O mercado financeiro brasileiro vive um momento de paradoxo: a bolsa está barata, mas o risco de comprar ativos equivocados nunca foi tão alto. Com juros elevados e sinais de desaceleração econômica, gestores de fundos estão adotando uma estratégia conservadora, evitando empresas endividadas e priorizando companhias líderes em seus setores. A AlphaKey, por exemplo, decidiu adiar a compra de Magazine Luiza (MGLU3) e outras ações que, embora pareçam pechinchas, carregam riscos financeiros que podem se agravar em um cenário de aperto monetário.
Por que a AlphaKey está evitando Magazine Luiza e outras empresas endividadas?
A lógica por trás dessa cautela é simples: quando o dinheiro continua caro e o crescimento perde força, a dívida deixa de ser apenas um problema contábil e pode se tornar uma ameaça real à geração de caixa. Empresas como Magazine Luiza, Rumo (RAIL3) e as do grupo Simpar (SIMH3) são exemplos de companhias que, segundo Christian Keleti, sócio-fundador e gestor da AlphaKey, podem ser boas oportunidades no futuro, mas não agora. “Não é para comprar agora. É para defender o dinheiro de vocês”, afirmou Keleti durante um painel no evento anual do Santander.
O recado ecoa entre outros gestores de peso. Christian Faricelli, da Absolute, e Bruno Cordeiro, da Kapitalo, também presentes no evento, compartilham da mesma visão: há oportunidades na bolsa, mas o momento exige seletividade. Em vez de tentar capturar a ação que mais caiu, a preferência está nas companhias com balanços sólidos e capacidade de atravessar um cenário ainda incerto.
Onde investir na bolsa? Gestores trocam pechinchas por líderes
Keleti cita a Rede D’Or (RDOR3), no setor de saúde, e a Cyrela (CYRE3), na construção civil, como exemplos de empresas que se encaixam melhor nessa estratégia. A ideia não é abandonar completamente as companhias mais alavancadas, mas esperar que o cenário ofereça uma relação mais favorável entre risco e retorno. A própria Rumo pode voltar ao portfólio da AlphaKey caso a tese se desenvolva como esperado, mas o gestor não considera que seja o momento adequado.
A cautela tem uma razão adicional: uma ação que parece barata hoje pode ficar ainda mais barata amanhã. “Não tem por que querer inventar. ‘Vou pegar porque está com desconto.’ Não, eu prefiro pagar melhor”, explicou Keleti.
Bolsa barata, mas economia preocupa
Christian Faricelli, da Absolute, compartilha dessa cautela. Para ele, muitas ações são negociadas a preços atrativos na bolsa brasileira — “não tem a menor dúvida”. O problema está no ambiente doméstico. “Não tem posição local… fundo de pensão não tem posição, o mercado não tem posição. Eu estou muito preocupado com essa parte doméstica”, afirmou.
Na avaliação do gestor, a economia está perdendo força ao mesmo tempo em que famílias e empresas seguem alavancadas. Essa combinação pode aumentar a pressão sobre o crédito e dificultar a recuperação dos resultados corporativos. “Acho que a gente pode ter um momento muito maluco”, disse Faricelli. É justamente nesse ponto que o endividamento ganha importância. Com juros elevados, empresas que carregam uma estrutura pesada de dívida precisam destinar uma parcela maior do caixa ao pagamento de despesas financeiras. Se a atividade também desacelera, a receita e a geração de caixa podem perder força. Nesse cenário, companhias com balanços mais sólidos ganham uma vantagem: mais tempo para esperar a virada do ciclo.
E se o Banco Central cortar os juros?
Uma economia mais fraca poderia abrir espaço para cortes da Selic. Mas, para Faricelli, esse seria um caso em que uma notícia aparentemente positiva poderia esconder um problema maior. Os juros poderiam cair pelo motivo errado: uma deterioração mais profunda da atividade econômica. “Uma economia fraca, com recessão nos próximos dois anos, é um cenário que eu acho muito mais provável do que todos os economistas lá da Absolute. E, por isso, a gente está tomando bastante cuidado”, afirmou.
Por isso, a Absolute mantém uma postura defensiva, com uma visão particularmente cautelosa sobre as ações de pequena capitalização (small caps), que tendem a ser mais sensíveis ao custo do dinheiro e às condições domésticas de crédito. Para o investidor brasileiro, a mensagem é clara: não basta a bolsa estar barata; é preciso garantir que a empresa escolhida tenha fôlego financeiro para sobreviver a um período de vacas magras.
Exportadoras entram no radar na bolsa
Se o problema está concentrado na economia brasileira, empresas com receitas vinculadas ao mercado externo podem oferecer uma alternativa. Faricelli aponta as exportadoras como outra classe de ativos que considera barata atualmente. “Hoje eu acho que é bom para você estar protegido nesse segmento”, disse. A Absolute já teve exposição à Prio (PRIO3), mas a tese esbarra em um risco conhecido do mercado brasileiro: a interferência do governo em setores estratégicos. “Mas daí, quando sobe o petróleo, o governo taxa. É difícil isso”, afirmou.
O cenário, portanto, reforça a necessidade de uma estratégia seletiva e defensiva. Para quem busca boas líderes na bolsa, o momento pede paciência e análise criteriosa, priorizando empresas com balanços robustos e capacidade de geração de caixa mesmo em um ambiente de juros altos e crescimento fraco. A AlphaKey e outros gestores deixam claro: a hora de comprar pechinchas pode até chegar, mas não é agora.
