A terceira edição do Café CVG-SP, realizada em 14 de setembro na sede da Bradesco Vida e Previdência, colocou em pauta as transformações do seguro de vida individual e os desafios para aumentar a penetração no mercado brasileiro. O evento reuniu seguradores e corretores para debater a evolução do produto, com destaque para as coberturas em vida e a atuação do corretor como peça-chave na expansão do setor. A baixa penetração e a falta de oferta foram os pontos centrais da discussão.
O cenário do seguro de vida no Brasil
Globalmente, o seguro de pessoas mantém participação de 44% no mercado e cresce 2,5% ao ano. No Brasil, os números são mais modestos, mas Fabio Magalhães, diretor de Mercado da Bradesco Vida e Previdência, demonstrou otimismo. Segundo ele, em 2025 o segmento cresceu 13,4% no país e, neste ano, o avanço ficou pouco abaixo de 10%. Apesar do crescimento, a penetração do seguro de vida subiu apenas um ponto percentual entre 2021 e 2025, passando de 17% para 18%. Magalhães avalia que o dado deve ser celebrado, pois indica que o mercado está se movimentando, mesmo que lentamente.
O diretor também destacou que os maiores medos da população — morte, doença, invalidez e perda de renda — são exatamente os riscos cobertos pelo seguro de vida, conforme apontam pesquisas da CNseg e da Limra. Para ele, a maioria dos brasileiros tem condições financeiras de contratar uma apólice. “O prêmio mensal pode custar o mesmo que um serviço de streaming”, comparou, sugerindo que o problema não é de acesso, mas de mentalidade.
Venda consultiva como caminho para expansão
Karina Batistuti, superintendente de Negócios da MAG, acredita que há espaço para crescer e que a venda consultiva feita pelo corretor é o caminho. Ela ressalta, porém, que falta especialização no mercado. “A venda consultiva gera mais confiança, relacionamento e rentabilidade, abrindo espaço para a oferta de mais produtos”, afirmou. Batistuti compartilhou uma experiência pessoal para ilustrar o impacto do seguro: após o falecimento do pai, aos 39 anos, a família conseguiu manter o padrão de vida graças a uma apólice contratada por insistência de um corretor. “Graças a ele, hoje estou aqui”, disse.
A executiva defende que o seguro de vida deveria ser ensinado desde cedo, nas escolas, para criar uma cultura de proteção. A falta de cultura é apontada como um dos principais entraves para a baixa penetração no Brasil. Enquanto em países desenvolvidos a adesão ao seguro de vida é quase automática, aqui ainda há resistência e desconhecimento sobre os benefícios das coberturas em vida.
A transformação do produto e o novo papel do corretor
Ricardo Tarantello, diretor do Instituto MVP (Minha Vida Protegida), trouxe uma visão sobre a evolução do setor. Para ele, o corretor precisa ir além da especialização e se tornar um nexialista — profissional capaz de integrar conhecimentos de seguros, investimentos e outros serviços financeiros. “Hoje, não precisamos mais falar em morte, ficou gostoso falar de seguro de vida”, afirmou, referindo-se ao surgimento de novas coberturas em vida, como assistência saúde, prevenção e benefícios que tangibilizam o produto.
Essa transformação é impulsionada pela demanda dos consumidores por soluções mais amplas e pela digitalização do setor. O mediador Marcos Salum, diretor de Relações com o Mercado do CVG-SP, resumiu a mudança: “Hoje, não falamos mais sobre o fim, mas sobre a jornada de vida do cliente”. Isso reflete uma abordagem mais centrada no cliente, em que o seguro de vida deixa de ser um produto focado apenas em indenizações por morte e passa a oferecer benefícios durante a vida.
Fabio Magalhães reforçou o papel do corretor como agente de confiança. “Os corretores detêm a confiança do cliente. Então, aproveitem e façam a oferta”, incentivou. A ideia é que o profissional utilize o relacionamento já existente para apresentar o seguro de vida como parte de um planejamento financeiro mais amplo, e não como um produto isolado.
Desafios e perspectivas para o mercado brasileiro
Apesar dos sinais positivos, a baixa penetração ainda é o grande desafio. Durante o debate, os participantes discutiram como aumentar o número de corretores especializados e como melhorar a oferta de produtos. Karina Batistuti sugeriu que a educação financeira e securitária deveria começar nas escolas, para formar cidadãos mais conscientes sobre a importância da proteção. Já Ricardo Tarantello defendeu que o corretor deve se adaptar às novas demandas, oferecendo seguros distintos e até investimentos, tornando-se um consultor financeiro completo.
O presidente do CVG-SP, Anderson Mundim, avaliou o evento como excelente. “O Café CVG-SP mostrou a evolução do seguro de vida e as mudanças nos processos para facilitar a venda do corretor”, disse. A expectativa é que as novas modalidades e coberturas em vida continuem derrubando o tabu que historicamente cercou o seguro de vida no Brasil, abrindo caminho para um mercado mais robusto e acessível.
O setor está em movimento, impulsionado por inovações nos produtos e por uma nova postura dos corretores, que passam a atuar como verdadeiros consultores de proteção. Se a tendência se confirmar, o seguro de vida individual pode finalmente ocupar o espaço que lhe cabe na vida financeira do brasileiro, deixando de ser um item esquecido para se tornar parte essencial do planejamento familiar.

