade climática exige que as apólices sejam revisadas com frequência, especialmente nos limites de indenização e nas coberturas adicionais, como alagamento, vendaval e granizo.
O que verificar na sua apólice diante de eventos climáticos
Diante do cenário de maior frequência de eventos extremos, o consumidor pode tomar algumas providências práticas:
- Verificar se a apólice atual cobre danos por alagamento, inundação, granizo e vendaval — essas coberturas podem ser contratadas como adicionais em muitos seguros residenciais e automotivos.
- Conferir o valor da franquia (valor pago pelo segurado em caso de sinistro) e os limites máximos de indenização para cada tipo de evento.
- Manter contato com o corretor de seguros para entender as exclusões e as condições específicas da sua região, especialmente se você mora em área de risco.
- Avaliar a contratação de seguros paramétricos ou outras soluções inovadoras, quando disponíveis, que podem oferecer respostas mais rápidas em situações de catástrofe.
A revisão periódica da apólice é uma medida simples, mas essencial para garantir que a proteção esteja alinhada com os riscos atuais, que se tornaram menos previsíveis e mais severos.
