Choque do petróleo pode inverter política monetária global e beneficiar commodities brasileiras

O cenário geopolítico no Oriente Médio, com o agravamento das tensões entre Irã e Estados Unidos e a ameaça real de interrupção no fluxo de petróleo pelo estratégico Estreito de Ormuz, está forçando gestores e analistas a recalibrar suas projeções macroeconômicas. No centro do debate está uma questão crucial: um possível choque no preço do barril teria hoje um efeito completamente diferente do observado em 2022, podendo inclusive inverter a direção da política monetária de grandes economias. Enquanto o mercado reage com volatilidade, especialistas apontam que o mundo está mais preparado para absorver esse tipo de disrupção, e o Brasil, como grande exportador de commodities, pode emergir como um dos beneficiários estruturais desse novo rearranjo global.

O abismo entre o choque de 2022 e a crise atual

Bruno Mauad, sócio da gestora Kapitalo, argumenta que equiparar a situação atual à crise inflacionária de 2022 é um exagero do mercado. Naquele ano, o mundo enfrentou um fenômeno raro e devastador: gargalos simultâneos em cadeias produtivas, rupturas logísticas e uma demanda superaquecida pós-pandemia, tudo convergindo para pressionar os preços de forma generalizada. “A chance de ter um descolamento forte do preço do petróleo é muito maior do que você ter descarrilamento da economia global”, afirmou Mauad durante participação no programa Stock Pickers. Segundo sua análise, a economia mundial demonstrou uma resiliência impressionante nos últimos anos, absorvendo sucessivos choques como a alta agressiva de juros, as guerras tarifárias e a reconfiguração das cadeias de suprimentos.

Como um choque isolado de petróleo pode virar a política monetária de ponta-cabeça

O raciocínio de Mauad aponta para uma dinâmica contraintuitiva. Enquanto em 2022 a inflação de custos generalizada forçou os bancos centrais a apertarem a política monetária, um choque centrado apenas no petróleo poderia ter o efeito oposto. “Se de fato começar a morder na atividade para o outro lado, aí o negócio vira em uma velocidade grande. Daí você vai ter a política monetária para o outro lado”, explicou. A lógica é que um aumento abrupto e sustentado no preço da energia atuaria como um imposto sobre o consumo e a produção, esfriando a atividade econômica. Nesse cenário, o combate à inflação derivada do petróleo daria lugar à preocupação com uma recessão, levando os bancos centrais a considerar, paradoxalmente, um afrouxamento monetário para sustentar o crescimento.

A inelasticidade da demanda e o risco de picos extremos de preço

Carlos Woelz, também sócio da Kapitalo, reforça o argumento ao destacar a natureza inelástica da demanda global por petróleo. “A demanda por petróleo é extremamente inelástica. No momento que de fato ficar fechado e faltar, vai para o preço que for”, alertou. Essa característica significa que uma redução significativa na oferta, como a que poderia ocorrer com o fechamento do Estreito de Ormuz, não seria acompanhada por uma queda proporcional na procura, resultando em espirais de preços difíceis de prever. A ressalva dos gestores, no entanto, é que esses picos podem ser de curta duração. A história mostra que, após momentos de tensão extrema, os preços tendem a se estabilizar em patamares mais baixos, embora estruturalmente elevados.

A nova guerra assimétrica no Golfo Pérsico e seus custos desproporcionais

A discussão também avançou para a natureza do conflito atual. Woelz chamou a atenção para a assimetria de custos entre ataque e defesa que caracteriza a região hoje. “Você tem capacidades de ataque que são desproporcionais em relação ao custo e à efetividade, como microssubmarinos e drones baratos, que permitem manter um conflito durante muito tempo a partir de um custo muito baixo para o Irã”, avaliou. Essa nova dinâmica, onde um ator pode perturbar o fluxo de uma commodity vital para a economia global com tecnologia acessível, cria um risco crônico e de difícil resolução. A simples ameaça já é suficiente para elevar os prêmios de seguro para navios que transitam pela região, encarecendo o transporte e afetando os preços finais mesmo sem um bloqueio total.

O estreito de Ormuz e a fragilidade das rotas energéticas globais

O Estreito de Ormuz, um canal de navegação com apenas 39 km de largura em seu ponto mais estreito, é uma artéria crítica. Por ele passam cerca de 20% do consumo global de petróleo e uma parcela significativa do gás natural liquefeito (GNL). Qualquer interrupção, mesmo que parcial, gera ondas de choque imediatas nos mercados futuros e na psicologia dos investidores. A conversa entre os gestores destacou que, além do risco militar direto, a simples incerteza sobre a viabilidade dos seguros marítimos já é um fator disruptivo. Empresas de navegação podem se recusar a operar na região sem cobertura, criando um gargalo logístico por medo, não por ação.

O cenário estruturalmente positivo para as commodities e o lugar do Brasil

Mauad ampliou a análise, conectando a tensão geopolítica a um quadro macro mais amplo que é estruturalmente favorável para os exportadores de commodities, como o Brasil. Ele citou a combinação de um dólar potencialmente mais fraco, a demanda explosiva por energia para alimentar data centers (impulsionada pela inteligência artificial) e as crescentes dificuldades para expandir a oferta de matérias-primas. “Esse contexto pode levar as commodities, ou pelo menos uma parte grande delas, a continuar subindo”, projetou. Para o gestor, o ciclo atual é distinto do passado porque os obstáculos para aumentar a produção são maiores, envolvendo pressões regulatórias, ambientais e sociais que não existiam na mesma intensidade.

As dificuldades da nova expansão de oferta no setor de energia

O gestor usou um exemplo doméstico para ilustrar a mudança de paradigma. “Na época do pré-sal, ninguém discutia perfurar o pré-sal. Hoje em dia, o negócio da margem equatorial é uma dificuldade imensa”, observou, referindo-se aos debates ambientais e sociais em torno de novas fronteiras exploratórias. Essa maior cautela das empresas e a complexidade dos processos de licenciamento tornam a resposta da oferta mais lenta e cara. Quando um choque de demanda ocorre, como o atual pela energia para data centers, a produção não consegue reagir com a mesma velocidade de ciclos anteriores, sustentando preços altos por mais tempo.

A resiliência testada da economia global e os limites da previsão

Um ponto central levantado na conversa foi a surpreendente capacidade de absorção de choques demonstrada pela economia mundial nos últimos anos. Mauad lembrou que o sistema sobreviveu a uma pandemia global, a uma guerra na Europa, a uma reconfiguração completa das cadeias de suprimentos e a uma das maiores altas de juros da história moderna. Essa resiliência sugere que um choque isolado, por mais severo que seja, tem menor potencial para causar um colapso sistêmico. No entanto, essa mesma complexidade e interconexão tornam o ato de prognosticar extremamente difícil. Variáveis como a reação dos bancos centrais, a evolução tecnológica da guerra e as decisões políticas em capitais como Washington, Teerã e Riyadh são intrinsecamente imprevisíveis.

A volatilidade gerada pela tensão no Oriente Médio serve como um lembrete poderoso de que a estabilidade das últimas décadas pode ter sido uma exceção, não a regra. Para o investidor brasileiro, o cenário aponta para a necessidade de diversificação e para a importância de considerar ativos que possam se beneficiar tanto da alta das commodities quanto de uma possível mudança no ciclo de juros global. Enquanto o mundo observa com apreensão o Estreito de Ormuz, a combinação de uma oferta restrita e uma demanda inelástica por recursos naturais desenha um horizonte onde os exportadores de matérias-primas bem geridos possuem uma vantagem estrutural difícil de ser replicada em outros setores da economia.

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