Massa falida da FTX vende participação na Cursor por US$ 200 mil; hoje vale US$ 3 bilhões

Entenda como a venda apressada de uma startup de IA pela massa falida da FTX resultou em uma perda bilionária para os credores.

A participação de 5% na Cursor, vendida por US$ 200 mil em 2023, hoje vale US$ 3 bilhões após acordo com a SpaceX.
Destaques
  • A FTX vendeu sua participação na Cursor por apenas US$ 200 mil em abril de 2023, sem capturar valorização.
  • A Cursor hoje atende 67% das empresas da Fortune 500 e tem receita anualizada de US$ 1 bilhão.
  • O acordo com a SpaceX prevê aquisição total da Cursor por US$ 60 bilhões ainda em 2026.

Em um dos episódios mais emblemáticos dos descasamentos entre o mercado de criptomoedas e o universo das startups de tecnologia, a massa falida da FTX vendeu, em abril de 2023, sua participação de 5% na Cursor por apenas US$ 200 mil. Hoje, após o acordo de aquisição da startup pela SpaceX por uma avaliação de US$ 60 bilhões, essa mesma fatia vale aproximadamente US$ 3 bilhões. A diferença de 15.000 vezes entre o valor de venda e o valor atual expõe uma das maiores perdas de recuperação já registradas em processos de falência do setor cripto.

O negócio que evaporou: da Alameda Research à venda forçada pela FTX

A origem do investimento remonta a abril de 2022, quando a Alameda Research, braço de trading da FTX, participou da rodada semente da Anysphere — a empresa controladora da Cursor. Por US$ 200 mil, a Alameda garantiu cerca de 5% da startup de codificação por inteligência artificial, a uma avaliação de US$ 4 milhões. Sete meses depois, o colapso da FTX mudou completamente o cenário.

Sob a administração de John J. Ray III, a massa falida foi colocada sob intensa pressão para converter ativos de risco — especialmente participações ilíquidas em startups — em dinheiro rapidamente. Em abril de 2023, a posição na Cursor foi liquidada exatamente pelo mesmo valor que a Alameda havia pago: US$ 200 mil. Zero valorização foi capturada. A venda ocorreu no mesmo trimestre em que a Cursor lançou seu produto de codificação por IA, antes de qualquer receita significativa.

O boom da IA e o valuation que transformou a história

O que ninguém podia prever naquele momento de mercado de baixa era a explosão de valor que viria com o ciclo de IA de 2025-2026. A Cursor hoje atende 67% das empresas listadas na Fortune 500, ultrapassou US$ 1 bilhão em receita anualizada e se tornou peça central na estratégia de Elon Musk para fechar a lacuna da xAI com a OpenAI e a Anthropic em ferramentas de codificação.

O acordo com a SpaceX prevê que a empresa de foguetes e comunicações detém o direito de adquirir a Cursor integralmente por US$ 60 bilhões ainda em 2026, ou pagar uma taxa de rescisão de US$ 10 bilhões caso seu cronograma planejado para um IPO de US$ 2 trilhões force um adiamento. Com base no valuation da aquisição, a participação de 5% que a FTX vendeu por uma ninharia vale hoje US$ 3 bilhões.

Especialistas observam que a cifra final para os credores pode ser menor, considerando a diluição de uma rodada de financiamento separada de US$ 900 milhões que a Cursor concluiu com um valuation de US$ 9 bilhões. Ainda assim, mesmo com um desconto significativo, a perda de recuperação estrutural para os credores é estimada em bilhões de dólares.

O que essa venda revela sobre a administração de falências em tecnologia

O caso da Cursor fornece o ponto de dados mais concreto para o argumento que Sam Bankman-Fried vem sustentando diretamente da prisão. Em fevereiro de 2026, SBF projetou que o valor líquido dos ativos da FTX teria atingido US$ 78 bilhões se a massa falida tivesse mantido as posições durante a recuperação do mercado. O número da Cursor sozinho adiciona US$ 3 bilhões de evidência de suporte em um único item.

Os clientes da FTX foram ressarcidos em termos de dólares sob o plano de distribuição, recebendo os valores das reivindicações acrescidos de juros. O que a estrutura de recuperação de credores não preservou — e estruturalmente não poderia — foi o lucro potencial do que esses ativos se tornaram. Essa é a tensão real no centro da administração de ativos estressados: a recuperação de dólares e a recuperação de valor não são a mesma coisa, e a lei de falências é construída em torno da primeira.

Para o investidor brasileiro, o episódio serve como um alerta sobre os riscos inerentes à liquidação forçada de ativos ilíquidos em processos de falência. Diferentemente de ativos com liquidez em bolsa — como ações da B3 ou títulos do Tesouro Direto —, participações em startups de tecnologia podem sofrer um descasamento brutal entre o valor de venda emergencial e o valor intrínseco futuro.

O que o investidor brasileiro deve acompanhar daqui para frente

O desfecho desse caso ainda não está completamente escrito. A SpaceX precisa decidir entre exercer a opção de adquirir a Cursor por US$ 60 bilhões ou pagar a multa de US$ 10 bilhões e adiar a transação. Essa decisão definirá a marca final do que os credores efetivamente perderam.

Para quem acompanha o mercado cripto e de startups no Brasil, o episódio reforça a importância de entender que, em processos de falência, a velocidade de conversão em caixa pode sacrificar drasticamente o valor de longo prazo. A administração da massa falida da FTX optou por liquidez imediata — e o custo dessa escolha, medido em bilhões de dólares perdidos para os credores, agora está claro.

No Brasil, onde o mercado de ativos digitais ainda busca maturidade regulatória, o caso da Cursor é um lembrete de que a lei de falências, desenhada para proteger credores, nem sempre consegue capturar o valor de ativos em setores de alta velocidade tecnológica. O investidor brasileiro que se expõe a startups ou a fundos de venture capital deve estar ciente de que, em cenários de estresse, a liquidez tem um preço — e esse preço pode ser a diferença entre uma recuperação modesta e um ganho extraordinário que jamais se realiza.

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