Pesquisadores da Fiocruz desenvolvem medicamento fitoterápico de quebra-pedra para distribuição no SUS

Uma planta medicinal amplamente utilizada na cultura popular brasileira está prestes a dar um salto da medicina tradicional para as prateleiras da farmácia pública. Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) estão desenvolvendo o primeiro medicamento fitoterápico padronizado à base de quebra-pedra (Phyllanthus niruri), com o objetivo claro de incorporá-lo ao Sistema Único de Saúde (SUS). O projeto, que conta com um investimento de R$ 2,4 milhões em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), representa um marco na valorização do conhecimento tradicional associado à biodiversidade nacional.

A fase inicial de desenvolvimento do medicamento deve ser concluída em aproximadamente seis meses. No entanto, o caminho até a distribuição nas unidades de saúde é mais longo e meticuloso. Após esta etapa, o fitoterápico precisará passar por uma série rigorosa de estudos científicos e testes de segurança, um processo que pode levar cerca de dois anos. A aprovação final cabe à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que avaliará a eficácia, segurança e qualidade do produto. Se aprovado, a quebra-pedra farmacêutica se juntará a outros 12 fitoterápicos já disponíveis no SUS, como o xarope de guaco e a unha-de-gato.

Os riscos do uso caseiro e a segurança do medicamento industrializado

Embora o chá de quebra-pedra seja um remédio caseiro secular, seu preparo artesanal esconde riscos que um medicamento industrializado elimina. A falta de padronização é o principal problema: é difícil para o cidadão comum garantir que está utilizando a espécie correta de planta, na dosagem adequada e livre de contaminações. A quantidade de substâncias ativas pode variar drasticamente de uma planta para outra, dependendo do solo, clima e época de colheita. O processo industrial controla todas essas variáveis, garantindo que cada comprimido, cápsula ou solução contenha exatamente a mesma quantidade do princípio ativo, com pureza e eficácia comprovadas em laboratório.

O foco renal: evidências científicas sobre os benefícios da planta

A fama popular da quebra-pedra como aliada da saúde dos rins e do sistema urinário tem encontrado respaldo em pesquisas científicas. O benefício mais estudado e promissor é sua ação na prevenção de cálculos renais, as popularmente chamadas “pedras nos rins”. Estudos indicam que extratos da Phyllanthus niruri podem inibir a formação de cristais de oxalato de cálcio, os principais constituintes da maioria dos cálculos. Este efeito preventivo é de grande relevância para um problema de saúde que afeta cerca de 12% da população mundial em algum momento da vida, segundo a Sociedade Brasileira de Nefrologia.

Mecanismos de ação além da prevenção

Além de prevenir a formação de novas pedras, pesquisas apontam para outros mecanismos de ação. A planta parece ter um efeito relaxante sobre a musculatura do trato urinário, o que poderia facilitar a eliminação de pequenos cálculos já formados, reduzindo a dor e o desconforto associados à sua passagem. Um efeito diurético leve também é observado, aumentando o volume de urina e ajudando na “lavagem” do sistema, diluindo substâncias que poderiam se cristalizar. Alguns estudos preliminares ainda sugerem propriedades anti-inflamatórias, que poderiam auxiliar no tratamento de infecções ou inflamações urinárias. É crucial ressaltar, porém, que os pesquisadores envolvidos no projeto da Fiocruz enfatizam a necessidade de mais estudos clínicos robustos para confirmar e quantificar todos esses benefícios em humanos.

A quebra-pedra no mundo: uma planta com muitos nomes e uma longa história

A Phyllanthus niruri não é uma descoberta brasileira, mas sim uma planta com distribuição pantropical e um histórico de uso milenar em diversas medicinas tradicionais. No Brasil, é conhecida como quebra-pedra, nome que reflete sua indicação popular. Em países de língua espanhola, recebe o nome de chanca piedra (“quebra-pedra” em espanhol). Na Índia, é chamada de bhumyamalaki e é um componente importante da medicina ayurvédica. Entre os povos indígenas brasileiros, como os Ka’apor do Maranhão, a planta é conhecida como Ita-Mirá. Esta convergência cultural no reconhecimento de suas propriedades reforça seu potencial terapêutico.

O contexto das políticas públicas de saúde no Brasil

O desenvolvimento deste fitoterápico não é um projeto isolado, mas sim parte de um movimento estratégico do Estado brasileiro. Ele se alinha diretamente com duas políticas nacionais: a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) e a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF). A PNPIC, instituída em 2006, tem como objetivo ampliar o acesso da população a terapias complementares dentro da rede pública, oferecendo opções além da medicina convencional. Já a PNPMF busca fomentar a pesquisa, o desenvolvimento e a produção sustentável de medicamentos a partir da biodiversidade brasileira, transformando conhecimento tradicional em inovação tecnológica e geração de renda.

O mercado global de fitoterápicos e o potencial desperdiçado do Brasil

Enquanto o mercado mundial de medicamentos à base de plantas movimenta bilhões de dólares anualmente, o Brasil, detentor da maior biodiversidade do planeta, participa de forma ainda tímida neste cenário. Frequentemente, plantas nacionais são exportadas como matéria-prima bruta a baixo custo e depois reimportadas na forma de medicamentos industrializados e com alto valor agregado, produzidos por laboratórios estrangeiros. O projeto da Fiocruz com a quebra-pedra é um exemplo de como reverter essa lógica. Ao dominar toda a cadeia – da pesquisa ao produto final – o país agrega valor à sua biodiversidade, gera conhecimento científico, promove a inovação tecnológica nacional e, o mais importante, oferece um tratamento acessível e de qualidade para sua população através do SUS.

A transformação da quebra-pedra em um medicamento fitoterápico padronizado simboliza mais do que um avanço farmacêutico; representa a convergência entre o saber popular e a ciência moderna, entre a riqueza natural e a inovação tecnológica, e entre a saúde pública e o desenvolvimento nacional. Se bem-sucedido, este projeto não apenas oferecerá uma nova ferramenta para o combate a um problema de saúde prevalente, mas também pavimentará o caminho para que outras plantas do imenso arsenal da flora brasileira possam seguir o mesmo percurso, beneficiando milhões de brasileiros e consolidando a posição do país como protagonista no campo da farmacobotânica.

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