A divisão de celulares da Samsung caminha para um trimestre financeiramente constrangedor dentro de casa. Uma projeção detalhada indica que o lucro do negócio de smartphones no segundo trimestre de 2026 pode equivaler a meros 1% do que a área de semicondutores deve embolsar no mesmo período, com o risco real de o setor mobile fechar a conta no vermelho. A previsão, repercutida pelo tipster Ice Universe, cria uma hierarquia desconfortável de ricos e pobres convivendo sob o mesmo telhado corporativo, expondo um abismo de rentabilidade entre a fabricação de chips e a produção de aparelhos.
O ponto central da análise é a diferença de escala entre as duas pontas da empresa. Enquanto a unidade de chips vive um ciclo de bonança puxado pela alta explosiva dos preços da memória DRAM, a operação de aparelhos amarga margens espremidas e pode registrar lucro próximo de zero na comparação relativa. Em abril, fontes internas já indicavam que TM Roh, chefe das divisões DX e MX, havia alertado a diretoria sobre a possibilidade de a unidade de celulares amargar seu primeiro prejuízo anual da história, justamente num momento em que os produtos vendem bem em volume.
Lucro do mobile pode equivaler a 1% do dos chips
A disparidade fica nítida quando o assunto é a bonificação que cada funcionário deve levar para casa. Com a expectativa de a Samsung registrar lucro operacional na casa dos 300 trilhões de won, o pessoal ligado à memória entrou num acordo que prevê um bônus especial equivalente a 10,5% desse resultado anual. Na prática, um trabalhador da área de semicondutores, especificamente da memória, pode receber aproximadamente 600 milhões de won, o que equivale a US$ 400 mil. Já um colega da divisão mobile, que lida com celulares, leva para casa cerca de 6 milhões de won, ou US$ 4 mil. A diferença chega a 100 vezes, revelando um contraste brutal entre os setores que compõem o mesmo conglomerado.
O abismo aparece nos bônus
O maior vento contrário para o setor mobile tem nome: a chamada “chipflation” da memória, ou “RAMpocalypse”, como o mercado apelidou. As três fabricantes que controlam a maior parte da produção de DRAM — Samsung, SK Hynix e Micron — vêm redirecionando capacidade produtiva para a memória de alta largura de banda usada em aceleradores de inteligência artificial, que rende margens muito maiores. O resultado é uma sobra menor de chips para aparelhos de consumo, com o preço disparando. A Morgan Stanley calcula que o custo da memória subiu mais de seis vezes no último ano. A pressão é tão grande que até a Apple veio a público admitir o problema pela boca de seu CEO, Tim Cook, que declarou ao Wall Street Journal que os aumentos de preço são inevitáveis.
Preços do Galaxy Z Fold 8 devem subir
Esse cenário já empurra a Samsung a reajustar a próxima geração de dobráveis. Segundo o vazador Anthony, o Galaxy Z Fold 8 e o Z Fold 8 Ultra terão aumento em toda a linha, com Europa e Ásia como mercados mais afetados. O Z Fold 8 Ultra deve passar de € 1.999, cerca de R$ 11.800 pela conversão atual, um salto de mais de € 100 sobre a expectativa anterior. O risco é claro: telefones mais caros tendem a esfriar a demanda justamente pelos produtos que deveriam puxar a margem da divisão.
O paradoxo de vender bem e lucrar pouco
A ironia é que os celulares da Samsung não estão encalhados. O Galaxy S26 Ultra quebrou recorde de pré-venda na Coreia do Sul, ficou 25% acima da linha S25 nos Estados Unidos e 20% acima na Europa. A IDC apontou a fabricante como líder global no primeiro trimestre, com 62,8 milhões de unidades enviadas. O problema mora na conta de componentes: a Counterpoint estima que a lista de peças de um flagship acima de US$ 800 subiu de US$ 100 a US$ 150, com a memória respondendo pela maior fatia — 23% do custo vão para a RAM e 18% para o armazenamento. Some-se a isso o encarecimento dos próprios chipsets de ponta, e o resultado é uma dupla pressão que faz o lucro da operação de smartphones evaporar a cada peça comprada mais cara.
Reflexo no bolso do consumidor brasileiro
Para quem compra no Brasil, o recado é direto. A Samsung detém cerca de 50% do mercado nacional, o que significa que qualquer reajuste na tabela da líder dita o ritmo do setor inteiro. Os modelos de entrada tendem a sofrer mais, com o aumento de custos pesando de forma desproporcional sobre os aparelhos mais baratos, cujo público é o mais sensível a preço. O exemplo já apareceu lá fora: o Galaxy A07 5G subiu 42% na Índia. Se a mesma lógica chegar por aqui, o sucessor do atual “baratinho” da marca poderia saltar dos cerca de R$ 600 do varejo para algo perto de R$ 1.300, mais que dobrando o custo para o consumidor brasileiro.

