Em meio à turbulência global desencadeada pela escalada do conflito entre Irã e Israel em março, um divisor de águas separou os fundos multimercados brasileiros que preservaram patrimônio daqueles que sofreram perdas expressivas. A decisão crucial, tomada nas primeiras 48 horas após a eclosão dos confrontos, foi simples em teoria, porém complexa na prática: zerar ou não a exposição ao risco de mercado. Enquanto a maioria da indústria enfrentava um choque violento nos preços de ativos globais, um grupo seleto de gestores — com destaque para estratégias long short e quantitativas — não apenas defendeu o capital dos cotistas, como manteve rentabilidade superior ao CDI no acumulado do ano. A velocidade de reação e a leitura prévia do cenário geopolítico se mostraram determinantes para o desempenho divergente.
A decisão crítica nos primeiros dias do conflito
“Cada dia é um conjunto de informações novas que faz o gestor atualizar a posição”, explicou Alexandre Aagesen, gestor de portfólio da XP Advisory, durante participação no programa Stock Pickers. “Teve um momento em que alguns gestores até acreditaram que poderia ser mais breve e mantiveram [a exposição]. Mas depois, logo no dia seguinte, você viu que a parada escalava — e isso fez com que fossem até forçados a reduzir risco.” A análise de Aagesen destaca a armadilha psicológica e operacional que pegou parte do mercado. A esperança inicial de um conflito contido, comparável a eventos geopolíticos anteriores de curta duração, fez com que muitos adiassem a decisão de proteção. Quando a escalada se confirmou, com o fechamento do Estreito de Hormuz e a retaliação direta de Israel, a redução de risco tornou-se uma medida de salvamento, muitas vezes realizada a preços menos favoráveis, amplificando as perdas.
Cartas de gestores em fevereiro já sinalizavam posicionamentos
O programa dedicou atenção especial ao que as cartas mensais dos gestores, publicadas no final de fevereiro, revelavam sobre o preparo de cada um. A lógica, segundo os apresentadores Lucas Collazo e Davi Fontenele, é direta: gestores que já sinalizavam preocupação com a alta probabilidade de um conflito prolongado e sério entre Irã e Israel, provavelmente, já haviam começado a ajustar suas carteiras, reduzindo exposição a ativos cíclicos e aumentando proteções. Por outro lado, aqueles que minimizaram o risco ou compararam a situação a eventos passageiros, como a tensão envolvendo Nicolás Maduro na Venezuela que não chegou a afetar significativamente o petróleo, demoraram mais para agir. Essa demora teve um custo direto refletido na cota dos fundos no mês de março.
O caso emblemático do fundo Verde na crise
Entre os fundos de estratégia macro, um nome se sobressai como o único a permanecer no topo da performance relativa ao CDI no acumulado do ano: o Verde, gerido por Luiz Stuhlberger. Com o histórico de cota mais longo da indústria brasileira, ativo desde a crise de 2008, o fundo enfrentou agora a terceira maior turbulência do índice de multimercados. “Claramente, a guerra fez mal para a posição dele, mas ele conseguiu, talvez, zerar mais rápido do que o concorrente, e já tinha uma gordura acumulada no ano”, analisou Davi Fontenele. O desempenho ilustra a estratégia: mesmo com perdas no mês de março, o fundo mantém um resultado robusto em doze meses, superando o CDI de 14,75% ao ano. Fontenele simplifica: “É como se ele tivesse criado uma gordura de CDI mais 2% e agora estivesse rendendo CDI menos 1%, grosso modo. Fica, mais ou menos, no ano, CDI mais 1%”.
Estratégias long short brilham na navegação da tempestade
Fora do universo macro tradicional, os fundos long short emergiram como grandes destaque positivos. Essas estratégias, que operam com pares de ações, apostando na alta relativa de algumas companhias e na baixa de outras, mostraram resiliência excepcional. Nomes como Solana, Atmos Red, Constância Absoluta e AzQuest Base foram citados como exemplos de bom desempenho. Fontenele destacou o caso do AzQuest Base: “O AzQuest era a carta mais pessimista das que eu li em relação à guerra. Está ganhando 1% no mês, conseguiu defender”. A capacidade desses fundos de se protegerem através de posições vendidas (short) e de explorarem ineficiências de mercado em momentos de pânico provou ser um diferencial valioso, isolando-os em parte do movimento generalizado de baixa.
O papel dos fundos quantitativos na defesa do capital
Os fundos quantitativos, que baseiam suas decisões em modelos matemáticos e algoritmos, também aparecem bem posicionados na análise pós-crise. Exemplos como o Ace Macro Cenários e o Kadima foram mencionados como estratégias que, na janela do ano, seguem bem acima do CDI. A ausência de viés emocional na tomada de decisão e a execução disciplinada de regras predeterminadas podem ter contribuído para uma reação mais rápida e sistemática à mudança no ambiente de risco. Esses modelos, muitas vezes, incorporam sinais de volatilidade e correlações que disparam alertas automáticos para a redução de alavancagem ou hedge, mecanismos que se mostraram eficazes no episódio recente.
Diversificação de estratégias como fator de resiliência
O padrão que emerge da performance dos fundos em março vai além da simples escolha entre zerar ou não o risco. A análise da XP revela que a diversificação entre diferentes estilos de gestão e abordagens de mercado foi um fator decisivo para a resiliência das carteiras. Fundos que combinam, em sua estrutura, exposições a estratégias macro, long short, quantitativas e até crédito privado, sofreram menos do que aqueles concentrados em uma única visão ou classe de ativo. A crise funcionou como um teste de estresse real, evidenciando que a alocação para gestores com processos não correlacionados pode amortecer choques sistêmicos, mesmo quando um ou outro pilar da estratégia é impactado.
O custo elevado da proteção e a opção por risco reduzido
Um ponto crucial levantado durante a análise foi o custo exorbitante de se proteger durante o pico da crise. Com a implosão da volatilidade e a disparada dos prêmios de opções e contratos futuros para hedge, muitos gestores se viram diante de um dilema: pagar um preço muito alto para se proteger ou reduzir a exposição ao risco bruto se tornou uma aposta arriscadíssima. Diante desse cenário, a opção racional para vários foi simplesmente reduzir a exposição líquida, andar com a carteira mais “leve” e esperar a poeira baixar. Essa movimentação em massa, porém, contribuiu para a liquidação de ativos e a acentuação das quedas, criando um ciclo vicioso do qual apenas os mais ágeis ou preparados conseguiram escapar ilesos.
O legado da crise de março para a indústria de fundos
O episódio de março deixa lições profundas para gestores e investidores. Em primeiro lugar, reforça a importância de se ter um processo decisório claro e ágil para eventos de cauda (tail risk), que não dependa exclusivamente de consenso ou de esperança por uma solução rápida. Em segundo, evidencia o valor das cartas de gestores como instrumento de transparência e sinalização de risco; investidores atentos podem usar essas comunicações para antecipar o posicionamento e a resiliência de seus fundos. Por fim, coloca em xeque estratégias excessivamente dependentes de um único viés ou de alavancagem elevada em um mundo onde choques geopolíticos parecem se tornar mais frequentes e intensos.
A capacidade de “zerar o risco” no momento certo mostrou-se mais do que uma técnica operacional; foi a materialização de uma combinação rara de disciplina, leitura de cenário e coragem para agir contra o fluxo momentâneo do mercado. Enquanto alguns gestores esperaram por uma clareza que nunca veio, outros entenderam que, em tempestades perfeitas, a primeira prioridade é garantir que o barco não afunde, mesmo que isso signifique parar de remar por um tempo. O resultado dessa diferença de timing e convicção está agora estampado nas cotações, separando de forma indelével os que navegaram a tormenta dos que foram por ela engolidos.

