Copom confirma corte da Selic para 13,75% e Ibovespa abre em alta com dólar estável
O Comitê de Política Monetária (Copom) confirmou o aguardado corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, que passou de 14% para 13,75% ao ano, em decisão unânime tomada na noite desta quarta-feira (16). A medida, amplamente precificada pelos mercados, veio acompanhada de um comunicado com alterações mínimas em relação ao documento anterior, sinalizando que o ciclo de flexibilização monetária segue em curso, mas sem pressa. Com isso, o Ibovespa deve abrir o pregão desta quinta-feira (17) em leve alta, enquanto o dólar opera estável, em um cenário de digestão tanto da decisão local quanto da postura dura do Federal Reserve (Fed) nos Estados Unidos.
Lá fora, o índice EWZ — fundo negociado em Nova York que replica o desempenho do MSCI Brasil, composto pelas principais ações da bolsa brasileira — subia 1,39% no after-market, cotado a US$ 38,00 por volta das 19h (horário de Brasília). No pregão regular, o fundo havia fechado com queda de 0,79%, a US$ 37,46. Essa recuperação no mercado norte-americano serve de termômetro para a abertura do Ibovespa, que deve refletir um tom mais brando do que o esperado na comunicação do Copom.
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O principal índice da bolsa brasileira encerrou as negociações da quarta-feira aos 185.547,66 pontos, com recuo de 0,51%, pressionado justamente pela cautela que antecedeu a decisão do comitê. Agora, com o anúncio assimilado, os investidores voltam suas atenções para o cenário externo e para os próximos passos da política monetária, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.
Copom: o que muda com a queda da Selic e como o mercado reage
A decisão do Copom de reduzir a Selic para 13,75% ao ano representa a quinta flexibilização consecutiva do ciclo de aperto monetário, que atingiu o pico de 14% em meados do ano passado. O corte de 0,25 ponto percentual veio exatamente em linha com a precificação majoritária dos investidores, o que explica a reação contida dos ativos brasileiros após o anúncio.
Na avaliação de Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg, o Ibovespa deve ter uma reação mais amena à decisão, enquanto o exterior deve continuar ditando o desempenho do índice. “A Bolsa deve ter uma abertura positiva por o Banco Central não ter fechado a porta para novos cortes nas próximas reuniões”, complementa Augusto Parente, especialista em investimentos e fundador da AW Capital.
Diferentemente do que se viu em ciclos anteriores, quando o mercado penalizava ações de empresas mais endividadas diante da perspectiva de juros elevados por mais tempo, desta vez o Copom trouxe poucas novidades no comunicado. O colegiado repetiu o tom institucional de que a decisão é “compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante”, sem indicar compromisso com um ritmo específico para os próximos encontros.
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Juros futuros: por que o mercado não se assustou
A equipe de estrategistas da Warren Rena — formada por Luis Felipe Vital, Cecília Mazzoni e Felipe Figueiró — espera um movimento moderado da curva de juros futuros, uma vez que o Copom entregou uma decisão em linha com a precificação majoritária do mercado e com alterações mínimas na comunicação.
Antes da decisão, a curva a termo já precificava um corte adicional de 13 pontos-base na Selic para a reunião de novembro do Copom. Ou seja, o mercado já havia embutido nos preços não apenas a queda desta quarta-feira, mas também parte do movimento futuro. Isso ajuda a explicar por que as taxas de Depósito Interfinanceiro (DI) ficaram praticamente estáveis no fechamento do pregão anterior à decisão.
- DI para janeiro de 2027 (curto prazo): fechou a 13,580%, ante 13,579% do ajuste anterior, variação desprezível no dia.
- DI para janeiro de 2036 (longo prazo): terminou o dia a 14,190%, ante 13,375% do fechamento de terça-feira, representando uma queda de quase 19 pontos-base.
Esse comportamento indica que os agentes financeiros estão confortáveis com a trajetória de queda gradual da Selic, sem pressões inflacionárias adicionais que obriguem o Banco Central a acelerar ou interromper o ciclo de cortes. O Copom, por sua vez, segue monitorando as expectativas de inflação e os indicadores de atividade econômica, fatores que serão determinantes para o ritmo das próximas reduções.
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Dólar: o que esperar da moeda norte-americana em meio ao diferencial de juros
Nesta quarta-feira, o dólar à vista (USDBRL) encerrou a sessão cotado a R$ 5,1514, com leve recuo de 0,07%, na contramão do desempenho do DXY — índice que mede a força da moeda americana ante uma cesta de divisas principais. Esse movimento de estabilidade deve se repetir no pregão desta quinta-feira, segundo Augusto Parente.
Para o especialista, o real deve ter mais um dia de estabilidade, com os investidores ainda digerindo a decisão do Federal Reserve de elevar os juros para a faixa de 3,75% a 4,00% ao ano. Vale lembrar que o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) decidiu, na quarta-feira, subir as taxas em 25 pontos-base — a primeira alta desde julho de 2023 — em uma decisão unânime, conforme antecipado pela maioria dos analistas.
Edson Mendes, sócio-fundador da Private Investimentos, observa que a combinação de redução dos juros no Brasil com o aumento das taxas nos Estados Unidos diminui o diferencial de juros entre as duas economias. Esse spread é um dos principais atrativos para investidores estrangeiros que buscam retorno em renda fixa brasileira (o chamado carry trade).
“Isso reduz, na margem, a atratividade do carry brasileiro e pode adicionar pressão sobre o real, principalmente em momentos de maior aversão global a risco, quando há busca por dólar e Treasuries”, afirmou Mendes.
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Apesar desse cenário, o dólar não deve ter uma disparada imediata. Isso porque o Copom não sinalizou mudanças bruscas na trajetória de juros, e o mercado já havia precificado grande parte do movimento da moeda norte-americana nas últimas semanas. A estabilidade da moeda, portanto, reflete um equilíbrio entre o fluxo de capitais estrangeiros, o cenário externo e as incertezas fiscais domésticas.
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Juros no Brasil e nos EUA: o contraste das políticas monetárias
A decisão do Copom desta quarta-feira ocorre em um momento de divergência clara entre a política monetária brasileira e a americana. Enquanto o Banco Central do Brasil optou por manter o ritmo de cortes na Selic, o Federal Reserve adotou uma postura mais agressiva, elevando seus juros pela primeira vez em mais de dois anos.
Na coletiva de imprensa após o anúncio, o presidente do Fed, Kevin Warsh, adotou um tom durão, classificando a inflação americana como “muito alta e já assim há muito tempo”. “Os índices de inflação deste verão não me indicam que as tendências subjacentes tenham melhorado significativamente”, afirmou, reforçando a percepção de que o ciclo de aperto monetário nos EUA ainda não terminou.
Com a fala de Warsh, o mercado passou a precificar uma nova alta nos juros americanos até dezembro. A ferramenta FedWatch, do CME Group, apontava 50,9% de probabilidade de elevação na decisão de outubro do Fed, contra 49% de manutenção na faixa atual de 3,75% a 4,00% ao ano. Para a reunião de dezembro, a aposta majoritária é de alta, com 87,7% de chance de pelo menos um ajuste de 25 pontos-base.
Qual a diferença entre a Selic e a taxa do Fed? Entenda o impacto no câmbio
A principal diferença entre as duas taxas de juros está no estágio do ciclo monetário de cada país. Enquanto o Brasil iniciou seu processo de corte após levar a Selic a 14% – patamar que foi mantido para conter a inflação – os EUA estão elevando seus juros a partir de uma base de 3,75%, depois de um longo período de política monetária restritiva para controlar a inflação interna.
A taxa Selic é o instrumento básico do Banco Central para controlar a inflação no Brasil, influenciando todas as demais taxas da economia, desde juros de financiamentos até a remuneração de investimentos de renda fixa. Já a taxa do Fed (chamada de fed funds rate) é a referência para a economia americana e acaba tendo impacto global nos fluxos de capitais.
Quando o Fed aumenta os juros americanos, os títulos do Tesouro dos EUA (Treasuries) se tornam mais atrativos para investidores estrangeiros, o que valoriza o dólar em relação às moedas de mercados emergentes, como o real. Por outro lado, quando o Copom corta a Selic, os títulos públicos brasileiros perdem parte de sua atratividade em termos de juros reais, o que ainda assim mantém o Brasil como um dos destinos mais rentáveis para investidores de carry trade.
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Impacto e perspectivas da bolsa e do câmbio para os próximos meses
Com o cenário de juros em queda no Brasil e alta nos EUA, o Ibovespa deve ter um desempenho mais seletivo nos próximos meses, com os investidores priorizando empresas domésticas e expostas ao consumo, em detrimento das companhias ligadas a commodities e ao exterior. A alta do EWZ após o anúncio reforça essa tese, indicando que os investidores estrangeiros veem espaço para valorização dos ativos brasileiros no médio prazo.
No mercado de câmbio, a tendência é de que o dólar continue volátil, respondendo aos dados de inflação dos EUA e às declarações dos dirigentes do Fed. No Brasil, a atenção se volta para a aprovação das pautas fiscais no Congresso e para os dados de atividade econômica, que podem influenciar o ritmo de cortes da Selic nas próximas reuniões.
Enquanto o Copom segue cortando a Selic de forma gradual, o mercado ajusta suas apostas para a taxa de juros americana, em um exercício constante de antecipação de movimentos. A assimetria entre as políticas monetárias, no entanto, tende a manter o real em uma faixa de flutuação mais ampla nos próximos meses, com os investidores buscando oportunidades de curto prazo em um cenário de alta liquidez global e juros ainda elevados nas economias centrais.
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Para o investidor brasileiro que acompanha o dia a dia dos mercados, a recomendação é manter a cautela e diversificar a carteira, considerando tanto os ativos de renda fixa — que ainda oferecem retornos atraentes em termos reais — quanto as ações de empresas sensíveis à queda da Selic, como as dos setores de construção, consumo e varejo.
O processo de convergência entre a política monetária brasileira e a americana, ainda que em direções opostas, deve continuar ditando o humor dos mercados ao longo do segundo semestre, com os investidores atentos aos próximos capítulos dessa história: os dados de inflação, as decisões do Copom e do Fed e o cenário fiscal no Brasil.

